Nuno Garoupa

Professor universitário

Professor Catedrático de Direito na Universidade do Texas A&M e Investigador da Católica Global Law School, a sua área de investigação é Direito e Economia e Direito Comparado. Fez o doutoramento em Economia na Universidade de York.

Uma América frustrada

Com as primárias quase a fechar e a uns curtos meses das convenções partidárias, há ainda expectativa sobre quem será o candidato de quem. Clinton tem praticamente assegurada a nomeação democrata (tem já 2151 dos 2384 delegados que precisa) mas está por ver se consegue uma escolha para vice-presidente que assegure o entusiamo dos apoiantes de Sanders (com 1412 delegados). Mas a verdade é que Clinton teme mais os seus possíveis problemas com a justiça do que a concorrência.

Do lado republicano, Trump aproxima-se da meta (tem 956 dos 1237 delegados que precisa) mas pode ser barrado por uma coligação de Cruz (com 547 delegados) e Kasich (com 154 delegados) a que podem juntar-se os delegados de Rubio que desistiu (173 delegados). Contudo, uma escolha cozinhada pelo establishment do Partido Republicano à margem do voto popular provavelmente levaria à implosão do próprio partido com Cruz como candidato oficial e Trump a concorrer como independente. Nesse cenário, seria um passeio para Clinton como aliás aconteceu com o seu marido, em 1993, o Presidente eleito com a mais baixa percentagem de votos desde 1912 (apenas 43%) numa corrida a três (Bush pai com 37% e Perot com 19%).

A verdade é que ambos os partidos chegam a estas eleições em profundo coma. Os republicanos nunca recuperaram da guerra do Iraque, da crise do subprime de 2007, da derrota de McCain em 2008 a que se seguiu o conflito ideológico entre o velho GOP e o Tea Party (Cruz é o candidato deste grupo). O desaparecimento do republicanismo moderado (os chamados Rockfeller Republicans), os efeitos da política económica de Bush filho e Obama na classe média baixa, a incapacidade de encontrar uma solução para a questão delicada da imigração (onde Bush filho falhou e Obama desistiu), uma agenda de “temas fraturantes” e a frustração com a corrupção de Washington explicam a onda Trump, pragmática, realista e sem ideologia, do self-made-man que perdeu e recomeçou várias vezes, com um discurso anti-establishment que agrada a uma importante franja do eleitorado.

Do outro lado, temos os democratas prisioneiros da desilusão que foi Obama. A sua capacidade de manter a economia norte-americana longe do abismo europeu não parece compensar a ausência de reformas regulatórias em Wall Street, a incapacidade de mudar a corrupção e a promiscuidade de Washington, a inabilidade para reverter a política fiscal e social de Bush filho. Isso explica desde logo que não há candidato saído do grupo próximo de Obama. E também justifica que Clinton vence mas não convence, aliás pelas mesmas razões de 2008. Ela é a candidata de Wall Street e do establishment de Washington. Já Sanders é o candidato das franjas universitárias que anima mas não agrega (como foi Howard Dean em 2004).

A América está frustrada com os seus políticos. Obama prometeu e não cumpriu. O Tea Party não mudou o Partido Republicano. Simplesmente não há uma resposta moderada para a crise que se vive, não há uma sensação de mudança em Washington. Não há um projeto galvanizador como foi Obama em 2008. Trump e Sanders são sintomas do mesmo problema. Pode ganhar Clinton. Mas com um Congresso republicano será uma Presidente sem grande margem. E a frustração tenderá a aumentar. Até que algum Trump um dia possa ganhar.