Democratas

Bernie Sanders

Quer mudar o sistema a partir do seu interior. O veterano senador de Vermont que elege as desigualdades sociais nos EUA como absoluta prioridade política

Independente, combativo e… socialista! Ou “socialista democrata”, como ele se auto-descreve. Mas o que é que defende um (raro) socialista na América, onde a palavra é ainda interpretada por muitos como um sinónimo de “comunista”? A redução das desigualdades sociais, o aumento dos impostos para os mais ricos, um maior equilíbrio salarial entre homens e mulheres, uma fiscalização mais apertada ao sistema financeiro de Wall Street, um serviço de saúde universal, e por aí fora.

Chama-se Bernie Sanders, é senador do Vermont e está a conseguir, pelo menos, atrasar a mais que provável nomeação da favorita Hillary Clinton como candidata do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos da América (EUA), graças a uma série de vitórias, algumas surpreendentes, em estados importantes como o Michigan, o Colorado e o Minnesota. Para ele, “socialismo” não é um palavrão.

Sanders é o político independente que durante mais tempo exerceu funções no Congresso norte-americano na História dos EUA. Um veterano que está habituado a ser subestimado e a derrotar adversários mais cotados e com maior financiamento para as respectivas campanhas, tanto republicanos como democratas. Sim, porque Sanders só está a disputar as eleições primárias do Partido Democrata por “necessidade política”, como ele próprio admite. “Seria necessária uma enorme quantidade de tempo, energia e dinheiro só para entrar no boletim de voto em 50 estados [como independente]”, afirmou Sanders, pouco tempo depois de ter anunciado a sua candidatura à presidência dos EUA, em Abril de 2015. “Faz muito mais sentido para mim trabalhar dentro do sistema de eleições primárias do Partido Democrata, onde é muito mais fácil entrar no boletim de voto e ter a possibilidade de debater com os outros candidatos.”
Bernie Sanders nasceu em 1941, no bairro nova-iorquino de Brooklyn. Foi o filho mais novo de um casal de imigrantes judeus oriundos da Polónia. Tratava-se de uma família trabalhadora de classe média que lutava para sobreviver (o pai era vendedor de tintas), daí a consciência precoce de Bernie Sanders em relação às disparidades económicas nos EUA. Aliás, costuma dizer em entrevistas que a “injustiça social” que testemunhou nesse período da sua vida foi a principal inspiração da sua actividade política.

Estudou na Brooklyn College durante um ano e depois transferiu-se para a Universidade de Chicago, onde se envolveu nos movimentos em defesa dos direitos civis dos afro-americanos. Concluídos os estudos em Ciência Política, foi viver para um “kibbutz” (comunidade colectiva baseada na agricultura) em Israel, antes de se estabelecer no Vermont. Fez diversos trabalhos nesses anos de juventude, desde produtor de filmes e escritor “freelance”, até ajudante de psiquiatra e professor de crianças carenciadas.

Durante a guerra do Vietname, Sanders requereu o estatuto de objector de consciência. Esse pedido acabaria por ser recusado, mas nessa altura ele já era demasiado velho para ser recrutado. Escapou por pouco. E seguiram-se várias candidaturas políticas fracassadas, enquanto membro do Liberty Union Party, um movimento anti-guerra, do qual saiu em 1979.

A carreira política de Sanders começou em 1981, quando foi eleito “mayor” da cidade de Burlington, no Vermont, por apenas 12 votos. Foi reeleito mais três vezes, demonstrando ser um político confiável. O salto para a cena política ao nível nacional ocorreu em 1990, quando conseguiu ser eleito para a Câmara dos Representantes dos EUA, como independente, embora tenha colaborado mais com os democratas.

Em 2006 candidatou-se ao Senado. Teve como adversário o empresário republicano, Richard Tarrant, que gastou sete milhões de dólares da sua fortuna pessoal na campanha eleitoral. Contudo, Sanders bateu Tarrant, tornando-se senador de Vermont. No Senado manteve a independência, criticando tanto os republicanos como os democratas.

Mais tarde, em 2010, ganhou visibilidade nacional ao discursar durante mais de oito horas (a tradicional prática de “filibuster” na cena política dos EUA) contra a extensão de cortes de impostos para os mais ricos que tinham sido aplicados durante a presiência de George W. Bush. Para Sanders, tratava-se de um mau acordo entre o presidente Barack Obama e os legisladores republicanos.

Ao anunciar a sua candidatura às eleições primárias do Partido Democrata, em Abril de 2015, poucos norte-americanos imaginariam então que Sanders pudesse colocar em causa a vitória anunciada de Hillary Clinton. Mas o veterano senador independente já surpreendeu muitos rivais que eram considerados favoritos e dispunham de mais dinheiro para gastar nas campanhas. Sanders não desiste.