Fogo Cruzado

“Trump deu voz a muitas pessoas que sentiam não ter voz”

Há várias décadas que nenhum luso-descendente da costa leste consegue ser eleito para o Congresso norte-americano. Jack Martins quer mudar a estatística já em Novembro

Jack Martins marcou encontro com a SÁBADO num pequeno café de Mineola, uma vila com 20 mil habitantes nos arredores de Nova Iorque. O estabelecimento fazia todo o sentido para um encontro com a imprensa portuguesa, desde logo por causa do nome: Portugália. Lá dentro, para além de se ouvir falar português em várias mesas, é possível pedir um café expresso ou bolos nacionais. Tinham passado poucos dias do nevão que há cerca de duas semanas bloqueou a cidade norte-americana. Mas, apesar de as estradas estarem desimpedidas, o gelo ainda se acumulava nos passeios e as temperaturas mantinham-se negativas. Eram precisamente 10h33 quando o senador Estadual e antigo mayor de Mineola entrou no estabelecimento acompanhado pelo seu director de comunicação. Cumprimentou os empregados, pediu um galão e sentou-se pronto para uma conversa num português fluído. “Aprendi na escola comunitária ligada à associação portuguesa”, explica à SÁBADO. Os seus pais emigraram para os Estados Unidos na década de 1960 mas mantiveram a ligação a Portugal. Tem família em Esposende e a mulher, Paula, também é originária da região da Figueira da Foz. “Tento ir a Portugal todos os anos, no Verão, para as meninas [têm quatro filhas] manterem a ligação, embora este ano vá ser difícil”, diz. O motivo: nessa altura deverá estar em campanha para concorrer a um lugar no Congresso dos Estados Unidos.

Como se envolveu na política?
Temos a responsabilidade de nos envolvermos na comunidade local. Foi assim que fui criado. Não basta queixarmo-nos, temos de estar preparados para fazer alguma coisa. Vi coisas que não me pareciam bem e senti a responsabilidade de tentar mudá-las. Isso levou-me a concorrer ao governo local e a ser eleito.

O que o motivou?
Tinham sido feitas coisas que hipotecaram o futuro da vila. Havia uma grande dívida. Claro que há um lugar para a dívida no trabalho público. Se tivermos um projecto a longo prazo, vamos pagá-lo durante um certo período porque o benefício existe durante esse tempo. Mas não hipotecamos a geração seguinte para benefício da actual. Dou-lhe um exemplo: em 1996 houve uma tempestade grande e Mineola não tinha dinheiro para a remoção de neve. Então pediram emprestado e os contribuintes pagaram juros durante 20 anos. Só para aquele ano. Isso parou. Restruturámos a base fiscal, libertámos recursos e a dívida foi cortada dois terços em 13 anos. E ainda continuámos a desenvolver outros projectos.

Fez isso numa escala pequena. É possível fazer o mesmo a uma larga escala? Digamos, num país como Portugal que tem uma dívida de 130% do PIB?
É preciso esforço. O nosso orçamento anual era de 20 milhões [de dólares] e tínhamos uma dívida de 33 milhões. Obviamente que no caso de um país os fluxos de rendimentos e despesas são mais complicados, mas os princípios são os mesmos. O bom trabalho que fizemos deu-me a possibilidade de concorrer ao Senado estadual há cinco anos.

Porque decidiu agora concorrer ao Congresso?
A verdade é que as pessoas estão zangadas e frustradas. Há uma enorme ansiedade em relação ao futuro do país. Há a noção de que os nossos filhos não terão as oportunidades que nós tivemos. Onde é que o filho de um emigrante como eu poderia ser senador estadual e concorrer ao Congresso com boas possibilidades de ser eleito? Concorro porque as políticas que têm sido aplicadas puseram o país numa posição difícil e posso fazer a diferença para melhor.

É muito diferente concorrer a um cargo em Portugal e nos Estados Unidos. O que é preciso, que dificuldades enfrenta?
São dois mundos. Em Portugal concorre-se como membro de um partido, numa lista. As pessoas votam no partido e não no indivíduo. Aqui as eleições são pessoais. Todos concorrem por si. No fim, a nossa ligação partidária determina se ficamos na maioria ou na minoria. As minhas eleições – para a vila, o Senado estadual e agora para o Congresso – basearam-se em mim.

É mais responsabilizado?
Não só pelas minhas acções mas também perante os meus constituintes de uma forma muito pessoal. Em Portugal a responsabilidade é do partido e há um afastamento. Aqui o contacto é directo.

Para concorrer precisa de apoio.
Sim, e angariamos dinheiro.

Quanto precisa de angariar para concorrer ao Congresso?
Depende das regiões, da intensidade da corrida, da oposição.

Li que seriam 3 milhões de dólares (2,68 milhões de euros)… Provavelmente rondará esse valor. Na minha última candidatura estadual, os meus adversários gastaram 2 milhões de dólares contra mim e eu gastei 1,5 milhões para defender o meu lugar. Era uma corrida e duas pessoas. Espero que este lugar no Congresso, que responde a uma área que será o dobro do meu lugar no Senado estadual, precise de recursos equivalentes.

Como consegue obter uma quantia dessas?
Angariamos dinheiro. Telefonamos às pessoas, pedimos aos amigos que nos apoiem – e as pessoas fazem-no. Isso é a coisa mais notável. Sejam 50 dólares ou 100 dólares, as pessoas apoiam os candidatos que sentem estar numa posição de fazer a diferença.

O que faria no Congresso?
Exactamente o que fiz no Senado de Nova Iorque: vou construir consensos e concretizar coisas. Há pessoas nos dois lados do espectro político que acreditam ter todas as respostas e que as perspectivas do outro lado não têm mérito. Não vejo as coisas assim. Especificamente, dependerá do rumo que o país tomar com o próximo Presidente.

Tem um favorito?
Vou esperar e ver como correm as primárias por todo o país.

Recentemente os EUA reduziram a presença militar nas Lages. Tem uma posição sobre esse assunto?
Sim. Todos assumem que há um benefício para Portugal, mas temos de nos lembrar que há um tremendo benefício estratégico para os Estados Unidos. Os EUA têm a responsabilidade de manter a base e o contacto com o governo português. Portugal foi o segundo país do mundo a reconhecer a independência americana e por isso há uma longa história de boas relações entre os dois países. Estrategicamente, esta base serviu muito bem os dois países. Se vai haver uma mudança estratégica, há uma responsabilidade do governo americano de assegurar que não viramos as costas a Portugal.

O congressista Devin Nunes defendeu como alternativa a instalação de um centro de informações nas Lajes. O que pensa disso?
É exactamente desse tipo de soluções que falo quando digo que não devemos virar as costas a Portugal. Podemos discutir qual é a solução, mas não podemos discutir a responsabilidade de a encontrar: seja um tipo diferente de base, seja o desenvolvimento de um centro para o estudo dos Oceanos.

Disse que ia esperar para ver como corriam as primárias. Mas como membro do Partido Republicano, tenho que insistir, certamente que tem um candidato preferido.
Claro que tenho. Acredito que o Partido Republicano tem candidatos que podem ir para esta eleição, em particular, e unir as pessoas de uma forma que os Democratas não podem. Se tivesse de escolher uma pessoa… enumero os 10 ou 11 [risos]?

O que pensa do fenómeno de Donald Trump?
Acho que é uma personalidade. E que através da força da sua personalidade trouxe à baila assuntos que devíamos estar a discutir.

Por exemplo?
O papel do governo, a ansiedade das pessoas.

Construir um muro no México?
Não. Não quero entrar na discussão se devemos construir muros ou excluir muçulmanos. Há coisas em que não nos devíamos focar. É mais aquilo que nos une do que o que nos separa. Mas diria o seguinte: a ansiedade que existe entre os eleitores nos EUA, republicanos, democratas e independentes, é real. E Donald Trump deu voz a muitas pessoas que sentiam não ter voz. Dito isso, algumas posições dele não são realistas. Não estamos aqui para decidir vencedores e perdedores, estamos aqui para tentar encontrar um caminho através da construção de consensos. Preferia ver Trump a focar-se em assuntos como esses e não em assuntos que podem fazer mais para nos dividir do que outra coisa.

Sabe o que as pessoas pensam do outro lado do Atlântico sobre a possibilidade de Donald Trump poder ser o nomeado republicano?
Sei. E também sei o que as pessoas sentiram, em 2008, do então candidato Barack Obama ser Presidente dos Estados Unidos… Embora pense que seja um exercício maravilhoso na política os outros darem-nos a sua opinião, a decisão sobre quem será o Presidente é essencialmente americana.

Como avalia os dois mandatos de Barack Obama?
Francamente, os últimos sete anos foram um desapontamento. As expectativas eram elevadas e foram assumidos compromissos muito grandes. Se olharmos para trás, de mente aberta, esses compromissos não foram respeitados. Sinto que estamos num ponto em que o país está mais dividido política e filosoficamente. Temos candidatos como Bernie Sanders do lado democrata e Donald Trump no lado republicano que falam para essa divisão. Questiono-me se o legado do presidente Obama terá sido ou não a criação desta divisão. A minha esperança sincera é que o próximo Presidente possa unir as pessoas e começar a sarar algumas das feridas que existem e a definir um caminho de unidade para o futuro.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento

Artigo publicado originalmente na edição n.º615 da SÁBADO, a 11 de Fevereiro de 2016