Miguel Ferreira da Silva

Director da Comissão para o Estudo e Estratégia da Governação do Mar

Especialista em Segurança, Defesa e Política Internacional, foi representante português no Africa Center for Strategic Studies e adido político na embaixada de Portugal em Washington.

Fazer limonada com Trump

Um adágio popular nos Estados Unidos diz: “Se a vida te dá limões, faz limonada.”

Parece ser essa a atitude de boa parte dos quadros do Partido Republicano. O aparelho do “Grand Old Party” (GOP) detesta, naturalmente, o candidato Donald Trump. O que poucos europeus percebem é que mais do que não gostar de Trump a maioria é anti-Ted Cruz. Alguns dos que acompanham as primárias americanas, nos quais me incluo, tendem a concordar. Numa desadequada comparação o populismo anti-establisment de Trump, qual Tino de Rans, não será tão perigoso quanto o radicalismo teológico de Ted Cruz, qual discurso de Pedro Arroja.

Mas nem todos os motivos do aparelho do GOP serão assim altruístas. Na base desta postura anti-Cruz reside também um instinto primário de sobrevivência. Cruz representa toda a faixa de radicalismo conservador que tem vindo a encurralar o partido Republicano. O chamado Tea Party há muito deixou de ser uma mera tendência para se transformar num “quisto” em expansão. O Partido sabe isso, e está preocupado.

No limite surgem duas soluções: O Tea Party toma conta de todo o GOP, substituindo-o (opção Ted Cruz); ou o Partido Republicano consegue conter o Tea Party num tamanho “operável” para extração. Acontece que, até agora, todas as terapias de contenção falharam e, num certo sentido, há quem anseie por uma crise que force a ida à mesa de cirurgia (perdão, à mesa de voto).

Recorde-se que John Boehner anunciou a sua saída de “Speaker” (Presidente da Câmara de Representantes) não por acção do partido opositor (Democratas), mas pelas acções para a sua destituição por elementos Tea Party do seu próprio partido. Nessa ocasião, ouviu-se pela primeira vez Congressistas Republicanos a defenderem a expulsão do partido de todos os que votassem de forma desleal a um voto de confiança (leia-se Tea Party).

Esta primeira manifestação pública de que a OPA era hostil foi discretamente abandonada, em favor de uma estratégia mais subtil, idealmente adiada para um acerto de contas nas primárias em curso. O sobressalto foi, por isso, enorme quando o aparelho republicano constatou que a maioria dos eleitores também contestava o establishment, se não com Cruz, com Trump.

Durante algum tempo ainda pensaram no “efeito útil” deste voto de protesto, que deveria dividir o Tea Party, favorecendo os candidatos mais moderados. Seguiu-se uma grande surpresa: Jeb Bush nem se aproximou da praia, Marco Rubio morreu à vista dela (pelo menos até redirecionar os “seus” delegados na convenção).

Nesta cruzada anti-Cruz, restam ao aparelho duas opções. Conseguir uma convenção aberta e, quais congressos disputados, surgir com uma surpresa – no caso John Kasich – que garanta o afastamento dos radicais, mas assumindo o peso do aparelho. Ou “escolher” apoiar o populismo contra o radicalismo, e “rezar” para que Trump garanta uma derrota honrosa ao GOP. Ou seja, “se a vida te dá limões, faz limonada”.

Tendo a discordar.

Nós, europeus, perdemos as subtilezas da psique americana, boa parte prefere votar contra Hillary do que verdadeiramente escolher quem quer para Presidente. Quer isto dizer que na população geral há um sentimento anti-Hilary (cavalgado por Bernie Sanders), mimetizado pelo sentimento anti-Cruz do aparelho republicano. É um jogo perigoso. Perigoso para o partido, para o país e para as consequências nos jogos de poder mundial.

Em vez de fazer limonada, seria preferível escolher fruta nova ou  “Fazer o ponche de frutas grande outra vez”.

A liderança republicana, corporizada na liderança da Câmara dos Representantes, tem-se remetido a um ruidoso silêncio. Já não se trata do distanciamento respeitoso pelo processo interno das primárias. É claramente uma desfiliação do processo de escolha, com o qual não se identifica.

Sobre estas regras – e sua possível reforma – falaremos noutra altura.

Agora é tempo do antes controverso, agora moderado, Paul Ryan mostrar o que vale. O receio é muito, não pela nomeação para candidato a presidente (que esperam não ganhe), mas pelo futuro do partido a que pertencem. Como diria um conhecido meu que por lá anda “O centro do GOP é a maioria na Câmara (dos Representantes). E a liderança da Câmara precisa de se afirmar”.

Também o “Speaker” Ryan, contudo, vive um dilema: preservar-se para 2020 em apoteose ou, na pior das hipóteses, para 2024; ou então preservar o partido e assumir já uma atuação forte e determinada na convenção, ao provocar uma crise seguida da reconstrução do Partido Republicano.

Nesta leitura, politicamente mais pragmática, as primárias republicanas não servem para escolher o próximo presidente dos EUA, mas para definir quem lidera o próprio partido depois de Novembro.