Republicanos

Ted Cruz

Ted Cruz tem o apoio do Tea Party e representa a ala mais conservadora do Partido Republicano. É um candidato com opiniões fortes e muito crítico da moderação política – e nasceu no Canadá

É a favor da pena de morte e do casamento tradicional entre um homem e uma mulher; é contra o aborto, a eutanásia e o casamento homossexual. Defende a reversão da separação entre o Estado e a Igreja; rejeita o alarmismo em torno das alterações climáticas. Critica o “establishment” do Partido Republicano em Washington por ser politicamente moderado; tem uma ligação umbilical ao movimento ultraconservador Tea Party que pugna por um Estado mínimo, com impostos mínimos, e daí a sua oposição feroz ao “Obamacare” (a reforma do sistema de saúde norte-americano, implementada pelo actual presidente Barack Obama). Ao nível da política externa, destaca-se como pró-Israel, opositor do acordo nuclear com o Irão e céptico em relação ao intervencionismo (devido aos recentes fracassos no Afeganistão e no Iraque). Chama-se Rafael Edward “Ted” Cruz. E mesmo que não consiga eleger o número de delegados que lhe permitiria tornar-se o candidato nomeado do Partido Republicano às eleições presidenciais que se realizam a 8 de Novembro, já realizou um feito histórico: tornou-se o primeiro candidato de origem hispânica a ganhar eleições primárias e “caucus”.

Nasceu em 1970, na cidade de Calgary, Canadá. Filho de mãe norte-americana e pai cubano, Rafael Cruz, que combateu ao lado de Fidel Castro, antes de emigrar para os EUA na década de 1950. Aí arrependeu-se do passado revolucionário, fundou uma empresa e tornou-se pastor evangélico. Ted Cruz, o filho tornado político de sucesso, costuma enaltecer o percurso de vida do pai – o paradigma do “sonho americano” – nos comícios da campanha eleitoral e em programas de televisão. Tal como tem apostado na exposição da vida familiar.

“Combateu ao lado de Castro, mas nenhum dos rapazes que entraram nessa luta armada sabia que Castro era comunista. Batista era um ditador, era cruel e corrupto, e o Exército dele pôs o meu pai na cadeia. Foi espancado e torturado, e fugiu de Cuba em 1957, para o Texas. Chegou cá aos 18 anos, não sabia falar inglês, tinha 100 dólares cosidos à roupa interior. O primeiro trabalho dele foi a lavar pratos, por 50 cêntimos à hora. Aprendeu a falar inglês, pagou os seus estudos e criou um pequeno negócio”, contou Ted Cruz no programa televisivo “Late Night with Seth Meyers”, a 16 de Março de 2015, cerca de uma semana antes de se lançar na corrida para a Casa Branca.

Apesar de ser filho de um imigrante cubano e de ele próprio ter nascido no Canadá (em 2014 renunciou à dupla cidadania, para poder ser candidato à presidência dos EUA), Ted Cruz não deixa de se bater por um combate mais eficaz à imigração ilegal nos EUA, defendendo até a necessidade de “mais botas no terreno” para aumentar a segurança nas zonas fronteiriças. Tal como se opõe convictamente ao “Obamacare”, que possibilita o acesso a cuidados de saúde a uma parte da população norte-americana que não tinha condições para pagar um seguro de saúde, enquanto ele próprio, Ted Cruz, beneficia de um plano de cobertura de cuidados de saúde providenciado pelo banco de investimento Goldman Sachs, onde a sua mulher exerce o cargo de vice-presidente.

Cresceu em Houston, no Texas, e formou-se nas universidades de Princeton e Harvard, especializando-se em direito constitucional. Trabalhou como advogado durante algum tempo, antes de se dedicar à actividade política. A primeira experiência relevante a esse nível ocorreu em 2000, quando foi assessor na campanha para as eleições presidenciais do candidato republicano George W. Bush. Prestou aconselhamento sobretudo em matérias jurídicas e desempenhou um papel importante na polémica da recontagem dos votos no Estado da Florida.

Em 2003, Ted Cruz tornou-se solicitador-geral do Estado do Texas. Durante os cinco anos em que exerceu o cargo levou oito casos até ao Supremo Tribunal dos EUA. Venceu cinco. Entre as vitórias destaca-se um caso de 2008, em que defendeu a confirmação da pena de morte a um cidadão mexicano que tinha sido condenado por ter violado e assassinado duas adolescentes. Cruz voltou depois à advocacia privada, até que em 2012 se candidatou ao Senado. Não era favorito, mas as posições ultraconservadores que defendia valeram-lhe o apoio de figuras do movimento Tea Party, como Sarah Palin e Rand Paul.

Conseguiu ser eleito senador pelo Estado do Texas e assumiu-se como um representante da ala mais conservadora do Partido Republicano. E viria a obter a dimensão nacional que lhe faltava em Outubro de 2013, ao discursar no Senado durante 21 horas (a prática de “filibuster”, tradicional na cena política norte-americana, que consiste em discursar ao longo de horas a fio com o objectivo de protelar a aprovação de um projecto de lei, bloqueando o processo) contra o “Obamacare”, defendendo cortes no financiamento do programa. Ao fim de algumas horas, Cruz até chegou a ler uma história de um livro infantil para as suas filhas, que estariam a assistir ao discurso do pai em directo na televisão.

Este tipo de comportamento e estratégia política gera anti-corpos no Partido Republicano. Por exemplo, o senador John McCain, antigo candidato à presidência dos EUA, apelidou Cruz e outros ultraconservadores ligados ao Tea Party de “aves malucas” que monopolizam a atenção dos media. “Julgo que pode ser prejudicial se houver a percepção entre o povo americano de que essas pessoas são o reflexo das opiniões da maioria dos republicanos, e não são”, alertou McCain, citado pelo The Huffington Post.

Nada que demovesse Cruz de anunciar a sua candidatura às eleições primárias do Partido Republicano, em Março de 2015, através da rede social Twitter. “Sou candidato a Presidente e espero conquistar o vosso apoio!”, escreveu Cruz, numa mensagem acompanhada por um vídeo promocional.


Uma candidatura, em primeiro lugar, contra o “establishment” do Partido Republicano, baseado em Washington, que diz ser demasiado moderado e disponível para o compromisso político. Cruz insurge-se contra a ideia corrente de que os republicanos necessitam de se tornar moderados para vencerem as eleições presidenciais. “É extraordinário que o conselho dos treinadores de bancada para os republicanos seja sempre, sempre, sempre: ‘Desistam dos vossos princípios e concordem com os democratas’”, disse Cruz citado pela revista The New Yorker no âmbito de um perfil do candidato com o título “O Absolutista”.

Nesse sentido, Cruz traça uma distinção entre os republicanos vencedores – Richard Nixon, Ronald Reagan, George W. Bush – e os republicanos derrotados em eleições presidenciais – Gerald Ford, Bob Dole, John McCain, Mitt Romney, George H. Bush. E argumenta que os vencedores eram conservadores e os derrotados eram moderados. “E o que diz toda a elite republicana de Washington? Que em 2016 precisamos de outro moderado do ‘establishment’. Não resultou em quadro décadas, mas da próxima vez é que vai ser!”, ironiza.