Made in America

Reportagem: “Fazer o ponche de frutas grande outra vez”

Um grupo de artistas comprou um antigo autocarro da campanha de Donald Trump e transformou-o num manifesto contra o candidato republicano

Ao ver o enorme autocarro azul com o que à primeira vista parece o nome de Donald Trump, uma apoiante do candidato republicano à presidência dos Estados Unidos aproximou-se para tirar uma fotografia. Disparou a máquina algumas vezes mas quando leu melhor algumas inscrições percebeu que estava enganada. “Esperem lá, vocês estão a gozar com ele. Isto é contra o Trump”, exclamou antes de virar as costas indignada.

No topo do veículo, David Gleeson, riu-se. Naquela manhã, não era a primeira vez que acontecia. E não seria a última. Vestido com um casaco amarelo fluorescente, dava tacadas de golfe, numa bola com a cara de Donald Trump, em direcção ao lago nos arredores do Hotel Radisson, em Nashua, no New Hampshire, onde tinha acabado de se realizar um comício do milionário nova-iorquino. “Isto é um projecto de arte contra o Trump”, explica à SÁBADO para acabar com todas as dúvidas.

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No final do ano passado, David estava em Filadélfia quando soube por uma amiga que havia um antigo autocarro da campanha de Donald Trump à venda no site Craigslist. “Estava a trabalhar num projecto de arte com a Mary [Mihelic] e decidimos logo comprá-lo”, conta. “Foi o primeiro autocarro que a campanha dele usou no Iowa”, explica. Assim que concluiu o negócio, meteu-se num avião e foi buscá-lo ao Iowa, onde ele estava. “Os donos supostamente colocaram-no à venda porque a campanha não pagava o aluguer. Então pensaram que podiam fazer algum dinheiro com ele e puseram-no no Craigslist”, explica Mary Mihelic à SÁBADO. Tinham razão: os dois artistas pagaram 14 mil dólares por um autocarro de 1992 com um milhão e 600 mil quilómetros.

Os fundadores do colectivo de arte política t.Rutt não hesitaram. David conduziu o veículo para Filadélfia, onde o alteraram. A transformação mais visível foi a mudança do slogan “fazer a América grande outra vez” para “fazer o ponche de frutas grande outra vez”. Inseriram também um ponto final após a primeira letra do nome Trump. Ficou T.rump. Daí não ser imediatamente perceptível para os mais distraídos que aquele é um marcar de posição contra o candidato republicano.

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Mas não foi essa a única mudança. “Quando nos chamaram nazis num comício, escrevemos esta lista numa janela com o título de ‘A minha luta’ [em alusão ao Mein Kampf, de Hitle]”, diz Mary. Entre essas causas estão as frases, escritas em várias línguas, “não odiar”, “não violar as minhas mulheres”, “não explorar as falências”, “não estereotipar”, “não fazer batota no golfe”, “procurar ajuda mental” e “amar-me”. E depois de Donald Trump ter defendido que os muçulmanos deveriam ser impedidos de entrar nos Estados Unidos, eles decidiram escrever o lema de campanha do candidato republicano, na traseira do autocarro – mas em árabe.

Enquanto mostra o interior do autocarro à SÁBADO, Mary explica que fizeram muito poucas alterações e que agora pretendem colocar algumas cadeiras para transformar parte do veículo num local de debate político. “O curioso é que ele ainda tem um varão de strip-tease, já que antes de ser usado pela campanha do Trump, costumava servir para despedidas de solteiro”, afirma com um sorriso.

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Orgulhosa do que conseguiram até agora, a artista diz que pretendem continuar a seguir a campanha do candidato republicano enquanto puderem. Para isso começaram uma campanha de crowdfunding no site Kickstarter. “O que torna isto tão interessante é que não é óbvio nem imediatamente reconhecível. Há pessoas que vêm tirar selfies no autocarro e depois é que ficam a pensar que “fazer o ponche de frutas grande outra vez não é exactamente o slogan de Trump”, conta Mary. “Aquela senhora de ha pouco foi um exemplo perfeito”, diz. “E as pessoas reagem”, continua David. “Algumas ficam chateadas quando percebem que não somos pró-Trump e insultam-nos mas também há o oposto, aquelas que começam por nos olhar de lado e que acabam a aplaudir-nos e a elogiar-nos”, diz. “No fundo é isto a arte, obter reacções emocionais das pessoas”, conclui Mary. Depois do New Hampshire, as próximas paragens serão a Carolina do Norte e a do Sul. Para fazer o ponche de frutas grande outra vez”.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.