Fogo Cruzado

“Trump apenas diz o que lhe vem à cabeça”

Para Tony Cabral, delegado do Partido Democrata, com origens açorianas, nenhum dos candidatos republicanos tem hipóteses de ganhar a eleição geral contra a sua favorita: Hillary Clinton

Antonio F. D. Cabral, ou apenas “Tony” Cabral na cena política norte-americana, é membro da Câmara dos Representantes do Estado de Massachusetts, em representação do 13º distrito de Bristol, ininterruptamente, desde 1991. Uma sólida carreira política que poucos considerariam ser possível quando, em 1969, o jovem Antonio, com 14 anos, emigrou com a família da ilha do Pico, nos Açores, até Bristol, em Rhode Island. Quando chegou aos EUA ninguém na sua família  sabia falar inglês. Antonio ganhou a alcunha de Tony e subiu a pulso: estudou de dia e trabalhou à noite para ajudar a família. Formou-se e acabou por se dedicar à política, personificando o velho “sonho americano” de ascensão social através do mérito individual. Esteve em Portugal nos últimos dias a convite da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, para participar na segunda edição do “Luso-American Legislators’ Dialogue”, uma iniciativa que juntou políticos e legisladores dos EUA e de Portugal com o objetivo de promover o diálogo institucional entre os dois países. E falou com a SÁBADO poucas horas depois de ter aterrado em Lisboa.

Para si, qual é o candidato presidencial, democrata ou republicano, mais popular entre a comunidade luso-americana nos EUA?
Bem, não vou falar por toda a gente, ou talvez não devesse fazê-lo, mas diria que o mais popular será o do Partido Democrata, independentemente de quem vier a ser o nomeado. Neste momento temos dois candidatos e eu acredito, obviamente, que Hillary Clinton é a que conta com mais votos na comunidade luso-americana. E eventualmente chegará Novembro, quando teremos o nomeado de cada partido, e penso que a maioria da comunidade luso-americana votará no candidato democrata. Neste caso, acredito que será Hillary Clinton.

Enquanto delegado do Partido Democrata que apoia Hillary Clinton, como é que vê as acusações de Bernie Sanders quanto à desproporção de apoiantes de Clinton entre os superdelegados? Acha que ele tem razão de queixa?
Acho que não. Quer dizer, são essas as regras, é assim que se define o número de delegados. O partido tem regras que estabelecem o número de delegados que são escolhidos e eleitos pelo processo normal, baseado na percentagem dos votos que cada candidato obtém em eleições primárias ou “caucus”. E depois há os superdelegados baseados em cada Estado. São essas as regras. Neste momento Clinton tem mais apoios entre os superdelegados porque ela passou muito tempo, não apenas agora, a falar, a debater e a cativar esses superdelegados. E alguns foram colegas dela no Senado. Portanto, na base da decisão dos superdelegados está a escolha de quem consideram ser o melhor nomeado para vencer em Novembro. É essa a base da decisão de apoiarem um candidato em detrimento do outro. Sanders conhece as regras, presumo. Embora ele nunca se tenha envolvido no processo eleitoral do Partido Democrata anteriormente, porque ele até agora nunca tinha sido um democrata registado…

Era um independente…
Independente, socialista, democrata, qualquer que seja a auto-definição que ele utiliza.

Porque é que considera que Clinton é a melhor candidata? Quais são as vantagens de Clinton em relação a Sanders?

Bem, vamos pôr a questão assim, eu até acho que o senador Sanders – não quero desconsiderar completamente a campanha dele -, acho que ele trouxe questões importantes para o debate público. Em alguns casos ele tem uma argumentação cativante, no que respeita a esses assuntos. Mas eu acredito que Hillary Clinton tem o “know-how”, tem a experiência, é alguém que trabalhou para o Partido Democrata na maior parte da sua vida… As suas ideias são as ideias centristas que nós necessitamos de ter para vencer a eleição geral. Não se pode estar demasiado longe do centro, em qualquer dos sentidos, esquerda ou direita, para conseguir ganhar a eleição geral.

Considera que Trump e Cruz estão longe do centro político?
Sim, penso que estão.

Defende essa ideia no geral, a necessidade de ganhar as eleições ao centro, ou refere-se a estas eleições em particular, tendo em conta os candidatos republicanos que se perfilam?
Eu penso que Cruz esteve sempre muito longe do centro político, ele está o mais à direita possível no interior do Partido Repúblicano. Não há nada de centrista nele. Mas é no centro que a diferença entre republicanos e democratas se torna menor. Acho que Donald Trump é alguém que não sei se estará longe do centro, em qualquer uma das direcções. Ele apenas diz coisas que são assustadoras, até um certo ponto. Para algumas pessoas ele pode parecer alguém de extrema-direita, mas eu acho que ele apenas diz o que lhe vem à cabeça. E não se baseia necessariamente em qualquer ideologia política, de esquerda ou de direita.

Isso é populismo?
Sim, é uma espécie de populismo.

E acha que é perigoso? Ou apenas uma forma de espectáculo político à americana?
Não diria que é um populismo perigoso. Se fosse alguém como o Ted Cruz, eu consideraria isso mais perigoso. Porque ele é um verdadeiro crente, certo? É um verdadeiro crente, no que quer que seja em que ele acredite. E, obviamente, as suas crenças estão muito à direita, no extremo, e isso não representa a maioria dos eleitores nos EUA.

Concorda com a ideia de alguns republicanos de que Donald Trump é como Ronald Reagan, alguém que parece ser muito perigoso durante a campanha eleitoral mas que depois, na Casa Branca, se torna um presidente “normal”, mais moderado, menos assustador?
Não, acho que Trump não se assemelha em nada a Ronald Reagan. Acho que ele não representa o que Reagan representou ao nível das ideias, ao nível de como ele entendia o Partido Republicano. Acho que Trump… Não tenho a certeza do que ele representa. Não o compararia de todo com Reagan, que foi um grande comunicador, mas não explorava ódio. Ele não atacava e criticava os grupos de pessoas diferentes de que não gostasse. Poderíamos não concordar com muitas das políticas de Reagan, mas nunca o caracterizaria como Donald Trump.

Para Clinton, qual seria o pior candidato republicano a enfrentar em Novembro, para as suas possibilidades de vitória?
Eu acho que eles não têm um pior candidato, são ambos maus candidatos, Trump e Cruz. Não acho que eles possam vencer a eleição geral. Na minha perspectiva, nenhum deles tem hipóteses de vencer a eleição geral contra Clinton.

Será uma eleição fácil para Clinton?
Não diria que será fácil, mas a não ser que Trump e Cruz alterem drasticamente as suas posições políticas, não vejo como possam ser eleitos em Novembro. Portanto, penso que cada um deles será um candidato perdedor e que Hillary Clinton irá vencer.

Mas que posições políticas: ao nível económico, social, religioso, a questão dos imigrantes, a política internacional?
Penso que é o conjunto de todas essas questões. Eu acho que eles não representam o “mainstream” do pensamento político americano, do que os americanos pensam.

E tem a certeza de que a eleição geral será decidida no centro político?
Sim, no “mainstream” político, ligeiramente para a esquerda ou para a direita, não necessariamente no centro.

Acerca da Base Aérea das Lajes, nos Açores, uma questão importante para Portugal, considera que o próximo presidente poderá optar por uma abordagem diferente em relação ao problema? Ou esse processo decisório passa mais pelo Congresso e pelo Pentágono do que pela Casa Branca?
Evidentemente que passa muito pelo Congresso. Mas o presidente dos EUA pode definir uma direcção. E debater e expressar a sua opinião sobre o assunto, perante o Congresso e o Pentágono, ou melhor, o Departamento de Defesa. De qualquer modo, é um processo que está em curso. Há muitos membros do Congresso que gostariam de ver a Base Aérea das Lajes a ser utilizada de uma forma diferente. Talvez algumas operações que estão instaladas noutras partes da Europa possam ser relocalizadas para as Lajes. É um processo em curso, de discussão e até de luta política entre o Congresso e o Departamento de Defesa.

Considera então que o novo presidente dos EUA não terá muita influência nesse processo? Aliás, Hillary Clinton foi secretária de Estado na Administração de Barack Obama, o problema das Lajes já lhe terá passado pelas mãos.
Sim, penso que, entre todos os candidatos, Hillary Clinton será a que tem uma maior familiaridade com o assunto…

E menor probabilidade de optar por uma nova abordagem?
Não, isso não significa que ela não vai ter uma nova abordagem. É a que tem um conhecimento mais aprofundado sobre o assunto e com a qual poderemos tratar e discutir logo a partir do primeiro dia na Casa Branca. Qualquer outro candidato teria primeiro que receber “briefings”, ser assessorado, ler relatórios, etc. Porque a questão em torno das Lajes, nos Açores, embora na perspectiva de algumas pessoas seja apenas sobre a continuidade ou não da Base Aérea em funcionamento, mas a questão é muito maior do que isso. A verdadeira questão passa pela definição do que são as necessidades dos EUA no exterior, além-mar, particularmente no Atlântico e na Europa, em contraponto ao Pacífico. Tem que se inserir nesse plano geral.

Essa foi a nova doutrina estratégica da Administração de Obama, virar-se para o Pacífico em detrimento do Atlântico, retirar forças militares da Europa e focar-se mais na Ásia. Ora, Clinton participou nessas decisões e terá a mesma visão geoestratégica…
Não tenho a certeza de que terá a mesma visão geoestratégica. Neste momento acho que devemos pensar que, o próximo presidente dos EUA, Clinton ou outro dos candidatos, terá que reanalisar a estratégia. Repensar a estratégia. É importante que tenhamos uma estratégia para o Pacífico e para a Ásia, porque isso é importante para a segurança nacional dos EUA. Mas eu penso que o Atlântico e a Europa comprovaram ser uma área da qual não podemos retirar, nem diminuir as forças militares destacadas, apenas porque temos que dirigir mais recursos para a área do Pacífico. Tendo em consideração os desenvolvimentos dos últimos anos na Ucrânia, Crimeia, em todo o Médio Oriente, ficou claro que os EUA não podem retirar-se do Atlântico e da Europa, para deslocalizarem recursos para a área do Pacífico. Julgo que os EUA são o maior membro da NATO e continuam a sê-lo.

Os desenvolvimentos no Médio Oriente, a guerra na Síria, a crise dos refugiados, são elementos mais preponderantes para o futuro da Base Aérea das Lajes, nos Açores, do que o resultado das  presidenciais?
Penso que eventos mundiais dessa magnitude podem desempenhar um papel na futura utilização da Base Aérea das Lajes.