Fogo Cruzado

“Hillary Clinton é a mais capaz de dar conta do recado”

O político luso-americano Daniel da Ponte, membro do Senado de Rhode Island, não tem dúvidas de que Hillary Clinton é a melhor candidata do Partido Democrata para as eleições presidenciais de 2016

Esteve em Portugal nos dias 21 e 22 de Abril de 2016, no âmbito do “Luso-American Legislators’ Dialogue”, uma iniciativa organizada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento que juntou – à mesma mesa – políticos e legisladores dos EUA e de Portugal. E concedeu uma entrevista à SÁBADO, a poucos dias da realização de eleições primárias no seu Estado-natal de Rhode Island, a 26 de Abril. “Julgo que vai ganhar Hillary Clinton”, previu então Daniel da Ponte. Mas acabou por ganhar Bernie Sanders, com 55% dos votos. Apesar da aposta falhada, Ponte tinha ressalvado que “a diferença não é grande, porque nós também temos uma percentagem da população que é mais jovem, mais progressista, mais liberal, que simpatiza com muitas das posições políticas de Sanders.” Descendente de açorianos das ilhas de São Miguel e Santa Maria, Ponte nasceu em Providence, no Estado de Rhode Island, em 1978. É membro do Senado de Rhode Island desde 1999, militante do Partido Democrata e apoiante convicto de Clinton nas eleições primárias em curso.

A comunidade luso-americana tem algum candidato favorito, democrata ou republicano, nas eleições primárias em curso? Identifica alguma tendência maioritária de apoio?
Depende de onde vivem. Além de nós termos uma comunidade bastante grande, também é uma comunidade muito diversificada. Uma parte mais conservadora, mais empresarial, claro que é republicana e pode até não gostar do Donald Trump, mas até certo ponto simpatiza com certas posições e políticas que ele defende. Por outro lado, há aqueles da classe média, aqueles que emigraram para os Estados Unidos numa altura em que a política era muito mais liberal, que serão eternamente apoiantes do Partido Democrata, independentemente de quem for o candidato presidencial. Portanto, acho que há diferentes opiniões.

Entre os apoiantes democratas, há uma maior preferência por Hillary Clinton ou por Bernie Sanders?
Se eu tivesse que adivinhar, algo que não deveríamos fazer como políticos, aquilo que eu tenho ouvido é que o Bill Clinton foi um bom presidente dos EUA, foram anos bons em termos económicos, apesar das circunstâncias políticas muito difíceis e complicadas. Foi um bom presidente e, se ele vai ser o “primeiro-homem” [risos]… De certeza que, de alguma forma, vai ter alguma influência na política doméstica e também na política externa. É isso que eu tenho ouvido, com maior insistência, da parte de luso-americanos.

Por que razão é que os eleitores mais jovens se sentem atraídos pelas ideias políticas de Sanders, como tem sido indicado em diversas sondagens?
Eu acho que muitos desses jovens cresceram numa altura em que foram vítimas dos efeitos de um mal que é denunciado por Sanders, o que ele critica no sistema económico e financeiro. Muitos dos seus apoiantes jovens viveram sob os efeitos desse mal. Os bancos que causaram a crise financeira mas continuam a ganhar dinheiro, as casas de investimento que não estão a redistribuir os lucros e a fomentar o crescimento, como podiam e deviam, são os tais “um por cento” que ganha cada vez mais. A divergência entre aqueles que têm e aqueles que não têm é cada vez maior. E eu acho que a maior parte dos “millennials”, aqueles que são formados, muitos deles com dívidas resultantes dos estudos, acho que eles apoiam o Sanders porque sentem empatia, porque o Sanders denuncia o facto de eles não terem beneficiado da recente tendência de recuperação económica, por exemplo. Sentem-se marginalizados. Não participaram na recuperação económica e continuam a sofrer com o desemprego e a precariedade. Na perspectiva deles, até pode ter corrido bem nos últimos anos, mas para eles não.

Poderá estar a gerar-se uma viragem à esquerda das novas gerações, ou trata-se de algo transitório?
Eu considero-me uma pessoa moderada, mas penso que há certas partes do nosso sistema que não estão bem, há certos desequilíbrios. E acho que nós temos que, independentemente das idades, de sermos “millennials” ou “baby boomers”, temos que nos consciencializar de que estamos a pagar facturas de há 30 ou 40 anos. Os sistemas de reformas, as nossas infra-estruturas públicas que estão a precisar de bastante investimento. Temos que ter isso em atenção nas decisões políticas que tomamos, em termos financeiros, nos orçamentos. Mas infelizmente, quem está agora a trabalhar, a contribuir através dos seus impostos, através daquilo que contribui para o sistema, a factura está na nossa caixa de correio.

Essa necessidade de investir nas infra-estruturas e relançar a economia através do investimento, há algum candidato que tenha melhores condições para realizar essa tarefa e que assuma essa prioridade?
Estamos numa situação em que isso é uma realidade e precisa de atenção, o investimento nas infra-estruturas, mas, por outro lado, nós não podemos deixar de prestar atenção, também, a algumas preocupações com origem no exterior, os riscos externos. A questão do terrorismo, da segurança cibernética, da posição que os Estados Unidos assumem ao nível político e económico, tal como a sua apreciação global, como somos vistos lá fora. Eu acho que, de todos os candidatos, talvez a pessoa que tem mais experiência e que também poderá fazer-se rodear de uma equipa competente, essa pessoa é a Hillary Clinton. É a mais capaz de dar conta do recado.

Considera que as questões de política externa e segurança nacional são mais prioritárias do que o investimento nas infra-estruturas?
Esse investimento é importantíssimo, não se trata de trocar uma coisa pela outra. Mas acho que é preciso alguém que tenha a capacidade e o fundamento histórico, que pode reunir todas essas forças e analisar todas essas condições, uma pessoa que tenha o “total package”, o pacote completo de competências, como nós dizemos em inglês. Acho que Hillary Clinton é essa pessoa. Tem a experiência própria e também a capacidade de reunir os talentos que vão ser necessários para resolver esses problemas.

Clinton que foi secretária de Estado na primeira Administração liderada por Barack Obama. Faz um balanço positivo da condução da política externa norte-americana durante esse período?
Sim. Certas posições e certas situações, se ela tivesse a palavra final a dizer, talvez alguma coisa tivesse sido diferente. Mas acho que a experiência que ela teve como secretária de Estado, em termos de diplomacia, de ter um ponto de vista muito próximo dos acontecimentos e das decisões políticas, de ter noção sobre os perigos e os riscos que existem, ao nível mundial, e como é que esses riscos poderão afectar os Estados Unidos e os nossos interesses. Sem dúvida que Clinton tem o maior nível de experiência. É a mais bem preparada para enfrentar esta realidade e o que poderá acontecer de novo.

Quanto às relações entre os EUA e Portugal, nomeadamente a futura utilização da Base Aérea das Lajes, considera que há algum candidato mais propenso, talvez, a aceitar as reivindicações dos açorianos?
Essa situação, o que tem acontecido, tem sido difícil, e os efeitos nos Açores claro que não têm sido nada fáceis. O que eu acho é que, depois de tudo isto ter chegado ao ponto onde chegou, a posição de Portugal e do próprio Governo Regional dos Açores deveria focar-se mais no sentido de entender os Açores no global, além da Base Aérea das Lajes, como uma localização super-estratégica e com um grande património: o mar. E portanto acho que tem que haver uma certa análise, bastante aprofundada, sobre como é que os Açores se podem posicionar como um local super-estratégico, que é, e como é que pode promover isso. Não só perante o Governo dos EUA, mas também empresas norte-americanas, empresas que estão à procura dos recursos e das condições que os Açores têm na totalidade.

Nesse sentido, a personalidade do novo presidente dos EUA será irrelevante?
Talvez. Sim e não. É irrelevante até ao ponto de acontecer qualquer coisa de que não estamos à espera, ao nível político, mesmo ao nível mundial, e aí a Base Aérea das Lajes já tem uma relevância completamente diferente da que tem, em termos militares. Uma relevância diferente da que o actual Governo norte-americano decidiu que tem. E as coisas podem mudar de um momento para o outro. Então aí os Açores e a Base Aérea das Lajes vão ter sempre um papel importantíssimo. Um presidente como Barack Obama que preferiu mais a diplomacia e não se envolver em termos militares, é diferente, por exemplo, de um presidente como George W. Bush. Claro que a personalidade do novo presidente pode afectar a futura utilização da Base Aérea das Lajes. Mas eu acho que os Açores têm que se promover com aquilo que de melhor têm para oferecer.