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“Acho que ela vai convencer o marido a votar Bernie”

A poucos dias das eleições no New Hampshire, a campanha de Bernie Sanders dá tudo por tudo. A SÁBADO acompanhou o trabalho de um grupo de voluntários

Passam poucos minutos das 14h quando Desmond e o casal Owen e Lindsey Charles saem da sede de campanha de Bernie Sanders em Manchester, New Hampshire. Dirigem-se ao carro de Owen, carregam o porta bagagens com panfletos da candidatura do senador do Vermont e preparam-se para mais uma acção de canvas: ir de porta em porta para convencer os potenciais eleitores a votar no inesperado rival de Hillary Clinton na corrida à nomeação do Partido Democrata para sucessor de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos.

Para aquela tarde, o grupo tem uma lista de 74 nomes e moradas de um bairro pobre de Manchester para percorrer. Apesar de a poucos dias das primárias de 9 de Fevereiro Bernie Sanders ter uma vantagem média nas sondagens de 17 pontos percentuais (algumas chegam aos 30%), os três voluntários atribuem a maior importância à sua tarefa. “É importante ganharmos aqui para darmos um sinal ao resto do país”, diz Desmond à SÁBADO.

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Dos três, é o mais experiente nestas andanças. Fez parte da campanha de Bill de Blasio à presidência da câmara de Nova Iorque e participou nas duas eleições presidenciais de Barack Obama. “Nessa fui de autocarro até ao Ohio e a casa onde ficámos não teve electricidade durante um mês por causa de uma tempestade”, recorda. Agora veio de Nova Iorque, onde vive, até ao New Hampshire para ajudar a mobilizar as pessoas. “Vou ficar cá até ao dia 10”, diz. Assistirá a todos os eventos e andará na rua todos os dias.

É ele quem toca à porta da primeira potencial eleitora. No entanto, a iniciativa não corre propriamente bem. Gladis Santos, uma emigrante hispânica registada como democrata, mal consegue expressar-se em inglês apesar de compreender. O problema é que nenhum dos três fala espanhol. E o guião que levam para estas conversas implica a resposta a uma série de questões que depois serão compiladas em estatísticas e analisadas pela campanha nacional: se vai votar, em quem e quais são os assuntos mais importantes para ela de uma lista que inclui o terrorismo, a saúde, a educação e a desigualdade social e económica.

Com a ajuda da SÁBADO, ficam a saber que Gladis Santos ainda não sabe exactamente em quem vai votar porque não conhece os candidatos o suficiente. “O mas importante para mim é a educação, a saúde e poder viver com tranquilidade”, diz. Depois de lhe tentarem explicar que Bernie Sanders defende cuidados de saúde e educação grátis para todos, deixam-lhe um folheto com um conjunto de ideias promovidas pela candidatura que lhe podem interessar. E avançam para a casa morada seguinte.

A formação de 20 minutos que tiveram antes de saírem da sede não os preparou para aquilo. Mas a contrariedade não os desanimou. Pelo contrário. Decidiram então separar-se para conseguirem percorrer todas as casas antes do anoitecer. Linn Charles está entusiasmada. “Adoro fazer canvassing. As pessoas precisam que alguém as ouça e o Bernie destaca-se muito nisso”, explica. Ela e o marido vieram essa manhã do Connecticut. Fizeram uma viagem de duas horas e meia de carro para ali estar – e vão regressar essa noite. Ela diz que é artista. Ele trabalha numa empresa que se dedica à investigação de medicamentos contra o cancro. São ambos vegetarianos.

Depois de bater a várias portas que não se abrem, consegue finalmente ter uma resposta. Explica porque está ali e tenta elogiar a candidatura de Bernie Sanders enquanto impede que o gato da eleitora saia porta fora. Os diálogos por vezes podem fazer pouco sentido.
– Vou votar mas não sei em quem. Sei que não é no Donald Trump, mas não se muito sobre os candidatos.
– Bem, eu estou aqui para responder às suas perguntas. Para mim o principal tema da campanha é a desigualdade económica e social.
– Há alguns assuntos sobre os quais quero saber mais. Um é a imigração. É a única coisa em que concordo com o Donald Trump, a imigração ilegal. O Bernie Sanders é democrata ou republicano?
– É democrata.
– E como posso saber mais?
– Tem aqui um folheto, mas pode ver no website da candidatura ou se quiser posso pedir a alguém para vir cá falar consigo.
– Deixe estar, eu vejo online. Quando é que são as eleições?

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A falta de informação parece ser um grande problema. Tal como a desactualização das listas. “À partida não há o risco de batermos à porta de um republicano”, afirmou Desmond à saída da sede de campanha. No entanto, a dúvida instala-se à medida que se acumulam as respostas de que o nome não corresponde à morada indicada ou que a pessoa em causa mudou-se para outro lado. “O Bernie devia ter uma grande aceitação neste bairro, mas as pessoas parecem não saber muito sobre o que está em causa”, desabafa Linn. Ela própria acabaria por ter um susto: “Entrei numa casa e apareceu-me um homem que estava visivelmente alcoolizado. Depois vieram mais dois que estavam na mesma. Tive muito medo”, conta.

A partir dessa altura passou a acompanhar Desmond ou Owen até ao final da tarde. O seu marido também já teve a sua dose de experiências difíceis. “Há uma semana vim ao New Hampshire com a minha filha de 13 anos. E a primeira pessoa com quem tentámos falar começou aos gritos ‘o Bernie Sanders é um socialista, um comunista. Odeio o Obama. Saiam já da minha propriedade”, recorda. A partir daí ficou um bocado no carro. Mas depois tivemos boas experiências”, diz. Para além da campanha no New Hampshire, também participaram em alguma acções no Connecticut, onde as eleições primárias serão apenas mais tarde. Colámos cartazes na auto-estrada, fizemos festas em casa para assistir aos debates e estivemos nas reuniões de voluntários com o Bernie”, conta.

Para além dos canvas, as campanhas tem ainda um outro tipo de iniciativas: o Go out to vote. Aqui, não se trata de convencer potenciais eleitores, mas de os lembrar que podem e devem votar nos seus candidatos favoritos. “Lembramos-lhes o dia da eleição, perguntamos se precisam de boleia, etc”, diz Linn. No New Hampshire não deverá ser difícil a Bernie Sanders obter uma vitória: há vários anos que é eleito senador pelo estado vizinho do Vermont e a sua popularidade é grande. Ainda assim, há quem não o conheça muito bem.

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Depois de tocarem a uma das últimas campainhas, Owen e Desmond preparavam-se para regressar ao carro quando a porta se abriu. Uma mulher que não quis dizer o nome saiu para o alpendre de roupão e auricular do telemóvel no ouvido e perguntou-lhes o que queriam. Eles explicaram que estavam ali em campanha por Bernie Sanders e que queriam esclarecer qualquer dúvida que houvesse. Assim que ela lhes diz que a guerra na Síria é uma das suas grandes preocupações, eles apressam-se a explicar:
– [Owen] O Bernie votou contra a guerra no Iraque e defende que não deve haver um envolvimento na Síria.
– O problema é que o Obama não ouve o povo. Eu penso que não deve haver tropas lá fora. A Síria é uma grande preocupação para mim. Tinha uma amiga que ia num dos aviões que embateu nas torres gémeas e por isso o terrorismo é algo que me preocupa. Além de que tenho um familiar no exército. Só quero que eles voltem para casa. Tenho outro amigo que foi ferido no Afeganistão. É altura de trazer as pessoas de volta.
– [Desmond] Bem, o Bernie também defende os cuidados para os veteranos.
– Tenho amigos a quem estão a tirar os benefícios. E eles tem Stress Pós Traumático. Estou no ramo médico e sei do que falo.
– [Desmond] Não devemos ser os polícias do mundo e lutar guerras de pessoas que lutam há séculos. Precisamos de empregos.
– Estou grávida de gémeos e tenho mais dois lá dentro. Não quero que cresçam num mundo em conflito e onde o presidente está sentado no sofá.
– [Owen] Posso perguntar em quem vota?
– Não sei ainda, não ia votar, mas agora estou indecisa. Mas o meu marido vota republicano. Ele é condutor.
– [Owen] Bem, estamos à procura dos indecisos para dar toda a informação.
– É disso que preciso. Nem tudo o que vem na imprensa é verdade.
– [Owen] Bem, tem aqui um folheto com os principais pontos e a morada do website onde está toda a informação.
– Isto é bom. Bem, pelo que me disseram vão definitivamente ter o meu voto.

De regresso à sede, os três estão satisfeitos. “Mesmo que tenha sido só um já valeu a pena. Esse voto pode fazer a diferença”, diz Desmond. Owen concorda. “Sim, e aquela senhora de roupão foi um exemplo do que devemos fazer. Ela não ia votar e disse que ‘definitivamente’ [coloca ênfase na palavra] vamos ter o voto dela. Isso significa muito. Sabem uma coisa, acho que ela vai convencer o marido a votar Bernie também”.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.