Made in America

O contra-golpe

A seguir a um presidente negro que ouve a Razão, age com Lógica, promove as mulheres e defende o direito de cada individuo exprimir as suas opiniões, tanto humanistas como religiosas, uma certa facção da sociedade Americana reage com um blowback – um contra-golpe

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Maria Gomes-Solecki é Professora Associada de Microbiologia, Immunologia e Bioquimica da Escola de Medicina da University of Tennessee Health Sciences Center e Presidente da empresa Immuno Technologies, Inc

A meu ver, a popularidade do Sr. Trump assenta numa dualidade básica que permeia o dia-a-dia da vida Americana. Uma pessoa ou é branca ou é negra, boa ou má, amiga ou inimiga. Afinal, trata-se de uma sociedade que favorece rótulos, e castigo em vez de reabilitação.

Será a popularidade do Sr. Trump a apoteose do declínio da supremacia da raça branca Americana? A seguir a um presidente negro que ouve a Razão, age com Lógica, promove as mulheres e defende o direito de cada individuo exprimir as suas opiniões, tanto humanistas como religiosas, uma certa facção da sociedade Americana reage com um blowback – um contra-golpe.

Talvez com alguma saudade dos dias em que só homens brancos andavam apressadamente pelos corredores do Congresso e da Casa Branca e as mulheres (brancas também) faziam o seu papel de secretarias embevecidas, o país regressa ainda mais atrás, aos dias em que uma gota de sangue africano condenava uma pessoa a uma vida de servidão, mas agora independentemente da cor da pele. Porque, o que está em causa não é propriamente a cor da pele, mas o Poder: a supremacia de uma Classe sobre outra, que na América nasceu como a supremacia duma Raça sobre outra.

Mas, tal como a Senhora Merkel e o Sr. Schaeuble não estavam minimamente preparados para negociar a restruturação duma dívida com um político supostamente de esquerda que lhes ofereceu uma proposta razoável e “Reaganesca-de-direita” para reabilitar um país da União que faliu completamente em 2010, a América agarra-se ao seu status-quo. Os Europeus agem de acordo com os seus preconceitos culturais e os Americanos fazem o mesmo.

É difícil abandonar os pilares sagrados da nossa sociedade. Do mesmo modo que as nações poderosas da Europa forçam a austeridade de Gregos e Portugueses para garantirem que Franceses e Italianos controlam os seus gastos internos para permitir a recuperação económica da Zona Euro, uma grande facção de Americanos brancos estão a ficar nervosos porque sentem que estão a perder o controlo psicológico sobre os conterrâneos de pele mais escura. Ou seja, estão a perder (algo). Esse era o último trunfo que possuíam antes do Presidente Obama ser eleito. A família Obama é um excelente modelo que inspira outros afro-americanos a sonharem com possibilidades futuras, que lhes dá mais uma razão de terem orgulho na sua etnia/herança e que lhes permite conquistar o ultimo passe de entrada num mundo que lhes dá respeito incondicional.

Os livros de história ensinam-nos que a escravatura era legal antes da Guerra Civil Americana mas hoje em dia a América-branca (mais ou menos a todos os níveis de educação) adoptou outras maneiras legais de condenar minorias sub-privilegiadas, maioritariamente negras, a uma vida igualmente miserável. Por exemplo, o sistema de educação k-12 é medíocre, classificado no terço inferior da tabela em matemática (PISA2012 com média de 484 atrás do grupo Espanha/Portugal/Italia/França com medias de 492-499, mais próximas da média da OCDE que é 499; o Reino Unido tem média de 500, a Coreia do Sul, no topo, tem média de 562). Esta insuficiência do sistema de educação penaliza toda a gente independentemente de cor ou religião. (Nota: o sistema de educação Americano – ao contrário do Europeu – é financiado ao nível local através de impostos de propriedade, o que significa que as localidades pobres têm uma média em Matemática muito inferior à da Indonésia (q tem a média mais baixa da OECD, com 377).

O mesmo grupo, que é o grupo que ainda governa o país, tem uma obsessão doentia com a Guerra à Droga que basicamente garante uma perseguição constante a famílias afro-americanas. Outra frente da guerra ao grupo afro-americano é a National Rifle Association (Associação Nacional de Armas de Fogo, NRA). O objectivo do NRA é que exista pelo menos uma arma de fogo por casa/casal Americano. Mas recusam-se a aceitar a imposição de investigações a quem compra armas para evitar vender armas a criminosos cadastrados porque isso seria mau para o negócio. O NRA quer que cada família Americana possua uma arma de fogo para que possam defender a sua família “deles”. Esta mensagem soa bem entre gente branca de educação muito baixa, e não só. Agora chegamos à definição “deles”. “Deles” refere-se principalmente ao “afro-americano lobo mau”. É um racismo insidioso que se recusa a desaparecer e que inspirou o movimento Black-Lives-Matter.

O direito a trazer uma arma de fogo, carregada, a todo o lado, lojas, parques, escolas, Universidades só se aplica à população branca, mais especificamente às pessoas originárias das ilhas britânicas, e norte e centro da Europa. Se um afro-americano decidisse passear uma AK47 carregada por uma avenida seria seguramente executado na hora pela polícia. Observar estes protectores (brancos) do meu direito de passear carregando uma arma (que é a interpretação – incorrecta – que eles fazem da Segunda Emenda da Constituição Americana) aqui no Sul onde vivo, lembra-me das descrições dos vendedores de escravos e fazendeiros brancos a passearem-se pelas suas Herdades coloniais, suados, mal-cheirosos e armados até os dentes.

Donald Trump apela a este sector (branco, quase analfabeto) da população Americana. E não só. Também existe uma outra facção de (sobretudo) homens com educação media/alta. Esse grupo é mais difícil de entender e de explicar. Trump acabou por incluir outra minoria sub-privilegiada nos seus ataques: os Mexicanos. Neste caso está a vocalizar uma preocupação real entre brancos quase analfabetos porque esses competem com mexicanos pelos trabalhos pagos ao dia. Ou seja, aproveita-se desta angústia inerente ao mercado de trabalho Americano para dizer ao sector branco (que se julga com mais direito à terra que os outros) que vai construir uma parede entre o México e os Estados Unidos e vai fazer o México pagar a conta. Depois de enervar toda a gente com origens nas outras Américas (Norte, Centro e Sul) agora usa o terrorismo como proxy e ataca os Muçulmanos. A experiência deste senhor como estrela de Reality-TV  ensinou-lhe que o que ele precisa de fazer para subir nas sondagens é dizer qualquer coisa asquerosamente ofensiva e a imprensa e o Social Media tratam do resto.

Está tudo interligado. Mas não é caso para desesperar. Os insultos do Sr. Trump a mais de metade da população mundial não são mais que dores crescentes, representam o ultimo grito do Americano-branco-quase-analfabeto e de outros que ainda não consegui entender/definir, que, ao ver os seus congéneres perderem o pulso do Poder sobre Washington, revoltam-se e lutam por recuperar terreno. Ao contrario dos Europeus, os Americanos têm um certo desdém de estimação por estruturas sociais verticais. Não gostam muito de linhas de sucessão sanguíneas, apesar de aceitarem que famílias politicas poderosas beneficiem de reconhecimento imediato e adoram o underdog, o tipo que ganha apesar de todos os indicadores dizerem que é impossível (o que explica o posicionamento de Trump e de Bernie Sanders nesta fase da corrida). É um país verdadeiramente multicultural com várias culturas integradas com sucesso. E é um país que preza acima de tudo o direito de cada um exprimir a sua opinião, seja lá que opinião for.

Mas o problema desta América que descrevo acima é a demografia. Quando a minha filha de 13 anos usa a sua t-Shirt a dizer Feel-the-Bern todos os fins-de-semana, religiosamente, quando vai ao parque e quando a minha filha de 10 anos diz que “Ele [Trump] vai Fazer a América Odiar Outra Vez” é mais ou menos certo assumir que Donald Trump tem um problema.

A população que vota nos Estados Unidos tem-se tornado menos-branca nas últimas décadas ou, como os Ingleses carinhosamente se referem a nós Portugueses, Not-Quite-White (“Não-Propriamente-Brancos”). E os Republicanos falham consistentemente em ganhar o voto dos Americanos Menos-Brancos. De modo que, a meu ver, a probabilidade do candidato Republicano ganhar as Eleições em Novembro são baixas (a não ser que aconteça alguma catástrofe que acabe em Guerra).

Para acabar numa nota positiva, tenhamos em mente que a América já nos deu o primeiro Presidente afro-americano. E tenho confiança que, em Novembro deste ano, a mesma América vai eleger a primeira mulher para Presidente do país mais poderoso do mundo: Hillary Clinton.