Fogo Cruzado

“Clinton é a única pronta para ser comandante”

Descendente de imigrantes portugueses nos EUA, Marc R. Pacheco, considera que Hillary é a candidata mais qualificada e experiente. Mas ressalva que "não será fácil" vencer as eleições presidenciais

Marc R. Pacheco, nascido em 1952, descendente de imigrantes portugueses (oriundos da Beira Interior, uma região “lindíssima” que Pacheco costuma revisitar quando vem a Portugal) nos EUA, é membro do Senado de Massachusetts desde 1993, pelo Partido Democrata, em representação do primeiro distrito de Plymouth e Bristol, onde se situa a sua cidade-natal de Taunton. Entre 1989 e 1993 já tinha exercido funções na Câmara dos Representantes do Estado de Massachusetts. Formado em Agronomia e em Administração Pública, dedicou-se à actividade política desde muito cedo, sobretudo ao nível do associativismo escolar. Serviu como assessor do “mayor” de Taunton entre 1982 e 1988 e a partir daí enveredou por uma carreira política consistente ao nível estadual. Voltou a passar por Portugal nos dias 21 e 22 de Abril, para participar nos trabalhos do “Luso-American Legislators’ Dialogue”, uma iniciativa organizada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Em entrevista à SÁBADO não escondeu a profunda admiração por Hillary Clinton que diz esperar que venha a ser a primeira mulher a assumir a presidência dos EUA.

É um apoiante convicto de Hillary Clinton, acha que a ex-secretária de Estado vencerá facilmente a eleição geral?
O eleitorado americano está dividido, em todo o país, bastante dividido, portanto não será fácil. Tenho colegas democratas que dizem que não vai haver problema, de todo, mas não julgo que vá ser assim…

As sondagens indicam uma vantagem confortável para Clinton na eleição geral, contra qualquer candidato.
Sim, isso é o que as sondagens indicam neste momento. Mas já vimos sondagens falharem anteriormente e há uma coisa sobre Clinton que eu sei com toda a certeza: ela não vai olhar para essas sondagens. Aliás, ela vai olhar para elas, mas não as vai tomar como garantidas. Vai trabalhar arduamente para conquistar cada voto individual na América. Essa é a sua personalidade. É uma trabalhadora. Vai levantar-se todas as manhãs e lutar o mais duramente possível, fazer campanha, fazer chegar a sua mensagem ao povo americano. Porque, vamos enfrentá-lo, nunca tivemos uma mulher eleita presidente dos EUA em toda a nossa História.

Considera que esse é um factor importante?
Penso que é importante, muito importante. Um novo líder da América, que é uma mulher, irá olhar para as mesmas questões de uma maneira um pouco diferente.

Diria o mesmo se se tratasse de Sarah Palin, por exemplo?
Bem, eu estou a falar de uma mulher qualificada. Esta mulher em particular de que eu estou a falar é a Hillary Clinton.

Que terá qualidades e competências políticas independentemente de ser ou não mulher… Mas esse simbolismo de poder vir a ser a primeira mulher a assumir a presidência dos EUA, trata-se de algo importante, na sua perspectiva?
Sim, sim. Acho que é importante, mas não apenas por ser uma mulher. Porque ela é a candidata mais qualificada, na corrida à presidência. E se não for Hillary Clinton, neste ciclo eleitoral, com as qualificações que ela tem, com a experiência que ela traz para cima da mesa, com o número de líderes mundiais com quem ela pode falar directamente ao telefone, e não seria a primeira vez que fala com eles, é esse o tipo de experiência de que precisamos, neste momento, para um novo líder dos EUA. Precisamos de alguém que, desde o primeiro dia, quando entrar na Casa Branca, já saiba muito sobre as funções que vai desempenhar. E ela é a única candidata, que está a concorrer agora, em ambos os partidos, que tem essa experiência e essa habilidade para estar pronta para ser comandante suprema logo no primeiro dia em funções. É por isso que eu a apoiei tanto. Também a conheço pessoalmente, essa é outra razão, quer dizer, lidei com ela, vi a sua tremenda força e também o seu grande sentido de humor. As pessoas não vêem isso a toda a hora, mas ela tem um grande sentido de humor, de vez em quando faz auto-ironia, é uma amiga fantástica e leal. E acho que são essas forças e qualidades que a comunidade luso-americana, em particular, respeita. Trabalho árduo, ética de trabalho, alguém que é leal. Por isso acho que ela será a primeira mulher a vencer a nomeação de um partido nacional, porque ela é qualificada. Mas isso é significativo, difunde uma mensagem diferente. Não apenas para a América, mas para todo o mundo. Há tantos países do mundo que precisam de ter um líder que enfrente as questões que afectam as mulheres em todo o mundo. Ela esteve lá, viu esses problemas, lidou com eles, e acho que será uma líder moral, também, nessas questões.

Há algum candidato, democrata ou republicano, que tenha maior popularidade entre a comunidade luso-americana?
Bem, a Hillary Clinton é alguém que eu conheço pessoalmente, trabalhei com ela e com o marido, o presidente Bill Clinton, durante vários anos, desde há tanto tempo como 1991. Eu sei que Hillary Clinton, como secretária de Estado, trabalhou muito proximamente com o Governo português ao longo dos anos. Ela esteve envolvida com outras áreas do mundo, com as comunidades lusófonas, em todo o mundo. E é alguém que não é pouco familiar entre a população luso-americana.

Mas é a mais popular?
Entre todos os candidatos que estão a concorrer à presidência, foi ela que obteve mais votos, em geral. E penso que como percentagem da população, a comunidade lusófona, luso-americana, certamente que é apenas um segmento de todo o voto nacional. Mas Clinton obteve mais votos, na votação popular nacional, do que qualquer outro candidato à presidência, democrata ou republicano. E nas eleições primárias do Partido Democrata ela está milhões de votos à frente do oponente. Por isso, na minha opinião, e eu represento uma larga percentagem da população luso-americana, em determinados sítios de Massachusetts, onde há grandes percentagens de luso-americanos que aí residem e votam, no sudeste do Massachusetts, ela teve números muito bons, ganhou muitos votos nesses sítios. Isto não é dizer que Bernie Sanders não teve também votos aí, certamente que teve, foi uma corrida renhida. Mas eu acho que as pessoas que estão a ouvir os discursos dos candidatos, as pessoas que estão a prestar atenção, optam por apoiar um candidato que compreenda as preocupações e os problemas ao nível mundial. Os eleitores luso-americanos compreendem isso. Não estão apenas à procura de serem isolacionistas. Os eleitores luso-americanos com os quais lidei, contactei, em diversos momentos, são mais abertos ao mundo.

Está a sugerir que Bernie Sanders é um candidato que defende o isolacionismo dos EUA, em contraste com Hillary Clinton?
Não digo que seja um candidato pró-isolacionismo, per se, mas ele tem algumas perspectivas muito, muito diferentes, ao nível do que é necessário fazer para garantir o triunfo na eleição geral. Mas, no final do processo, o candidato democrata vai ter que derrotar o candidato republicano, para tornar-se presidente dos EUA. Eu, francamente, estou muito preocupado com uma eventual presidência de Trump, ou uma presidência de Cruz. Acho que eles seriam muito radicais. Não seria bom para as relações internacionais, em geral. Penso que essas duas campanhas estão a desenvolver-se primordialmente com base no medo.

Coloca Sanders no mesmo patamar de Trump e Cruz? Também teme uma presidência de Sanders?
Não, não coloco. Não penso que Clinton esteja nesse patamar, ela é uma candidata que conhece muito melhor o mundo, viajou por todo o mundo, ela sabe a importância da diplomacia, ela sabe a importância da cooperação, e ela sabe a importância de defender a sua posição, também, quando é necessário.

Clinton tem a experiência acumulada nas funções de Secretária de Estado…
Ela tem a experiência e eu acredito que ela é a candidata mais qualificada para ser comandante suprema. Acho que Bernie Sanders, embora seja muito popular entre um certo segmento de eleitores americanos, em particular os “millennials”, ele tem gerado muitos novos apoiantes, e ao ler a imprensa americana repara-se em todo o impulso, em todo o apoio, mas isso não se traduziu realmente em votos. Tem havido estados onde se realizam “caucus”, muitos desses estados, em que a campanha de Sanders tem tido sucesso. Mas ele não representa a população geral, o eleitor americano diversificado. Em sítios grandes como no Estado de Nova Iorque, quando se olha para regiões do país no Sul, quando se olha para as populações no Oeste. Clinton ganhou no Norte, no Sul, no Leste, no Oeste, ao longo de todo o território dos EUA, e ela já recolheu, até agora, julgo que 10 milhões de votos. Enquanto Sanders tem pouco mais de seis milhões de votos, ou próximo de sete milhões, por isso são pelo menos três milhões de diferença. Julgo que a próxima semana vai ser boa para Clinton. Pode não ser 100% vitoriosa, mas é a favorita nos estados grandes como a Pensilvânia, onde há uma força de trabalho diversificada, uma população diversificada, e em estados como o Connecticut, onde há uma significativa população de luso-americanos [Clinton viria a ganhar, de facto, as eleições primárias dos estados da Pensilvânia e do Connecticut, alguns dias mais tarde]. O meu avô, por exemplo, quando veio para os EUA tornou-se um produtor de leite em Connecticut. Por isso conheço muito bem essa região que tem uma grande comunidade luso-americana.

Tendo em conta essa vantagem de Clinton no voto popular, como é que explica as acusações de Sanders em torno da atribuição desigual dos superdelegados?
Não sei como é que ele tem alguma legitimidade para fazer essas acusações. Quer dizer, ele alega que, de algum modo, teria melhores resultados do que Clinton numa disputa contra Donald Trump…

Sanders queixa-se da enorme desvantagem acumulada ao nível dos superdelegados, cujo apoio não depende dos resultados eleitorais nos respectivos estados. Por vezes parece sugerir que só não vai conseguir obter a nomeação por causa dos superdelegados. Acha que ele tem razão?
Bem, ele diz isso porque se baseia em algumas sondagens nacionais. Mas quem olhar para os números nacionais e não tiver em conta a forma como os votos são contados, e como os delegados são atribuídos, será enganado por essas afirmações. Mas na realidade contamos os votos por cada estado e os representantes estatais vão ser seleccionados para o Colégio Eleitoral através dos votos num candidato. Por isso pode verificar-se, por exemplo, no Estado de Vermont, de onde Sanders é oriundo, ele até pode vencer por 80% ou mais da votação, aliás como ele conseguiu, é senador de Vermont, uma região do país que é primordialmente “branca” e liberal nos padrões de votação. E ele conseguiu um excelente resultado nesse Estado. Mas o total dessa votação apenas é representativa de um número limitado de votos eleitorais, referentes a esse Estado. O voto popular não é acrescentado ao voto popular nacional. Embora Clinton esteja aliás a liderar no voto popular nacional, até hoje. Lidera desde o início. Mas ela tem ganho também nos estados que vão ser mais importantes à medida que avançamos. Por isso, quando olhamos para estados como o de Nova Iorque, como a Pensilvânia, a Flórida, há muitos estados flutuantes [que tanto votam maioritariamente no Partido Democrata como no Partido Republicano, de eleição para eleição] nos EUA, o próximo presidente não vai vencer apenas pelo voto popular, vai ser o voto do Colégio Eleitoral por cada Estado. E por isso os totais dos estados são muito importantes. Um candidato pode vencer significativamente no Texas, por exemplo, mas na eleição geral não penso que o Texas venha a ser decisivo para o Colégio Eleitoral em Novembro. É simplesmente esse o ponto. Quando se olha para Clinton a competir com Trump, ou Cruz, ela tem estado na política activa desde há cerca de 30 anos. Bernie Sanders não. Ele tem sido senador dos EUA e é conhecido no Nordeste, em particular no seu próprio Estado de Vermont. Mas ele não tem sido alvo do dinheiro maciço à disposição dos republicanos que o vai atacar enquanto candidato democrata. Ele não passou por isso, anteriormente. Clinton passou. Foi derrubada algumas vezes, mas voltou sempre à luta. Penso que é isso que a torna a melhor candidata do Partido Democrata para competir com Trump ou Cruz.

E é por causa disso que os superdelegados preferem Clinton, por causa dessa ideia de que ela tem mais hipóteses de ganhar?
Não são apenas os superdelegados. Ela também está a ganhar nos delegados.

Sim, mas nos superdelegados há uma diferença abissal, com uma proporção que não se verifica nos delegados. É por acharem que Clinton dá mais garantias de vitória na eleição geral?
Se falar com a maior parte dos superdelegados, eles serviram com ela, trabalharam com ela…

Portanto há uma ligação mais próxima entre eles…
Não há apenas uma ligação, mas eles sabem que ela consegue fazer as coisas. Porque uma coisa é fazer campanha, outra coisa é depois da campanha ir fazer o trabalho, para o povo americano. E eles sabem que ela faz as coisas, vai obter resultados como presidente. E quando olha para superdelegados que são senadores dos EUA, tanto Sanders como Clinton já serviram com eles. Não há, até este momento, que eu tenha conhecimento, senadores dos EUA que apoiem Sanders. E esta é a pessoa com quem eles serviram durante anos.

Porque é que isso acontece?
Acho que diz muito sobre as diferenças entre os candidatos. E, por exemplo, o senador dos EUA pelo Vermont, Patrick Leahy [do Partido Democrata, enquanto Sanders é senador independente], está com a Hillary Clinton. Ele trabalhou com a Hillary Clinton e com o Bernie Sanders, e escolhe quem ele acha que vai conseguir fazer o trabalho para o país. E estes senadores dos EUA puderam lidar com os candidatos proximamente, pessoalmente, jantaram com eles, trabalharam juntos em certos assuntos, e optam pelo tipo de personalidade e de ética de trabalho capaz de obter resultados para o povo americano. E acho que acreditam que ela é a candidata mais forte e segura, porque não há muitas mais coisas novas que os movimentos de extrema-direita do espectro político possam utilizar contra Clinton que já não tenham utilizado no passado. E ela resiste e continua a bater os candidatos republicanos nas sondagens nacionais.