Made in America

Reportagem: Marco Rubio, o “JFK Republicano”

Depois de ficar em terceiro no Iowa, Marco Rubio está a subir nas sondagens no New Hampshire com a promessa de "um novo século americano"

O salão nobre da câmara de Exeter, no New Hampshire, estava apinhado de gente quando Marco Rubio, 44 anos, desceu do autocarro que até à próxima terça-feira, dia 9, o vai transportar por todo o Estado norte-americano. Na parte lateral do veículo destaca-se uma frase, o seu lema de campanha: “um novo século americano”. É esse o sonho, a promessa, que o aspirante à nomeação republicana para a corrida à Casa Branca quer levar aos eleitores, na esperança de conseguir um bom resultado nas primeiras eleições primárias da nação.

O candidato apareceu em mangas de camisa. Antes de entrar por uma porta lateral do edifício, vestiu o casaco do fato escuro, ajeitou a gravata azul e preparou-se para ser entrevistado em directo por uma televisão norte-americana, já com a multidão atrás de si. Estava confiante. Tinha acabado de ter um excelente resultado no caucus do Iowa. Apesar de ter ficado em terceiro, a diferença mínima para o favorito Donald Trump permitiu-lhe fazer um discurso vitorioso e ganhar balanço para o resto da longa campanha eleitoral. Os seus eventos também passaram a receber mais atenção dos média. E foi com essa aura que acabou por subir ao palco, em Exeter, acompanhado pela mulher, Jeanette e pelos quatro filhos que quis apresentar, disse, para que a população “os possa conhecer”.

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A família vai andar com ele na estrada durante os próximos dias. E a tarefa não se avizinha fácil. De acordo com as últimas sondagens, no New Hampshire Marco Rubio surge a 20 pontos percentuais de distância de Donald Trump. A boa notícia para o senador da Flórida é que subiu nas intenções de votos depois de conhecidos os resultados no Iowa. Nessa altura, chegou a estar em quinto lugar, atrás de Ted Cruz, John Kasich e Jeb Bush. Agora encontra-se em segundo.

Em Exeter encontrou um ambiente familiar. Quase religioso. A cidade guarda uma cópia original da Declaração de Independência dos Estados Unidos. E o edifício tem uma grande carga simbólica para os republicanos locais: foi ali que Abraham Lincoln fez um discurso, no Inverno de 1860, ainda antes de ser o primeiro presidente conservador dos Estados Unidos. Agora há quem o compare a outro líder norte-americano. Mais recente – e de um partido rival. “Ele parece um jovem John F. Kennedy conservador”, diz à SÁBADO Chris Nevins, reformado e antigo representante estadual no New Hampshire. “Não só pela idade, mas porque também acharam que ele não era um candidato viável e ele mostrou que podia ser um grande líder. Vejo isso nele”, explica.

Os adversários parecem temê-lo. E fizeram dele um alvo a abater. As rádios do New Hampshire têm emitido anúncios patrocinados por supostos grupos independentes que lançam dúvidas sobre a honestidade, finanças e preparação do senador da Flórida para o cargo. Nos últimos dias, os aliados de Rubio responderam. Também na rádio, começaram a passar anúncios que colam Hillary Clinton e Jeb Bush ao século passado e o apresentam como o representante da nova geração capaz de devolver ao país a grandeza perdida nos últimos anos. Ele próprio está pronto para responder aos que o acham muito novo. “Quando disse que queria concorrer disseram-me que tinha de esperar a minha vez, que havia uma fila. Pensei: ‘o quê?’. Não sabia que havia uma fila. Mas decidi avançar, sabem porquê? Porque não há tempo a perder”, explicou.

A multidão aplaude. A maioria dos que o ouvem já está mais ou menos convencida a votar nele. “Vou apoiá-lo. Como velho, estou preocupado com a decadência do nosso país. Vemos nele a dinâmica para mudar isso”, continua Chris Nevins. No entanto, há excepções. Patricia, uma antiga enfermeira do Exército e da Força  que preferiu não revelar o seu apelido, diz à SÁBADO que ainda não sabe se votará em Rubio ou no seu rival, Ted Cruz. “Ele fala muito bem e tem boas ideias, mas ainda lhe falta experiência. Podia ser um bom vice-presidente”, explica.

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Rubio discorda. E está ali para responder às preocupações de uma faixa conservadora da população, inquieta com o que consideram ser o declínio económico e militar dos Estados Unidos. Está ali para “vender” o sonho de uma América dominante, poderosa, única no mundo. “Em 2008 elegemos um presidente que quis mudar a América e fazê-la parecer-se com o resto mundo. É por isso que ele desrespeita a Constituição, faz alianças com o Irão, desrespeita Israel e pede desculpa enquanto viaja pelo mundo”, afirma.

Tal como os restantes candidatos, promete ser o presidente da ruptura com o presente. Apresenta-se como uma pessoa normal, o filho de imigrantes cubanos que encontraram nos Estados Unidos um país que lhes permitiu dar uma vida melhor aos filhos e vê-los fazer o mesmo pelos netos. “Os meus pais não eram ricos, influentes ou com ligações políticas. Mas deram-me os valores que tenho hoje”, repete em cada reunião. “Ensinaram-me que vivia no único país no mundo onde não importa de onde vens” e que poderia ser sucedido se quisesse. Os presentes na sala assentem com a cabeça. A ideia do sonho americano está sempre presente. A imagem da grandeza. E o piscar de olhos a Deus, ou seja, ao eleitorado católico. “A primeira coisa que vou fazer quando for presidente é pôr a mão na bíblia e jurar defender o país – ao contrário do que fez Barack Obama”, garantiu. Depois lançou o isco ao lobby das armas: “Vou defender a segunda emenda porque temos direito a defender-nos de criminosos. Em seguida, vou à sala oval e vou desfazer cada uma das ordens executivas inconstitucionais de Barack Obama: vou cancelar o acordo com os ayatollhas do Irão e ninguém duvidará da nossa posição para com Israel”.

A sala explode de gritos de “Marco, Marco, Marco”. Uma das mais entusiasmadas é Sasha Kaplan, judia e responsável do blogue Captain Israel. Aplaude cada frase Rubio e grita palavras de apoio. “Ele captou a minha atenção quando o ouvi a falar de Israel. Ao contrário dos outros candidatos, ele fala dos assuntos mas conhece os detalhes. Se for presidente vou dormir melhor à noite pois sinto que o mundo será mais seguro. Ted Cruz também fala de Israel, mas diz coisas só porque quer o meu voto. Rubio quer o meu voto, mas também quer trabalhar comigo”, diz à SÁBADO.

Tal como Cruz – e Donald Trump – Rubio também defende um reforço das políticas de imigração. “Quando for presidente, se não soubermos quem são [os imigrantes] e o que vêm fazer, não entram nos Estados Unidos. Temos o direito a controlar as nossas fronteiras. Todos o fazem. Não vamos contratar 20 mil agentes do FBI, vamos contratar 20 mil guardas fronteiriços”, diz. Depois fala da política externa – e do terrorismo. Aqui o contraste com os adversários é evidente. Rubio parece saber do que fala. Talvez porque, como disse Chris Nevins, como líder da subcomissão de relações internacionais do senado, “receber os briefings sobre os assuntos e por isso ter facilidade em falar sobre eles”

O retrato que faz não é bonito: a Coreia do Norte governada por um louco com armas nucleares, Vladimir Putin a semear a instabilidade na Europa, a China a crescer muito mais do que os EUA, o Irão a ver levantadas as sanções internacionais – “e não vão gastar o dinheiro em orfanatos” – e o Estado Islâmico. “Ao contrário do que o presidente disse, eles não são um bando de desordeiros armados, em cima de pick-ups. O EI é o mais bem organizado e sofisticado grupo terrorista da história. É um grupo apocalíptico que acredita que numa cidade do norte da Síria chamada Dabiq vai aparecer o Mahdi”, o salvador que vai estabelecer um império islâmico.

A sua solução é reforçar o Exército, que será em breve o mais pequeno desde a Segunda Guerra Mundial, a Marinha e a Força Aérea – cujos aviões são antigos. “A defesa da América é a razão porque existe um governo federal”, defende. “Vamos reconstruir o exército porque o mundo é um lugar melhor quando o exército americano for o melhor do mundo”, afirma.  Forças Armadas que ele diz ser o único qualificado para liderar. Sobretudo quando comparado com a favorita democrata à nomeação. “Hillary Clinton não é qualificada para ser presidente. Ela agarrou em informação classificada e guardou-a no seu servidor privado. Pensa que está acima da lei. Talvez o plano dela fosse perdoar-se a si própria quando fosse presidente”, disse. Risos na sala. Mete um tom grave e acusa: “Mas o mais importante é que Hillary Clinton é desqualificada para ser presidente. Ela mentiu às famílias dos militares [por causa de Benghazi, na Líbia] e quem faz isso não pode ser Comandante Supremo das Forças Armadas”.

Foi o culminar de um encontro íntimo. No final, ficou a dar autógrafos e a tirar fotografias com os apoiantes. Não respondeu a perguntas da imprensa. Mas não poupou sorrisos nem apertos de mão. Ao fim de 40 minutos, regressou ao autocarro. Eram apenas 19h30, mas a noite estava cerrada. O frio impedia-o de sair à rua em mangas de camisa, como tinha chegado. Ao entrar no autocarro levava um blusão azul por cima do fato, com a bandeira dos Estados Unidos no braço esquerdo. Pronto para a próxima paragem.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.