Made in America

A SÁBADO no Trump show

O candidato milionário diz que está zangado e farto de ver o país ser humilhado. Lidera todas as sondagens no New Hampshire e promete: com ele, os americanos vão ficar "fartos de ganhar"

There’s a fire
starting in my heart
Reaching a fever pitch, it’s
bringing me out the dark…

Passavam 21 minutos da hora marcada quando Donald Trump entrou como um furacão no salão de cerimónias do hotel Radisson, em Nashua, New Hampshire, ao som do êxito da britânica Adele. As 1.200 pessoas que há mais de três horas esperavam para o ouvir levantaram-se imediatamente.

Enquanto uns aplaudiam, outros erguiam os telemóveis para captar as primeiras palavras do candidato à nomeação presidencial pelo Partido Republicano. Ele não perdeu tempo com agradecimentos ou conversa de circunstância: “Parece que podemos fazer discursos praticamente sem dormir. Vão acontecer coisas más.”

A assistência aplaudiu. Duas frases bastaram para a conquistar. Foi na sexta-feira, 29 de Janeiro. O multimilionário nova-iorquino tinha acabado de chegar do Iowa onde, na noite anterior, organizara um evento paralelo ao debate na Fox News que reuniu os seus principais adversários, a dias do caucus que marcou o início da corrida eleitoral norte-americana. As sondagens apontavam-no como virtual vencedor por uma pequena margem. No entanto, a vitória acabaria por sorrir ao senador do Texas Ted Cruz, por quatro pontos percentuais. “Disseram-me que podia cancelar o New Hampshire se quisesse. Disse-lhes ‘nem pensar. Vou lá e volto’.” Mais aplausos esperados: no Estado que tem como lema “viver livre ou morrer” as sondagens indicam que, a uma semana das primárias da próxima terça-feira, dia 9, Trump tem uma vantagem esmagadora sobre Ted Cruz.

Quase sem parar para respirar, o milionário e estrela de televisão deu a sua versão sobre a recusa em participar no debate no Iowa que teve como moderadora a jornalista Megyn Kelly por sentir que ela não “o trata bem” – e usou o caso como uma metáfora para o que fará se for eleito presidente. “Quando não nos tratam bem temos de ser fortes. De lutar pelos nossos direitos. E como vosso líder, vou lutar pelos direitos do país”, garantiu. Depois fez uma comparação que parecia despropositada: “Não vai ser como com os 10 marinheiros, há duas semanas [capturados pelo Irão]. Que estavam ali ajoelhados, com armas na cabeça. Isso não vai acontecer mais.” Mas para Trump faz sentido – e para a multidão também. “Só os trouxemos de volta porque lhes vamos dar 150 mil milhões. Tão triste. Ahhh, comigo teria sido tão diferente. Tínhamos os reféns de volta no dia seguinte! Teria sido muito fácil. Primeiro duplicávamos as sanções. Depois nunca lhes daríamos os 150 mil milhões. Para além disso teríamos uma negociação simpática”. Risos na sala. Mas Trump não parou. E continuou ao ataque. “Demos-lhes dinheiro e viram onde o estão a gastar? Na Europa e na Rússia. Em todo o lugar menos nos Estados Unidos. Vão comprar 118 aviões Airbus. Porque não compram boeings? Somos governados por estúpidos! E vai acabar.”

Um discurso de Trump é assim. Frases em rajada sobre assuntos que parecem não ter relação mas que ele arranja forma de interligar, um conjunto de temas caros aos americanos (terrorismo, imigração ilegal, apoio aos veteranos de guerra, emprego e economia) reunidos sob a bandeira de “fazer a América grande outra vez”, gabarolice e insultos. Muita gabarolice. E muitos insultos. Aos adversários, aos políticos do establishment, aos jornalistas e a quem discordar dele. Sempre com humor.

Finally I can see
you crystal clear
Go‘head and sell me out and
I’ll lay your shit bare

“Ele insulta toda a gente, mas não queremos saber. Queremos que ele faça as coisas como nos negócios: que avalie as possibilidades e tome a melhor decisão não em benefício deste ou daquele, mas de todos”, diz à SÁBADO, Gary Brelsford, 64 anos. Ele e a mulher, Lisa, acordaram de madrugada, às 4h, para fazerem a viagem de duas horas e meia que separa o Connecticut, onde vivem, do New Hampshire. Como muitos outros apoiantes, enfrentaram a temperatura negativa durante mais de uma hora até à abertura das portas, às 8h. Só depois de passarem por um apertado cordão de segurança, que incluía uma dúzia de agentes da polícia, elementos dos serviços secretos e dois detectores de metais.

Depois puderam sentar-se e conversar com a SÁBADO enquanto os altifalantes emitiam uma inesperada playlist para um comício político: de Hey Jude, dos The Beatles a Nessun Dorma, por Luciano Pavarotti, entre outras.

A PLAYLIST DE TRUMP Estas são as canções que a campanha usa nos comícios:

Rocket Man – Elton John

Hey Jude – The Beatles

Rolling in the Deep / Skyfall – Adele

We’re not gonna take it – Twisted Sisters

Rockin’ in a free world – Neil Young

It’s the end of the world as we know it (and I feel fine) – R.E.M

Nessun Dorma – Pavarotti

Music of the Night – Fantasma da Ópera

You can’t always get what you want – The Rolling Stones

Cada um usava um boné vermelho com o slogan da campanha de Trump, “tornar a América forte outra vez”. “O problema é que nos tornámos um país de serviços, já não produzimos nada”, diz Gary, que trabalha há 40 anos numa empresa que produz componentes para a indústria aeroespacial. “E agora o Bernie Sanders quer tirar-me o dinheiro para dar aos tipos na rua que depois vão comprar bebida? Nem pensar”, afirma.

A mulher, Lisa, 63 anos, cujos avós emigraram da Madeira para a América do Sul e depois para os EUA, tem outro motivo para apoiar Trump: “Acho que é o único que pode bater a Hillary. Ela é mentirosa. Quando era secretária de Estado enviou um email à filha a dizer que aquilo em Benghazi tinha sido um atentado terrorista e depois disse às famílias que não foi. Acho-a desonesta e não tem afecto. Só quer ser eleita presidente”. O marido complementa-a, entre risos: “E o Bill quer que ela seja eleita para ir atrás das estagiárias da Casa Branca.”

No púlpito, Donald Trump é um entertainer. Parece que fala de improviso. Mas quem o seguir com atenção percebe que os discursos que faz diariamente são semelhantes. Introduz pequenas variações conforme o local e os acontecimentos da véspera ou do próprio dia. E em todas as intervenções há um elemento em comum: as sondagens. “A imprensa pergunta-me porque falo tanto de sondagens. Porque estou em primeiro!” Aplausos. Depois usa-as para atacar os adversários. Sem dizer o nome de Jeb Bush, fala no candidato que diz já ter gasto 120 milhões e que não existe nas sondagens. “Como é possível? Posso dar 120 milhões a qualquer um. Quem quer? Você quer 120 milhões? E você?”, pergunta, ao mesmo tempo que aponta na direcção de várias pessoas que já estão de braço no ar. A seguir revela: “Nesta altura devia ter gasto 40 milhões, mas gastei peanuts, quase nada”.

Seguem-se alguns dos seus temas favoritos. “Coisas boas que temos: fronteiras e segunda emenda [que protege o direito ao porte de armas].”

Então, num repente, salta de New Hampshire para Paris. “Em França não podem ter armas. Bom, os maus têm armas. Eles entraram e bum, bum, bum. Ninguém retaliou. Se algumas pessoas tivessem armas, as balas iam na outra direcção”. Novos aplausos.

A meio da sala, vestido com o uniforme dos Marines, Craig Sullivan ouve com atenção as palavras do candidato que na véspera disse ter angariado seis milhões de dólares para os veteranos de guerra. É a primeira vez que assiste a um discurso de Trump. “Soube que ia votar nele quando ele falou nos veteranos e no exército. Foi o primeiro a fazê-lo e agora todos falam no assunto”, diz à SÁBADO. Aos 34 anos, transporta as sequelas de duas comissões no Iraque. A primeira em Nasiriya e a segunda em Fallujah. Nesta última, em 2006, só lá esteve três meses. “Ia num Humvee quando fomos apanhados por um IED [engenho explosivo improvisado]. Perdi um pulmão. Tive sorte, mas há camaradas meus que têm tido dificuldade em ter cuidados de saúde. O Trump fala sempre em ajudar-nos”.

See how I leave
with every piece of you
Don’t underestimate the
things that I will do…

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A comunicação social é outro dos temas favoritos do milionário. Um tema e um alvo. “Olhem lá para trás. Tantas câmaras. Quando anunciei a candidatura parecia os óscares”, diz. Mais risos. Depois um ataque brutal a Joseph McQuaid, publisher do Union Leader, o principal jornal do New Hampshire. “É um tipo que escreve uns editoriais [contra Trump, claro]. Recebi esta carta dele hoje a pedir-me anúncios. Está sempre a pedir-me favores, discursos, dinheiro. Um dia convidou-me para almoçar e jogar golfe. Disse-lhe: ‘Joe, não sou o Obama, não tenho tempo’”. Mais risos. Em poucos minutos chama-lhe “mentiroso”, “mau tipo”, “agressivo”, “falhado”, “cão nojento”, “psicopata”, “desonesto”, “loser”. E pergunta: “Há por aí algum advogado? Porque não processamos este tipo?” Quando alguém levanta a mão Trump fala directamente. “Processa-o por mim? Faz-me um bom preço?”

É por frases como esta que Trump quase não gastou dinheiro na campanha. Os insultos dão-lhe espaço nos noticiários televisivos, fazem os outros candidatos falar nele e a campanha girar à sua volta. Não precisa de anúncios. Tem toda a publicidade de borla. Ele sabe isso. E goza com o assunto. Despreza os jornais. “Adoro o Twitter. Se me atacam, posso responder. É como ter o The New YorkTimes sem os prejuízos. São 12 milhões de seguidores”, afirma para delírio do público.

Mais sondagens. Ele pergunta: “Quem é o melhor contra o Estado Islâmico?” Resposta da sala: “Trump!” “Quem é o melhor na economia?” “Trump!” “Quem é o melhor nas fronteiras?” “Trump!” “Quem tem a melhor personalidade?” “Trump!”. “Quem vai cumprir a palavra?” “Trump!” Parece ensaiado, mas não é. Trump diz que está zangado. As mais de mil pessoas à sua frente assentem. Dizem que também estão. “Temos o direito a estar zangados.

Temos uma dívida de triliões. Há imigrantes ilegais a tomar conta de Câmaras Municipais. E todos querem ser politicamente correctos”, afirma.

São as palavras que Michael Seaman, 17 anos, esperava ouvir. “Sou fã dele. Também não sou politicamente correcto. Gosto de dizer Feliz Natal e não Festas Felizes por causa de uma minoria da população”, diz à SÁBADO. De fato e gravata, explica que veio com um grupo de colegas da escola do vizinho Massachussets. Ainda não votará nas primárias, mas em Novembro já terá idade para escolher o seu candidato. “Temos um grande problema com a imigração ilegal. Se quiserem vir, que venham legalmente”, afirma.

Para Trump tudo é simples. “Adoro os latinos. Dou-lhes emprego. Adoro os chineses, vendo-lhes condomínios. Mas os líderes deles são muito espertos para os nossos políticos. É por isso que quero pôr os nossos bons empresários a negociar com a China.” Como? Não diz. Mas também não importa. “Somos liderados por pessoas estúpidas. A China é o maior ladrão da história. Levou-nos os empregos, as fábricas e o dinheiro.

Adoro os chineses. Mas estou zangado com os nossos que os deixaram roubar-nos”. Grita-se “yeah”. Passou menos de uma hora.

Trump resume as ideias-chave: “Vou recuperar os empregos, tratar dos militares, substituir o ObamaCare, construir um muro na fronteira com o México – e vão ser eles a pagá-lo. Vai ser lindo!” Mais uma vez, a mensagem é simples. Para Trump trata-se de vencedores e vencidos – e ele considera-se um ganhador. Antes de ficar 22 minutos a distribuir autógrafos, prometeu: “Gente, vamos ganhar tanto que vocês vão ficar cansados de ganhar. Adoro-vos. Ainda bem que fiz esta viagem estúpida”.

A SÁBADO viajou com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento

Artigo publicado na edição n.º614, de 4 de Fevereiro de 2016.