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Sanders excede as expectativas: desde Iowa até Indiana

Bernie Sanders representa uma séria ameaça para a secretária de Estado Hillary Clinton, no âmbito dos seus esforços para se tornar a nomeada presidencial do Partido Democrata

Michael S. Lewis-Beck, Professor (com a distinção F. Wendell Miller) no Departamento de Ciência Política da Universidade de Iowa

O senador de Vermont Bernie Sanders representa uma séria ameaça para a secretária de Estado Hillary Clinton, no âmbito dos seus esforços para se tornar a nomeada presidencial do Partido Democrata. No momento em que escrevo (7 de Maio de 2016), nenhum dos candidatos obteve delegados suficientes nos “caucus” ou eleições primárias estatais para ser declarado vencedor: Clinton regista 1.705 delegados ganhos, contra 1.415 para Sanders (contagem da RealClearPolitics). Portanto, temos uma competição renhida, a qual poderá ficar ainda mais equilibrada depois dos próximos escrutínios. O que é que explica a incrível ascensão do senador Sanders? Eu aponto algumas possibilidades, começando pela sua primeira campanha no Iowa e terminando com o sucesso inesperado em Indiana. Vou focar-me no que Bernie conseguiu fazer, e a mensagem deve ser clara: Bernie supera as expectativas regularmente.

Porque é que os meios de comunicação social, os políticos e os eleitores dão tanta atenção ao processo de selecção do candidato no Estado de Iowa? Primeiro, a razão óbvia – o Iowa é o primeiro Estado a escolher o seu candidato presidencial. Segundo, a razão menos óbvia – o Iowa é, em muitos aspectos, representativo do país. Geograficamente, situa-se no centro do país, e o seu território é de tamanho médio. Além disso, está no coração da América, o Médio Oeste. Também ao nível dos redimentos familiares, Iowa encontra-se na linha média de distribuição. Em algumas áreas, reconhecidamente, não é típico. No que respeita à educação, apresenta a maior percentagem de graduados do ensino secundário. Quanto à corrupção política, destaca-se como um dos cinco sistemas mais “limpos”. Mais, dispõe de um nível de participação política e voluntariado muito acima da média. Estas características, embora não sejam representativas, prometem um eleitorado mais bem preparado. Etnicamente e racialmente, o Estado tem uma boa dose de homogeneidade; contudo, isso está a mudar, com 6% da população actual a ser hispânica, 3% afro-americana e ainda uma crescente população asiática. Por fim, enquanto os residentes do Iowa exibem o seu crachá agrário orgulhosamente, o Estado ainda mantém um forte sector industrial manufactureiro. Tendo em conta estas considerações, uma vez escrevi que o Iowa é um Estado “típico” em dimensões importantes e, quando não é, tende para uma cidadania mais cívica. Em suma, como algum Estado tem que ser o primeiro, não é um mau começo, decerto que não para Bernie.

Sanders no Iowa

O “caucus” do Iowa realizou-se no dia 1 de Fevereiro de 2016, proporcionando aos concorrentes presidenciais o seu primeiro teste perante potenciais eleitores. Durante a campanha, do lado dos republicanos, Cruz e Trump foram sempre concorrentes próximos. Do lado dos democratas, Clinton e Sanders acabaram por se tornar concorrentes próximos, para surpresa de todos. A ascensão de Sanders foi meteórica. As sondagens regulares de intenções de voto começaram em Janeiro de 2015: nessa altura, Cruz, Trump e Sanders tinham menos de 5%, ao passo que Clinton estava acima de 50%. Como referência, tenha em conta que em Fevereiro de 2015, um ano antes do “caucus” de Iowa, Clinton tinha 68% de apoio entre participantes declarados do “caucus”, em comparação com apenas 7% para Sanders. Ele era um desconhecido virtual. No entanto, Sanders começou a subir consistentemente nas sondagens. Em contraste, Clinton iniciou um movimento de declínio. Em Setembro de 2015, Sanders até ultrapassou Clinton. E na última sondagem do Des Moines Register antes da votação no “caucus”, eles estavam quase empatados, 46,8% para Clinton, 44% para Sanders.

Esta escalada de Sanders surpreende por duas razões. Primeiro, foi rápida e acentuada. À medida que a campanha se desenvolveu, ele foi subindo nas intenções de voto a um ritmo de quase quatro pontos percentuais por mês, com base numa análise de regressão que eu desenvolvi (isto é quatro vezes mais rápido do que Trump, e oito vezes mais rápido do que Cruz). Em contraste, Clinton estava a perder apoio a um ritmo de dois pontos percentuais por mês. Claramente, a campanha de Bernie foi excepcional na sua dinâmica.

Segundo, foi excepcional na forma como cativou as mentes dos eleitores. Os votantes dos “caucus” (bem como os votantes das primárias) não costumam prestar atenção à disputa até aos últimos dias. Estes votantes raramente têm preferências políticas bem pensadas e têm pouco conhecimento sobre o que os candidatos defendem. De acordo com uma sondagem realizada no Iowa algumas semanas antes, uma maioria de prováveis participantes no “caucus” disseram que poderiam mudar de ideias sobre a sua primeira escolha, ou que nem sequer tinham uma primeira escolha. A campanha de Bernie foi diferente, com a sua presença a ter um efeito favorável desde o início. Em Outubro de 2014, 58% dos residentes do Iowa inquiridos em sondagens não sabiam quem ele era, e apenas 29% lhe eram favoráveis. A partir dessa base, os seus números favoráveis aumentaram substancialmente. Chegados a Janeiro de 2016, na véspera do “caucus”, apenas 5% não o conheciam, e uns incríveis 89% eram-lhe favoráveis.

Aquilo que Bernie demonstrou, através da sua acção no terreno em Iowa, com críticas insistentes à desigualdade económica e à ganância de Wall Street, foi que “quem o conhecia, gostava dele”, pelo menos entre os participantes democratas no “caucus”. A votação final, no dia 1 de Fevereiro, resultou num empate virtual, com Clinton a rebecer 49,9% dos delegados estatais, contra 49,6% para Sanders. Vindo do nada, Bernie combateu Hillary e impôs um empate à aparente herdeira democrata.

Sanders em Indiana

O forte desempenho de Sanders no Iowa não foi uma casualidade. Por causa das suas votações totais noutros estados, ele permaneceu próximo de Clinton na contagem dos apoios de delegados. Mais, quando parece que está acabado, ele renasce das cinzas, como aconteceu aquando da sua surpreendente vitória no Michigan e, mais recentemente, a não menos surpreendente vitória em Indiana. Repare nas eleições primárias de Indiana, realizadas a 3 de Maio de 2016, mais de três meses depois do “caucus” no Iowa. As sondagens colocaram Clinton muito à frente de Sanders, com uma vantagem média de sete pontos percentuais (de acordo com o The New York Times). De facto, Sanders venceu folgadamente em Indiana, por uma margem de 5,4 pontos percentuais (consumando um erro de previsão superior a 12 pontos percentuais).

Sanders depois de Indiana

O que é que esta experiência de Indiana nos diz, em relação às perspectivas de Bernie? Primeiro, juntamente com o Michigan, e outros números de sondanges, alguma coisa parece estar gravemente errada na metodologia das sondagens. Segundo, fazer previsões sobre eleições primárias abertas (nas quais tanto podem participar independentes como militantes do partido) parece ser especialmente problemático. Terceiro, primárias abertas, como as do Michigan e Indiana, dão a Sanders uma imprevista vantagem. Ainda faltam os escrutínios de vários estados, antes de se realizar a contagem final dos delegados. Em alguns desses estados, como West Virginia, Kentucky e Oregon, Sanders deverá vencer, se as sondagens forem credíveis. E quanto aos grandes estados? O prémio é a Califórnia, o maior Estado e onde, segundo os números actuais (da RealClearPolitics), Clinton tem uma vantagem de cerca de nove pontos percentuais. Mas a Califórnia realiza primárias abertas a eleitores independentes, o que significa uma possível vantagem para Sanders. Tendo em conta a incerteza, não parece ser excessivo imaginar que Bernie poderá subir até ficar próximo do empate nos delegados ganhos por cada candidato. Se isso acontecer, parece que muitos dos 700 e tal superdelegados, comprometidos com Clinton, poderão reconsiderar. Afinal de contas, eles são pessoas, pessoas políticas. Bernie poderá exceder as expectativas, mais uma vez.