Republicanos

Ben Carson

Parecia um candidato perfeito: tem uma história de sucesso, reconhecimento profissional, fama e ideias conservadoras. Mas nem os livros de auto-ajuda lhe valeram

À partida as sondagens dava-no como bem colocado para obter a nomeação do Partido Republicano às eleições presidenciais norte-americanas: afro-americano, neurocirurgião de prestígio e professor universitário, Ben Carson parecia ter tudo para ser um candidato viável. Faltaram-lhe os votos. com resultados decepcionantes, desistiu a favor do rival Donald Trump e pode vir a ser candidato a vice-presidente.

Nascido em Detroit, Michigan, no seio de uma família trabalhadora mas com dificuldades, Ben Carson começou por ser um mau aluno, tal como o irmão. Alvos de chacota dos colegas da escola. Mas a sua mãe adoptou um plano de acção: limitou o tempo em que os dois irmãos podiam ver televisão, passou a seleccionar os programas (os mais educativos e informativos, em detrimento do mais fútil entretenimento) e proibiu as saídas à rua para brincar com os amigos enquanto não completassem os trabalhos de casa. Sonya era semi-analfabeta, mal conseguia ler, mas obrigou os filhos a ler dois livros da biblioteca por semana e a escreverem resumos dos mesmos. O plano resultou. Ben Carson tornou-se um bom aluno.

Esta é apenas uma das histórias que Ben Carson, hoje um prestigiado médico, professor de neurocirurgia, pediatria e oncologia, ex-director da unidade de Neurocirugia Pediátrica no Johns Hopkins Hospital de Baltimore, Maryland, cargo que assumiu aos 33 anos de idade (o mais jovem de sempre), costuma destacar para explicar o seu sucesso. Escreveu e publicou seis livros autobiográficos e de auto-ajuda, recorrendo a episódios da sua vida para inspirar as pessoas a lutarem pelo mesmo sucesso e felicidade, o “sonho americano”. Neles propõe uma espécie de filosofia optimista e baseada no mérito pessoal e no trabalho árduo. Quase todos têm o seu rosto na capa e apresentam títulos como Você tem um cérebro ou A bonita América.

Entrou na política de forma relutante. Desde logo porque tem uma carreira reconhecida como médico e professor universitário. Recebeu prémios e acumulou fama. Tornou-se célebre após uma operação de separação de gémeos siameses que abriu todos os telejornais norte-americanos. O incentivo para entrar na política tornou-se mais intenso depois de ter discursado no National Prayer Breakfast em 2013, ao lado do presidente Barack Obama. Um discurso intenso em que falou sobre cuidados de saúde, planos de cobertura médica e o que considera serem os perigos do “politicamente correcto”, ganhando uma boa reputação na ala mais conservadora do Partido Republicano.

A história de vida de Ben Carson – a forma como triunfou pelo mérito, através de bolsas de estudo, mesmo sendo afro-americano e proveniente de uma família carenciada – é a personificação do “sonho americano”. Uma narrativa que costuma obter bons resultados políticos, gerando reconhecimento e inspiração entre os eleitores. A sua defesa do casamento tradicional entre homens e mulheres, as criticas à teoria da evolução de Charles Darwin e o combate ao politicamente correcto fizeram-no entrar, aparentemente no eleitorado conservador.

Daí que quando anunciou a candidatura à nomeação do Partido Republicano para as eleições presidenciais dos EUA em 2016, Ben Carson estivesse muito bem colocado nas sondagens. Mas os resultados nas urnas foram decepcionantes e acabou por desistir das eleições primárias no dia 4 de Março, com apenas oito delegados atribuídos. Decidiu então apoiar o candidato Donald Trump (tornando-se uma das hipóteses para vice-presidente, caso Trump chegue à eleição geral), que continua a liderar a corrida. “Embora eu esteja a abandonar a campanha, sabem que há muitas pessoas que gostam de mim. Mas não me dão o seu voto”, explicou Carson, ao anunciar a desistência. “Mas tudo bem, não é um problema. Vou continuar a estar fortemente envolvido na tentativa de salvar a nossa nação. Fiz as contas, verifiquei a contagem de delegados… e apercebi-me de que simplesmente não iria acontecer. E se é esse o caso, então prefiro não interferir no processo.”