Cristiano Cabrita

Investigador

Doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais, é Investigador no CIEP – Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e autor do livro O Neoconservadorismo e a Política Externa Norte-Americana, que será publicado brevemente

Hillary, Bush e o regresso dos neoconservadores

No dia 7 de Novembro de 2015, no âmbito das primárias republicanas, o Senador Rand Paul atacou Hillary Clinton acusando-a de ser “neoconservadora” em termos de política externa. Sempre numa linha pejorativa, Paul afirmava que Clinton era herdeira de uma doutrina intervencionista que havia alcançado o seu expoente máximo com George W.Bush e que havia, segundo ele, prejudicado gravemente a posição dos Estados Unidos da América (EUA) na política internacional.

A crítica de Paul não encontrou grande eco na generalidade da comunidade política – realisticamente as questões económicas e sociais do país assumem quase sempre prevalência sobre a política externa. Todavia, os ataques terroristas a Paris, em 13 de Novembro e, no passado mês de Março a Bruxelas, mudariam este paradigma. A partir daqui a política exterior entraria em força na agenda partidária de republicanos e democratas.

Neste contexto, nos últimos meses, um novo facto político emergiu na órbitra da candidatura de Clinton: o apoio (mais ou menos explícito) de conservadores ideologicamente próximos do Partido Republicano como Max Boot, Robert Kagan, Eliot Cohen e William Kristol. Mas quem são estes intelectuais que estão dispostos a contrariar a sua orientação político-ideológica em prol de uma candidata do Partido Democrata? Na verdade todos eles – exceptuando Kagan que entretanto se tornou “independente” e “intervencionista liberal” – fazem parte de uma terceira geração de neoconservadores, os neocons, que é herdeira de uma tradição doutrinal com raízes complexas na história política norte-americana e que tem marcado o confronto político nos EUA nas últimas duas décadas: o neoconservadorismo.

A influência desta corrente intelectual, originalmente marxista anti-estalinista, foi visível na Administração de Ronald Reagan com ideias em torno do apoio à democracia, ao globalismo e ao anticomunismo. Contudo, seria após o 11 de Setembro de 2001 que esta escola de política externa transformaria a política norte-americana. Especificamente o apoio à decisão de invadir o Iraque, em Março de 2003, conotaria daí em diante os neocons com um certo intervencionismo democrático, unilateral e hegemónico das Administrações de George W. Bush.

Ora, será que o apoio destes neoconservadores vem dar razão a Rand Paul? Na realidade, o discurso político que Clinton tem adoptado nos últimos anos – e a sua não menos importante aceitação tácita de algumas ideias neoconservadoras – aponta nesse sentido. Ou, pelo menos, não o afasta totalmente.

Recorde-se que no primeiro mandato de Barack Obama, a ex-secretária de Estado sempre foi mais hawkish na sua abordagem à política externa apoiando activamente a promoção da democracia – o grande cavalo de batalha dos neoconservadores – como um dos alicerces da política externa norte-americana. Aliás, o seu recente discurso no The American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), sublinhando que a democracia pode ser uma forma de promover a mudança de regime no Irão, diz-nos muito sobre o que poderá o futuro da orientação externa de Washington.

Além disso, assumiu e tem vindo a assumir uma posição de confronto com a Rússia; manifestou o seu apoio à Guerra no Iraque, em 2009; defende a presença militar dos EUA no Médio Oriente, em particular no Afeganistão; defendeu o apoio dos EUA aos rebeldes sírios (criticando Obama) e defendeu o derrube de Muamar Kadafi, em 2011. Ou seja, a sua actuação aproxima-se em traços gerais dos pilares neoconservadores: salvaguarda do interesse nacional (na maior parte as vezes exercido através do poder militar); promoção da democracia no exterior e manutenção da hegemonia norte-americana no mundo.

Impõe-se, portanto, the million dollar question: se Hillary Clinton for eleita os EUA adoptarão uma política externa mais agressiva na ordem internacional, à semelhança de W. Bush? Não sabemos. A única certeza é que os neoconservadores estarão na linha da frente do debate político numa altura em que o país mais precisa. Não serão os únicos, é claro. Nem tudo mudará abruptamente, é certo. Mas a actual conjuntura – a hegemonia norte-americana saiu fragilizada após a atitude periclitante de Obama na Líbia, na Síria e na Crimeia – abre boas perspectivas à visão neoconservadora. Os EUA precisam de recuperar o seu “espaço hegemónico” e Clinton poderá adoptar a “flexibilidade” ideológica desta escola de pensamento externo, que equilibra o internacionalismo Wilsoniano (paz democrática) com uma visão da realidade internacional anárquica (ponderação de poder), para alcançar os seus objectivos.

Em 2012, tive a oportunidade de entrevistar William Kristol no The Weekly Standard, em Washington. Na altura, o filho de Irving Kristol – o “pai” deste (neo)conservadorismo – confidenciou-me algo que nunca esqueci: «sabe, o neoconservadorismo tem uma arma muito forte, o poder das ideias». Este “poder” que se reflecte no plano político, académico, cultural e económico tem vindo a moldar a sociedade norte-americana e leva-me a considerar que é um erro descartar levianamente a hipótese dos neoconservadores voltarem de algum modo a influenciar a condução da política externa norte-americana. Seja como for é caso para dizer: os neoconservadores estão de volta!