Made in America

A senhora é uma Trump, diz a canção

Ela é uma antiga modelo que posou nua em cima de um tapete de peles e dá entrevistas sentada num trono dourado. Mas Melania é também a mulher que convenceu Donald Trump a candidatar-se à Casa Branca

O centro de Manhattan estende-se aos pés de Melania, com o Central Park visível, ainda que minúsculo, a partir da sua cobertura dourada em Nova Iorque.

Um dia antes, Donald Trump, seu marido, arrebatara sete estados nas primárias para a corrida presidencial, consolidando a sua posição de favorito para a nomeação como candidato Republicano à Casa Branca e mergulhando as luminárias do partido num pânico cego. Trump conseguira dominar o conservador “Cinturão Bíblico” do Sul profundo – um feito surpreendente para um bilionário sibarítico, divorciado duas vezes, que nunca ocupou um cargo público e admitiu jamais pedir perdão a Deus. A antiga estrela da reality TV tinha ganho na moderada Nova Inglaterra. Trump, como me confidenciou um perplexo especialista em ciências políticas, “quebrara as leis da física que regem o universo da política”.

Melania, a esposa de 45 anos com quem casara há 11, dava agora uma entrevista televisiva a partir da Meca da Trumplândia – o apartamento do casal em Manhattan. A mansão ocupa os três pisos superiores da Trump Tower, edifício com 68 andares na Quinta Avenida. Tem uma galeria de espelhos inspirada em Versalhes, uma fonte de mármore, pavimentos em ónix bege e tetos pintados à mão com frescos ao estilo de Michelangelo. (“O mesmo decorador de interiores do Saddam Hussein”, comentou em tom jocoso o “Saturday Night Live”.) Melania, com um vestidinho simples em tom rosa-salmão, parece estar sentada num trono de ouro.

As primeiras fotografias da sua carreira de modelo, da altura em que ainda vivia na ex-Jugoslávia, mostram uma jovem de 17 anos senhora de uma beleza pouco convencional – de cabelos escuros, tez pálida, sobrancelhas selvagens e sorriso travesso. Ao longo dos anos, no entanto, os Trumps começaram a parecer-se um com o outro. Os cabelos de Melania são agora mais claros e exibe um bronzeado falso que complementa o do marido. Os seus olhos semicerram-se frequentemente numa espécie de franzir intenso e enviesado e, em cima dos Manolo Blahniks que calça, o seu metro e setenta e sete de altura transforma-se em mais de um metro e oitenta. E, vá-se lá saber como, Melania e Donald desenvolveram a mesma estranha carranca rígida e amuada.

Um trejeito que se torna visível enquanto Melania pondera as questões que lhe são colocadas. Qual era o segredo do sucesso do marido? “Ele não é parte de Washington. Ele diz o que pensa. Ele não varre as coisas para debaixo do tapete”, responde, num sotaque da Europa de Leste de que o The New York Times disse certa vez ser “capaz de transformar ovos mexidos em caviar”.

Onde estava ela enquanto se contavam os votos das primárias? “Estava aqui em Nova Iorque, com o filho Barron,” responde, referindo-se ao filho de nove anos do casal.

Porque se candidatava o marido a presidente? Não tinha ele já tudo o que um homem podia desejar? “É um ato altruísta fazer isso. Porque ele podia muito simplesmente dizer, ‘Olhem, eu fico bem. A minha família vai ficar bem. Não me importo com a América.’ Mas ele não é assim. Ele vê o potencial que a América tem e quer ajudar. Quer pegar na cabeça dele, quer pegar nisso e pô-lo para povo Americano.”

Durante vários meses, Melania foi um parceiro silencioso na campanha do marido. Frank Luntz, um especialista em sondagens à opinião pública do Partido Republicano, disse ao The New York Times, em Setembro, que uma das razões para a antiga pin-up permanecer na sombra era o facto de “os Republicanos terem uma visão tradicional do casamento. E ela não é uma esposa tradicional”.

Contudo, com o passar dos meses, foi-se tornando cada vez mais evidente que os Republicanos não estão com vontade de apoiar um candidato tradicional – e a Sra. Trump emergiu para as luzes da ribalta, migrando das páginas da People saturadas de membros do clã Kardashian para as águas de matizes intensamente políticos dos noticiários dos canais de TV por cabo.

A primeira vez que alguém a ouviu pronunciar-se durante a campanha foi no verdadeiro campo de batalha da Carolina do Sul, em Novembro, cinco meses após o marido anunciar a sua candidatura. Ouviram-se-lhe 16 palavras. “Boa noite. Ele não é o máximo? Vai ser o melhor presidente de sempre. Nós adoramos-vos.”

No entanto, Roger Stone, um estratega político veterano que durante anos foi o confidente mais próximo de Trump em matéria política, diz que Melania desempenhou um papel fundamental na decisão de o marido se candidatar à presidência – uma ideia que o bilionário namorava há décadas. (Stone afirmou, igualmente, que nada agradava mais aos Trumps que passar a noite em casa a ver TV.) Para os Trumpologistas, a entrevista que Melania concedeu, sentada no seu trono na Trump Tower, indiciava uma falta de confiança nova. Ela dava conselhos ao marido sobre a campanha? “É claro. Nós conversamos muito.”

Daria ela uma boa primeira-dama? “Sim, é claro- sou perfecionista. Gosto de fazer as coisas perfeito.”

Como é óbvio, a grande questão, a interrogação primordial ficou sem resposta – poderia Melania Trump vir, realmente, a tornar-se a primeira primeira-dama que posou nua para a GQ britânica?

A única primeira-dama dos EUA nascida no estrangeiro foi uma britânica – Louisa Adams, esposa de John Quincy Adams, que foi presidente entre 1825 e 1829. Se Trump sair vitorioso, a próxima será originária de Novo Mesto, uma pequena localidade na ex-Jugoslávia. O pai de Melania estava bem na vida e geria concessionários automóveis. A mãe ou era estilista ou era costureira (os relatos divergem). Melania teve uma infância confortável – praticou ginástica, esquiou em Itália e aprendeu quatro línguas. A partir dos cinco anos, começou a trabalhar como modelo. “Claro, eu sempre adorei a moda – e era sempre a mais alta e a mais magra, o que ajudou”, declarou recentemente à Harper’s Bazaar.

Estudou Arquitetura na Universidade de Ljubljana, na Eslovénia, mas aos 18 anos assinou contrato com uma agência de modelos de Milão. “A Melania era uma rapariga muito sossegada e muito esguia, que parecia não ter grandes aspirações de se tornar modelo”, afirmou Stane Jerko, o fotógrafo que a descobriu em 1987. “Pareceu-me mais um rato de biblioteca”, disse ao New York Post.

Apareceu na edição de fatos de banho da Sports Illustrated, na Vanity Fair e na capa da Vogue. Apesar de nunca se ter tornado verdadeiramente uma “supermodelo”, posou para Helmut Newton e Mario Testino. Em 1996, mudou-se para Nova Iorque.

E foi aí que, em novembro de 1998, numa festa da New York Fashion Week dada por Paolo Zampolli, empresário italiano e fundador da agência de gestão de modelos ID Models, Melania conheceu o homem a que chamam “the Donald”.

O casal Trump na passadeira vermelha do Metropolitan Museum of Art Costume Institute, em Nova Iorque, em Maio de 2011

O casal Trump na passadeira vermelha do Metropolitan Museum of Art Costume Institute, em Nova Iorque, em Maio de 2011

É difícil de acreditar que a reputação de Trump não o precedesse. Quando Melania conheceu o mais efervescente magnata de Gotham, este divorciara-se já duas vezes e as suas aventuras românticas haviam feito a fortuna dos agradecidos tabloides nova-iorquinos durante anos. Ivana, a sua primeira mulher, também era uma modelo oriunda da Europa de Leste, que integrou igualmente a equipa júnior de esqui da Checoslováquia. Donald e Ivana conheceram-se em 1976 em Nova Iorque, no restaurante Maxwell Plum – estabelecimento lendário como local de engates –, quando a sua agência de modelos a enviou ali para promover os Jogos Olímpicos de Montreal.

Casaram-se em 1977 e tiveram três filhos: Donald Jr (nascido em 1977), Ivanka (1981) e Eric (1984). Ivana acabou a ajudar o marido a gerir o seu império e o casal tornou-se um símbolo dos excessos dos anos oitenta. “Numa década de ostentação, eles eram os mais ostentadores”, nas palavras da revista People. “Numa década de ganância, eram eles os mais gananciosos”. A decoração da cobertura da Trump Tower é parte do legado de Ivana – juntamente com uma série de anedotas extraordinárias.

Por exemplo, constou certa vez que Trump lhe dava um bónus de 250 mil dólares por cada filho que Ivana tinha dele. (“Quero ter cinco filhos, como os meus pais, porque, com cinco, sei que um há de ser como eu”, afirmou Trump a propósito, segundo declarações publicadas pela Vanity Fair.)

Houve também o episódio em que Ivana afirmou, num depoimento no âmbito do processo de divórcio do casal, que Trump a violara. O incidente alegadamente acontecera depois de uma visita de Trump ao cirurgião plástico da esposa, com o intuito de remover uma zona de calvície da cabeça. “A ***** do teu médico deu cabo disto tudo!”, ter-lhe-á Trump dito, aos berros.

Posteriormente, Ivana viria a alterar o seu relato – no ano passado, admitiu ter usado a palavra “violação”, mas afirmou, num comunicado, que se sentira apenas violada do ponto de vista emocional. “O Sr. Trump e eu tivemos relações conjugais em que ele se comportou para comigo de forma muito diferente do que era costume durante nosso casamento… O amor e a ternura que normalmente demonstrava para comigo estavam ausentes. Referi-me a este comportamento como uma “violação”, mas não desejo que as minhas palavras sejam interpretadas no sentido literal ou criminal.”

Ivana foi a primeira pessoa a chamar-lhe “the Donald” e acalentou sonhos de envelhecer a seu lado e ser aceite pela elite de Nova Iorque. “Dentro de 50 anos, o Donald e eu seremos considerados parte da aristocracia financeira, como os Vanderbilt”, disse certa vez a amigos. Mas o destino não quis assim. Ivana tornou-se uma estrela por direito próprio – o New York Post chamou-lhe “uma deusa dos media em pé de igualdade com a princesa Di, Madonna e Elizabeth Taylor” – e Donald não gostou. Ivana pensava que, na cabeça do marido, havia espaço para apenas uma celebridade.

Trump encetou um relacionamento com Marla Maples, uma antiga rainha de concursos de beleza de uma pequena cidade da Georgia (o estado norte-americano, não o país do leste europeu – embora isto possa parecer surpreendente). Em declarações ao New York Post, Marla viria a dizer que Donald era responsável “pelo melhor sexo que alguma vez tivera” – afirmação plasmada num título publicado dois anos antes de Trump se divorciar de Ivana.

Marla deu a Trump uma filha, Tiffany, nascida dois meses antes de uma deslumbrante cerimónia de casamento que teve lugar em dezembro, no Plaza Hotel de Nova Iorque. Mil convidados assistiram ao enlace. A noiva usou uma tiara de 2 milhões de dólares – cedida pela joalharia Harry Winston, o que lhe permitiu cumprir a tradição americana de usar “algo emprestado” – e um vestido de Carolina Herrera que, segunda consta, teria levado atrás de si de um lado para o outro durante meses, sempre que o casal viajava, para a eventualidade de Trump decidir casar-se com ela num impulso. “Se calhar é de mau-gosto dizer isto, mas dou-lhes quatro meses”, disse o locutor de rádio Howard Stern, um dos convidados do casamento.

Quatro anos depois, o casal separou-se. Durante todo este período, Donald empenhou-se seriamente no cultivo de uma determinada imagem pública. Por exemplo, a dada altura circulou o rumor de que saíra com Carla Bruni. Um repórter da revista People ligou para a Trump Organisation em busca de confirmação. O homem com quem o repórter falou, que disse chamar-se “John Miller”, respondeu que sim, que a história era verdadeira – acrescentando que “[O Sr. Trump] passa a vida a receber chamadas de mulheres lindíssimas e importantes”.

Nas palavras da People: “Foi uma entrevista fascinante, que se tornou ainda mais fascinante quando o repórter percebeu que o homem com quem estava a falar parecia ser… Donald Trump, a fingir ser um Relações Públicas inexistente”.

A terceira senhora Trump

Este foi, então, o Donald Trump que Melania conheceu: ela com 28 anos e ele pai de quatro filhos, 24 anos mais velho e recentemente separado de Marla Maples. “Ele queria que lhe desse o meu número, mas estava acompanhado por outra mulher, por isso é claro que não lhe dei nada”, disse Melania à Harper’s acerca do primeiro encontro dos dois.

“Disse-lhe, ‘Não lhe vou dar o meu número de telefone. Dê-me o seu e eu ligo-lhe.’ Queria ver que contacto ele me ia dar – se fosse um número comercial, que era aquilo? Não vou fazer negócios contigo.”

Mas sendo Donald “the Donald”, deu-lhe todos os seus números de telefone – “do escritório, de Mar-a-Lago [o seu clube na Florida], da sua casa em Nova Iorque, de tudo” – dizendo-lhe que lhe ligasse.

“Achei a sua energia impressionante,” explica Melania. “Ele tem uma vitalidade espantosa.”

No ano 2000, Melania posou vestida com um biquíni vermelho em cima de um tapete de pele de urso para a extinta revista Talk. O tapete exibia o Grande Selo dos Estados Unidos. Tratava-se de um adereço no que era suposto ser uma paródia da Sala Oval. Na política, a primeira tarefa é sempre “desempenhar um papel”, disse Melania na altura. Porque a política é, essencialmente, “um negócio”.

Segundo Charlotte Hays, autora do livro The Fortune Hunters [“As caçadoras de fortunas”], Melania adotou uma postura semelhante no que se refere ao amor. Donald “tinha feito a jogada inicial, mas coube-lhe a ela exercitar a arte de fechar o negócio. Foi precisa determinação. Foi preciso não se deixar desencorajar pela alegada infidelidade de Trump ou os relatos burlescos que dele publicavam os tabloides… e foi preciso pô-lo a ele em primeiro lugar”.

Donald Trump holds a replica of his star on the Hollywood Walk of Fame as his wife Melania holds their son Barron in Los Angeles, January 16, 2007. REUTERS/Chris Pizzello (UNITED STATES) - RTR1L9PT

Donald Trump segura uma réplica da sua estrela no passeio da fama de Hollywood, com Melania e o filho Barron

Ao fim de seis anos, a sua dedicação trouxe recompensas – Donald pediu-a em casamento. (Oferecendo-lhe um anel de 13 quilates, que, fique-se a saber, conseguiu comprar por uma pechincha depois de concordar que o joalheiro Graff aparecesse no seu reality show “The Apprentice”.) A terceira Sra. Trump casou com the Donald em 2005 na Igreja Episcopal de Palm Beach, na Flórida, sendo a cerimónia seguida por uma recepção numa das estâncias de férias de Trump, o Mar-a-Lago Club.

Melania usou um vestido de alta-costura de Christian Dior no valor de 100 mil dólares, que, segundo os relatos, demorou 1000 horas a fazer. O artista convidado foi Billy Joel, que reescreveu a letra da canção The Lady Is a Tramp de propósito para o casal. Entre os convidados da cerimónia encontravam-se Simon Cowell, P Diddy, Heidi Klum, Shaquille O’Neal – e Hillary Clinton. Bill Clinton esteve presente na receção. “Bill e Hillary Clinton foram lá para fazer o que costumam fazer para se divertirem nos tempos livre: angariar dinheiro”, escreveu mais tarde Tina Brown no Washington Post.

Brown, à semelhança de Hays, viu uma dinâmica comercial na base da relação que unia os Trumps: “Por baixo do seu aspeto fabuloso e de todo o seu esplendor, a base do poder de permanência de Melania Knauss na vida dele assenta num astuto entendimento do seu papel quase comercial”, escreveu Brown. “Intuímos que ela não vai cometer o erro de Ivana de competir com a marca Trump. Mas, ao contrário da segunda esposa, Marla Maples, ela também sabe a diferença entre ser um mero troféu e alguém que contribui para a melhoria de um produto, para o levar para uma categoria superior. Citando um dos seus amigos, ‘Para a Melania, a questão nunca se coloca em termos de perguntar a the Donald o que ele pode fazer por ela – mas, antes, de perguntar o que ela pode fazer por the Donald’.”

O casal assinou um acordo pré-nupcial: “E o fantástico é que ela concorda. Ela sabe que eu preciso de ter um acordo”, declarou Donald, sempre romântico, a Liz Smith, colunista de mexericos de Nova Iorque.

A seguir ao casamento, Melania apareceu na capa da Vogue com o seu vestido de conto de fadas. Voltaria a figurar na mesma revista um ano depois, já grávida de sete meses, posando com um biquíni dourado nos degraus do jato particular do marido. “A mamã sexy Melania pronta para levantar voo…” dizia o título. Não muito depois, posaria para outra revista com o filho, empurrando o que parecia ser um carrinho de bebé banhado a ouro. Finalmente, Donald tinha os seus cinco filhos – embora não fosse um pai que se envolvesse muito nos cuidados do filho. Ele e Barron “jogavam golfe, passavam algum tempo juntos, jantavam juntos e os três passavam tempo em família”, afirmou Melania à Parenting.com quando o filho tinha seis anos.

“Ele nunca lhe mudou as fraldas, mas para mim está tudo bem. Não é importante para mim. O importante é o que funciona para cada um. É muito importante conhecer a pessoa com quem estamos. E nós sabemos quais os nossos papéis. Eu não queria que ele mudasse as fraldas ao Barron ou o fosse deitar. Adoro fazer tudo isso.”

Noutra entrevista, explicou como costumava chamar ao filho “Mini-Donald”. Barron era, segundo explicou à CNN quando o filho tinha cinco anos, uma criança precoce. “Ele manda em toda a gente”, disse. “Ele já despediu amas, já despediu governantas. E é muito giro, sabe?”

O seu sítio Internet descreve como Melania trabalhou para se integrar na sociedade nova-iorquina. “A diversificação cultural da cidade de Nova Iorque permitiu à beldade de olhos azuis-esverdeados florescer, devido à sua paixão e inclinação para as artes, a arquitetura, o design, a moda e a beleza”, diz. “Esta paixão é apenas ultrapassada pelo seu empenho em ajudar os outros e a sua generosidade tem-se feito notar,” acrescenta o texto, antes de começar a desfiar desempenhos em organizações de caridade, incluindo o Boy’s Club of New York e a Police Athletic League.

Em 2010, Melania começou a vender joias no QVC, um canal de televendas. Numa das ocasiões, aparecia sentada num sofá de cetim no seu apartamento na Trump Tower: “Cada peça me representa e cada peça tem uma história da minha vida.” A seguir, a imagem mudou para planos de Melania em casa, um ninho de ouro e mármore.

A sua conta no Twitter abria-nos uma janelinha sobre a sua vida – fotos de Melania nas compras, paisagens capturadas da janela do jato do marido, instantâneos da parte de baixo dos seus biquínis. Em maio passado, publicou uma foto sua onde tinha um ar bastante severo, um pouco afetado, e extremamente rico. Estava vestida com calças brancas e blazer azul-marinho, de pé, no que parecia ser uma casa de banho de ouro. Assemelhava-se a uma vilã dos “Anjos de Charlie”.

“Adeus!”, dizia a mensagem. “Vou partir para a minha #residência de verão #no campo #fim de semana.” Era impossível perceber se se estava ou não a rir de si mesma.

Uma primeira dama diferente

O papel de primeira-dama tem evoluído. Eleanor Roosevelt era uma ativista; diz-se que Ronald Reagan dormia tão profundamente, porque Nancy se preocupava com as coisas por ele. A campanha de Bill Clinton assentou na premissa de que os americanos iriam receber “dois pelo preço de um” – pois a esposa era igualmente qualificada. Michelle Obama trouxe consigo o seu próprio sentido de igualdade: quando conheceu o marido, num escritório de advocacia de Chicago, era sua chefe.

Melania sugeriu que seria uma primeira-dama mais ao estilo da glamorosa Jackie Kennedy. “Seria muito tradicional”, afirmou ao The New York Times em 1999. O tópico principal do artigo, contudo, foi o facto de, pouco antes, ter dado uma entrevista radiofónica em que esteve a maior parte do tempo nua, enquanto Donald se vangloriava da vida sexual do casal.

Se a maioria dos americanos acharia Melania muito ou pouco tradicional é uma questão em aberto. Muito do sucesso político do seu marido vem da capacidade de Trump explorar as neuroses dos americanos brancos da classe operária. Os seus eleitores veem-no como um homem fantasticamente bem-sucedido – mas, fundamental e paradoxalmente, também como um deles.

O casal Trump posa para a fotografia no Metropolitan Museum of Art Costume

A sua casa de Nova Iorque pode ter uma imitação da Galeria dos Espelhos de Versalhes, mas Donald come fast food. Na visão de uma fatia considerável do eleitorado, o favorito à nomeação Republicana que veste fatos Brioni é alguém que “fala com franqueza”. O dom de Melania é que ela não tem a pretensão de ter este charme do homem comum. A sua ideia de “necessidades básicas” não é a do resto do mundo. “Não tenho ama. Tenho um chef e tenho um assistente, e é tudo.”

“Faço eu as coisas”, diz. Os apoiantes de Trump com quem falei sobre ela nos seus comícios quase sempre concordam, porém, que Melania traria à Casa Branca um elemento de “elegância”.

Melania usa um anel com um diamante de 25 quilates – um presente do marido por ocasião do seu décimo aniversário de casamento. Já posou nua (sobre um tapete de peles branco, no interior de um jato particular) para uma sessão fotográfica. No entanto, alguns conseguiram ver nela uma futura estadista. “Falar com a Sra. Knauss é como falar com uma bolha enorme e cintilante. Ela é leve, ela é divertida, é maravilhoso olhar para ela; duas horas depois, vimos embora e a conversa desaparece no ar. Pop! Se algo de substancial foi dito, é difícil recordar”, afirmou um jornal americano. “Por outras palavras, é possível que ela seja a esposa perfeita para um político.”

No entanto, em julho passado, quando o marido anunciou sua candidatura, Melania desapareceu do mapa – deixando de twitar fotos dos seus biquínis. Em janeiro, explicou que estava a manter-se longe da contenda política. “Por causa do quem o meu marido é, e da nossa vida, e também ele é o número um nas sondagens – bem, somando isto tudo, as pessoas são muito curiosas em relação a mim”, disse à Harper’s.

“Estou a optar por não assumir uma posição política em público, porque isso é o trabalho do meu marido”, disse. “Na vida privada sou muito política, e entre mim e o meu marido sei tudo o que se passa. Acompanho tudo, mas optei por não estar presente na campanha. Fiz essa escolha. Penso pela minha própria cabeça. Sou uma pessoa por direito próprio e acho que o meu marido gosta disso em mim.”

No entanto, se alguma vez sucede discordar de Donald, não o demonstra. O marido diz que vai deportar 11 milhões de imigrantes indocumentados e obrigar o México a construir um muro ao longo da fronteira sul dos EUA. Melania declarou que, por ela, está tudo bem: se seguiu as regras quando emigrou para os EUA, não devem os outros fazer o mesmo?

Pronunciou-se bem menos sobre a série obsessiva de ataques que Donald lançou a Megyn Kelly, jornalista da Fox News, em relação a quem Trump sugeriu que só lhe colocava questões difíceis sobre a sua misoginia por estar menstruada. O que vem mostrar que, em certo sentido, Melania é a arquetípica esposa política americana: fiel até o fim. “Ele não é politicamente correto e diz a verdade”, afirmou na sua entrevista na Trump Tower.

Ouvimos as mesmas palavras aos fãs que o idolatram e aparecem para assistir aos seus comícios estridentes – mas não é a eles que the Donald ouve.

Foi Melania quem disse a Trump que tinha de se candidatar, afirma ela. E, a acreditarmos nas suas palavras, foi praticamente a única pessoa nos Estados Unidos que previu que Trump poderia ser bem-sucedido.

“As pessoas diziam que ele não seria o candidato acertado, e as sondagens não eram como são agora. Ele não ia a lado nenhum… E eu disse, “Depois de fazeres o anúncio, vais ver, [a candidatura] vai subir como um foguetão. Vai ser inacreditável.’”