Made in America

A América em mudança

Um dos partidos não sabe quem vai nomear, um dos nomeados será uma mulher, outro um magnata que nunca trabalhou para o Governo e um dos maiores adversários é um auto-proclamado socialista

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Joana Godinho é produtora na cadeia de televisão CCTV America. O artigo representa apenas o ponto de vista dela. Pode ser contactada em mariajoanagodinho@gmail.com


Os Americanos nunca viram uma eleição como esta: pela primeira vez em quatro décadas um dos partidos não sabe quem vai nomear, um dos nomeados será uma mulher, outro um magnata que nunca trabalhou para o Governo em nenhuma função e um dos maiores adversários é um auto-proclamado socialista. Nada disto alguma vez aconteceu na memória dos que hoje vivem estas eleições. E quais são as ideias que circulam para uns Estados Unidos mais fortes? Construir um muro na fronteira do México, Universidade à borla, bombardear o Estado Islâmico, menos impostos e mais gastos. E eu pergunto: porque não oferecer também uma fatia de bolo e um pónei? Em Novembro, os Americanos vão às urnas para votar naquele que será o menos mal no cargo e não no melhor candidato para liderar o futuro da América. Muitos perguntam-se se esta não será a altura para o nascimento de um 3º partido, algo nunca pensado na história dos EUA.

Hillary Clinton é vista pelos Democratas como a Madre Teresa de Calcutá e pelos Republicanos como uma mentirosa (não esquecer os episódios do servidor privado para uso de email e de Benghazi).  Mas há poucas duvidas que Hillary Clinton vai ser a primeira mulher Americana a ser nomeada para Presidente dos EUA. Contudo, há um sentimento de amor-ódio no Partido Democrata por ela e não será fácil a transição de Obama para Clinton. No entanto será muito mais fácil do que para um republicano. Achavam que o Bush filho era pró intervenção militar? Hillary Clinton é uma mulher que muitos vêem como war hawk (um “falcão de guerra”) enquanto comandante chefe, pelo menos comparada com os últimos 8 anos.

Bernie Sanders é visto pelos Republicanos como Karl Marx e pelos Democratas como um liberal em esteróides. A sua campanha já terminou e ele sabe disso, mas o sonho continua. Será que está à espera que Clinton seja constituída arguida? Isso poderia mudar tudo para ele. A convenção democrata só se realiza no fim de Julho em Filadélfia… até lá muitas coisas podem acontecer. Mas há uma outra teoria – ele sabe que a sua campanha terminou, mas usa os debates para cultivar e aprofundar as suas ideias: a reforma das campanhas eleitorais, a reforma de Wall Street, etc, durante horário nobre. As ideias do Sanders são populares numa Europa de esquerda, mas não têm asas para voar nos EUA. Universidade paga pelo estado é uma ideia que todos gostamos. Mas ele ainda vai ter que explicar como vai financiar 4.140 Universidades públicas. Claro que Bernie fala no imposto a Wall Street e isso é música para os ouvidos dos mais novos que não têm noções de como tudo se processa. O presidente dos Estados Unidos não tem autoridade para taxar Wall Street e mandar o dinheiro para as Universidades. Apenas o congresso pode fazer isto e eles jamais o fariam.

Donald Trump é o fenómeno destas eleições americanas. Na verdade, nunca ninguém pensou que este charlatão, sim esta é a forma como os democratas e republicanos o vêem, chegasse tão longe. Mas chegou. A mensagem dele apela aos Americanos cansados de uma América que não é funcional, “Make America Great Again”. Ele vendeu esta ideia em todas as tascas que parou. Trump fala dos grandes feitos que vai conseguir, mas ele ainda tem que explicar COMO os vai conseguir.

Os Republicanos lembram-me os gregos com os orçamentos de estado: têm as mãos a puxar os cabelos e não sabem o que fazer com a porcaria do seu candidato. Outros dizem que ele é uma fraude genuína e essa é uma descrição também ela genuína. Ele liga-se às pessoas de uma forma genuína, que se torna numa fraude óbvia. Tal e qual como o wrestling profissional onde tudo é um show off. No wrestling não há luta para competir pelo primeiro lugar, mas a audiência vai pensando que sim e segue nesta palhaçada do fingir que vai haver uma luta para escolher um vencedor.

Trump é o republicano mais popular nesta corrida às presidenciais, mas todos sabemos que ele não tem capacidade para ser presidente (não sei se ele já se apercebeu disto também). Recentemente uma das suas ex funcionárias de campanha disse que ele entrou na corrida como candidato de protesto, mas as coisas saíram do controlo e ele não sabe o que fazer. Para além de tudo isto, ele tem aversão a mulheres e é anti-hispânicos. Às vezes fico a pensar o que acontecia se os hispânicos desistissem de trabalhar nos hotéis Trump. Tudo isto iria destruir um candidato normal, mas estas não são umas eleições normais nos EUA e este não é um candidato normal. Mas a esta altura do campeonato, ele será o provável nomeado republicano.

Há ainda outros dois candidatos republicanos. Ted Cruz é o candidato mais semelhante ao perfil de Barack Obama, quando concorreu a presidente. Cruz tem 43 anos (Trump tem 69, Clinton 67, Sanders 74) ,e sempre trabalhou para o governo. Sente que agora está pronto para liderar os EUA no mundo. Apesar das suas credenciais, não consegue ultrapassar o carismático Trump. Um dia ouvi dizer isto de um votante sem partido: “Ted Cruz é o candidato que tem o carisma de uma planta de casa.” Cruz é visto como um candidato regional e não cria empatia com os eleitores. Ele não tem o mesmo appeal de Obama (ou até mesmo de Trump). O outro republicano na corrida, John Kasich tem pouco que se lhe diga a não ser isto: há um ano se tivessem dado a escolher aos Democratas o melhor do trio Trump-Cruz-Kasich, eu aposto que  teriam dito que preferiam Cruz ou Trump porque Kasich é o mais conservador e tinha ideias aterradoras para os ouvidos dos Democratas. Mas, hoje, Kasich, que na altura era a ovelha negra dos Republicanos, aos olhos dos Republicanos e Democratas é um ‘cool kid’, na verdade o mais ‘normal’ do trio republicano liderado por Trump.

A América vai ter Clinton vs Trump. A melhor coisa que vai sair deste circo da corrida à Presidência é uma das melhores coisa que a América tem: a habilidade de reagir e se transformar. Portanto, se alguém tem ideias melhores, se um terceiro partido está a pensar em vir ao de cima, agora é o momento. Nós, Americanos e estrangeiros, que contribuímos para o fabrico social e pagamos impostos neste país, precisamos de um candidato que una o país e que desenvolva uma agenda que sirva os seus cidadãos e não interesses pessoais. Será que este bando de candidatos serve? Talvez sim, talvez não. Mas eu tenho esperança que haja pelo menos um que nos leve nessa direcção de forma a que as pessoas e lideres possam estar alinhados para o mesmo objectivo.

Nota da autora: Vivo nos EUA há 9 anos. Vi Obama ser eleito quando vivia em Minneapolis, MN. Enquanto o mundo celebrava o primeiro presidente afro americano eu vi os mais conservadores a tirarem a bandeira nacional da janela. O mundo mudou nesse dia. Só daqui a 30 anos vamos saber ao certo os efeito das políticas do Presidente Barack Obama, como por exemplo a nova relação com Cuba, Obamacare, etc. Em Washington DC conheci Donald Trump. Falei com ele em 2011 e dei lhe um aperto de mão. Achei-o simpático. O meu trabalho permite-me conhecer pessoas de todos os níveis. Sei explicar muito pouco das eleições Portuguesas aos Americanos, mas adoro falar das eleições Americanas. Esta é a minha altura favorita do ciclo eleitoral. Este texto representa o ponto de vista de vários Americanos contada por uma alma lusa que aos poucos e poucos se americanizou.