Made in America

A candidata “abençoada” e “experiente”

Hillary Clinton tenta a todo o custo diminuir a vantagem de Bernie Sanders no New Hampshire. E não está sozinha: trouxe a cavalaria

Hillary Clinton tem várias características ímpares entre os pré-candidatos à presidência dos Estados Unidos. A mais óbvia é que, de todos, é a única que já viveu mesmo na Casa Branca. Foi também ela a única a ocupar um lugar no executivo norte-americano, como Secretária de Estado no primeiro mandato de Barack Obama. É também a única a ter um presidente (os líderes norte-americanos mantêm o título mesmo depois de deixar o cargo) a fazer campanha por ela. Agora no New Hampshire onde, no próximo dia 9 de Fevereiro, se realizam as eleições primárias, “as primeiras da nação”. E Bill Clinton repete até à exaustão a mensagem que acredita que irá convencer os norte-americanos a escolherem a mulher como próxima presidente dos Estados Unidos (o que daria ao casal Clinton mais uma característica única): “ela é a melhor e mais bem preparada pessoa para o cargo”, disse esta terça-feira no campus universitário de Nashua.

Era o dia seguinte ao caucus do Iowa, onde Hillary Clinton venceu o senador do Vermont Bernie Sanders por uma margem de 0,2% (em seis locais o resultado final foi decidido por moeda ao ar, sempre para vitória da ex-primeira dama). Foi por tão pouco que os resultados oficiais só foram conhecidos já na manhã seguinte. A noite tinha sido longa. E Bill Clinton notou isso. “Bem, estamos aqui e estamos acordados”, disse assim que subiu ao pequeno palco quadrado montado num dos extremos do pavilhão desportivo da universidade. Sempre com o microfone na mão direita, foi fazendo o esperado: o elogio à experiência e dedicação da mulher à causa pública. Ainda assim, parecia cansado. Com voz rouca, por vezes demasiado baixa para o ruído da sala, foi contando pequenos episódios da vida em comum com Hillary. De como ela sempre se esforçou por ajudar os outros e conseguiu tornar o país melhor.

OriginalSize2016_02_03_13_39_01_153486

No entanto, a sua mais valia é mesmo a sua experiência no cargo e a aura de vencedor. “Sabem”, disse, “o que aprendi foi que vamos ter grandes dias na saúde, no ambiente, na educação. Vai haver dias maus em que coisas más acontecem cá e no mundo. Depois há todos os outros dias. No fundo, a vida de um presidente é como a vossa. Temos que aparecer todos os dias e fazer o melhor.” E continuou: “A questão com ela é que, qualquer que seja o lugar em que a ponham, ela arranja sempre maneira de fazer mais coisas boas nesse lugar do que qualquer outro. Se querem isso, enviem uma mensagem à América e votem na melhor fazedora de mudanças que conheço, Hillary Rodham Clinton”.

Enquanto a multidão de cerca de 1100 pessoas que preenchia – mas não enchia – o pavilhão se levantava em aplauso, a candidata democrata saía de trás da cortina preta. Vestida de fato e camisola roxos, subiu as escadas, abraçou o marido num gesto mecânico, agarrou no microfone e dirigiu-se imediatamente à plateia. O tom é decidido. O contraste com o Bill Clinton é gritante. A energia está toda do lado dela. “Estou tão contente por vir ao New Hampshire depois de ganhar no Iowa. Já lá ganhei e já perdi e, digo-vos, é melhor ganhar”, afirmou (apesar de o resultado oficial só ter sido divulgado quando já ela tinha acabado de falar). Mesmo sendo curta, essa vitória deu-lhe mais uma característica única: tornou-se a primeira mulher a ganhar o caucus no Iowa.

No New Hampshire não terá uma tarefa fácil. Todas as sondagens dão uma vantagem confortável a Bernie Sanders, senador do estado vizinho do Vermont. Em média, de acordo com o site Real Clear Politics, a diferença entre os dois é de quase 20 pontos percentuais. Mas Hillary está apostada em reduzir a diferença. Até à votação, vai passar os dias a percorrer o New Hampshire e não estará sozinha. Para além de Bill Clinton, atraiu um conjunto de celebridades a fazer campanha em seu nome, como o actor Ted Danson (Cheers), a antiga agente da CIA Valerie Plame, ou o congressista Sean Patrick Maloney.

O primeiro homossexual assumido a ser eleito para o Congresso por Nova Iorque foi até à cidade de Concord para participar num “canvas”, uma iniciativa de campanha em que voluntários vão bater às portas de potenciais eleitores e tentar convencê-los a votar no seu candidato. Antes de sair para as ruas, Sean Maloney recordou ao grupo de voluntários que apareceram nessa tarde que conhece os Clinton há 24 anos e que na campanha de 1992 dormiu muitas vezes no chão. Depois acabou por trabalhar na Casa Branca no segundo mandato de Bill Clinton. E também ele bateu na tecla da experiência: “nunca conheci ninguém tão esperto, tão duro e com ideias tão concretas para o país.” No final da reunião em que a SÁBADO participou, apelou: “Hillary Clinton pode ganhar, mas ela é só uma pessoa. Só com a ajuda de todos, em conjunto, ela pode vencer”.

OriginalSize2016_02_03_13_40_04_153491

Como candidata “mais bem preparada” para o cargo, Hillary Clinton fala como se já tivesse sido nomeada. É presidenciável. O seu principal alvo não é o rival democrata, são os adversários republicanos. Elogia os dois últimos presidentes democratas – Bill e Obama – por terem tornado o país melhor. E diz falar do passado porque é importante que o povo não sofra de amnésia colectiva. Diz ser necessário recordar que o marido herdou um país em recessão e que foi capaz de criar emprego, tirar crianças da pobreza e não só equilibrou o orçamento como deixou o cargo com excedentes orçamentais. “Depois vieram os republicanos. Não podemos esquecer o que aconteceu”, disse.

Mais passado: “depois veio um presidente democrata”. Mais experiência: “lembro-me de falar com ele depois da eleição, ainda não me tinha convidado e de ele me dizer que era tudo tão pior do que esperávamos”. E ainda: “sei que dizem que ele podia ter feito mais. Mas eu estava lá. Vi como ele salvou a indústria automóvel, como criou mais regulação para Wall Street e vi-o a conseguir cuidados de saúde”.

OriginalSize2016_02_03_13_40_08_153492

No alto das bancadas, Nancy Richards-Stower ergue um cartaz com palavras de apoio à candidata democrata. “Conheci-a 7 de Outubro de 1991, quando organizei o primeiro encontro do Bill aqui em New Hampshire, antes da campanha de 1992”, diz à SÁBADO. “Ela é uma amiga que trabalha incansavelmente, todos os dias faz alguma coisa pelos outros”, continua a advogada especialista em direitos civis. No palco, dando pequenos passos de um lado para o outro, Hillary reforça esta ideia: “Sou abençoada, sei isso. Mas quero ajudar o máximo de pessoas possíveis e é isso que vou fazer.”

Como? Com medidas também caras a Bernie Sanders. Primeiro promete aumentar o salário mínimo e criar empregos através de programas de obras públicas e infraestruturas. Depois através da alteração da fiscalidade que actualmente incentiva as empresas a mudarem as fábricas para o estrangeiro. Terceiro pelo combate às alterações climáticas. Aqui volta a atacar os republicanos. “Quando lhes falam nisso eles dizem ‘não sei, não sou cientista’. Bem tenho dito que eles podem ir às universidades falar com cientistas. Mas concluí que nem todos eles são ignorantes. Fazem o que os irmãos Koch [conservadores que há décadas financiam grupos que negam as alterações climáticas] lhes dizem para fazer”. Depois promete: “vamos ser a primeira superpotência verde”.

OriginalSize2016_02_03_13_39_09_153489

O discurso de Hillary é fluido e intenso. Não há espaço para improvisação. Ela sabe o que quer dizer e como dizer. Coloca especial ênfase na voz quando aborda as questões que lhe são queridas e à audiência também: igualdade de salários entre homens e mulheres, direitos dos homossexuais, aborto e saúde. Mais experiência: “sabem, antes de ser Obamacare, era Hillarycare”. A audiência aplaude. A mensagem parece estar a passar entre os seus apoiantes. “A Hillary tem a experiência para trabalhar com o Congresso e fazer as coisas acontecer”, diz à SÁBADO, Jonathan Loeb, analista de negócios de uma companhia de produção de computadores. “Para mim os assuntos mais importantes giram à volta da economia e do impacto no Supremo Tribunal porque o próximo presidente vai poder nomear vários juízes. Por outro lado acho que há uma sobrevalorização da segurança nacional e do Estado Islâmico”, continua.

Apesar da importância dos Estados Unidos ao nível global, a política externa acaba por ser remetida para um plano secundário da campanha. Hillary Clinton dedicou-lhe apenas alguns minutos no discurso de cerca de 40 minutos. Experiência outra vez: “passei muitas horas na situation room e posso dizer-vos: se o assunto não for sério, não chega lá”. Diz ter uma estratégia para lidar com o Estado Islâmico mas não diz qual. Volta à experiência: “levo o terrorismo muito a sério, era senadora de Nova Iorque no 11 de Setembro”. Promete ir “atrás deles” e apoiar curdos e árabes, mas garante que não vai enviar tropas para a Síria e para o Iraque. Diz que vai acabar com o financiamento terrorista, com os combatentes estrangeiros e, num tom grave, afirma que é preciso “tirá-los da Internet”.

OriginalSize2016_02_03_13_40_11_153493

O final é em crescendo. Recorda que defende a igualdade de direitos das mulheres, o casamento homossexual, a reforma da política de imigração, da justiça, os benefícios dos veteranos, a segurança social pública e mais medidas contra o lobby das armas. “É o que defendo, é por isso que luto mas não posso fazê-lo sozinha. (…) New Hampshire, façam esta viagem comigo. Lutem por mim que quando eu for eleita vou lutar por vocês.”

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.