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O desconhecido que foi o primeiro a candidatar-se

Mark Stewart pagou mil dólares para ter o nome no boletim de voto. Foi o primeiro a fazê-lo no ano do 100º aniversário das primárias no New Hampshire

Quando esta terça-feira os eleitores democratas do New Hampshire olharem para o boletim de voto onde constam os candidatos do partido à sucessão de Barack Obama, Hillary Clinton e Bernie Sanders não serão os únicos nomes na lista. Entre eles estará, entre outros, o de Mark Stewart Greenstein, um antigo advogado de 52 anos que diz querer inverter a viragem à esquerda feita pelos líderes do Partido Democrata nas últimas décadas. “John F. Kennedy teria a mesma posição que eu, de democrata conservador”, diz à SÁBADO.

Apesar de completamente desconhecido, Mark Stewart foi, na realidade, o primeiro candidato democrata a registar a sua candidatura para as eleições primárias no New Hampshire. Eram 8h03m de 4 de Novembro de 2015. A imprensa aguardava à porta da sede de governo do New Hampshire que Martin O’Malley chegasse para registar a sua candidatura. O democrata, que acabou por desistir da corrida após o caucus no Iowa, a semana passada, queria ser o primeiro a inscrever-se nas eleições primárias. O gesto teria uma carga simbólica: este ano assinala-se o centésimo aniversário das primárias no New Hampshire, Estado que garantiu que as suas eleições seriam para sempre “as primeiras da nação”.


No entanto, Martin O’Malley atrasou-se e chegou por volta das 8h15. “Nessa altura eu já lá estava dentro”, recorda Mark Stewart à SÁBADO. “Foi completamente por acaso. Normalmente acordo cedo e decidi ir logo de manhã. Passei pela imprensa e entrei. Nem sequer estive numa fila”, continua. Com a ajuda do secretário de Estado do New Hampshire, Bill Gardner, preencheu os impressos de candidatura e depois assinou um cheque de 1000 dólares, a quantia necessária para ver o seu nome no boletim de voto. Só mais tarde soube que há anos em que as pessoas fazem tudo para chegar em primeiro. “Não fazia ideia. Só mais tarde o Bill Gardner me contou que o edifício abre às 7h30 e que já houve pessoas que se esconderam lá dentro para ficar no primeiro lugar”, recorda.

Sentado num restaurante dos arredores de Manchester, no New Hampshire, Mark Stewart, confessa que sabe que não tem qualquer hipótese de ser eleito. Então porquê concorrer? “Quero dar hipóteses de escolha às pessoas”, responde. “Há tantas personalidades proeminentes que poderiam estar na corrida e não estão. Então decidi avançar”, explica. Ele próprio desafiou publicamente várias individualidades a ir a votos e chegou mesmo a passar um cheque de 1000 dólares ao antigo mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, para que ele fosse a votos. Mas confessa que foi um truque para chamar a atenção.

“Por mais que tente não consigo que a imprensa se interesse por mim e pela minha candidatura. E quando o fazem é no ângulo do tipo estranho. Não me importo com isso, desde que me dêem atenção”, afirma. “Estive agora na rádio e o tipo disse-me três vezes no ar que não tenho hipótese. Três vezes,” lamenta. “Eu sei que não tenho, mas o meu movimento vai ficar. Ainda vão ouvir falar de mim”.

Esta não é a primeira vez que Mark Stewart se candidata a presidente. Em 2000, apresentou a sua candidatura contra o então favorito Al Gore, que viria a perder a presidência para George W. Bush. E este ano o New Hampshire não será a sua última paragem. Estará nas listas no Vermont, em Rhode Island e, provavelmente, no Utah. Quando falou com a SÁBADO tinha acabado de chegar de Rhode Island onde passou vários dias a recolher assinaturas. “Precisava de 1000, mas conseguimos 1400. Eu obtive pessoalmente 600 assinaturas e tenho um associado que conseguiu 800”, conta. Foi a todo o lado: universidades, centros comerciais e até ao aeroporto. “Mas sabe onde consegui o maior número de assinaturas? Num evento do Donald Trump. Se já esteve num, viu que as pessoas ficam ali na fila durante horas. Então fui lá e foi fácil”, diz a rir, enquanto dá uma dentada num hambúrguer com bacon e mostarda.

A meio da refeição acabaria por pedir licença para ir falar com alguns grupos que acabavam de jantar em mesas vizinhas. Aproximou-se, de casaco cinzento a cobrir a camisa branca, o pullover bordeaux e a gravata azul, distribuiu alguns folhetos com algumas das suas principais ideias – menos governo, respeito pela propriedade privada, pena de morte, legalização de drogas para adultos – e regressou ao lugar. “Este restaurante deixa-me fazer isto”, diz.

O seu carro está atafulhado com material de campanha e cartazes para colar nas estradas. É ele quem faz quase tudo, incluindo comunicados e gestão do website. É também ele quem suporta as despesas. “Tenho três pequenos negócios na área da educação. O meu background é direito mas exerci durante pouco tempo”, revela. Tem mais duas pessoas a ajudá-lo. Uma amiga e o responsável por arranjar as assinaturas.

Para chamar a atenção tem feito um pouco de tudo. “Fui o único a revelar a a composição do meu governo”, diz. Entre os nomes estão o senador Rand Paul e o vice-presidente Joe Biden. Algum concordou? “Não, mas nomeei-os na mesma”, diz. No final da semana passada atirou-se a um rio gelado. “Não foi muito mau. O pior foi sair, o rio estava gelado na berma e tive de me içar por um ramo de uma árvore”, conta. Diz também que teria um governo mínimo. “Só ficava com os militares e com o ambiente, tudo o resto ficaria melhor em mãos privadas. O envenenamento em Flint nunca teria acontecido com a gestão da água fosse privado. Não há mal nenhum em ganhar dinheiro se se servir as pessoas”, diz. Mas a sua redução de despesa não ficaria por aqui. “Também não sei porque precisamos de embaixadas. Posso telefonar ao presidente de Portugal se for preciso. Não é necessário ter lá um embaixador, olhe para os custos”, diz. Terça-feira os eleitores democratas olharão para ele. Pelo menos por um momento.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento