Miguel Ferreira da Silva

Director da Comissão para o Estudo e Estratégia da Governação do Mar

Especialista em Segurança, Defesa e Política Internacional, foi representante português no Africa Center for Strategic Studies e adido político na embaixada de Portugal em Washington.

Vitamina B16, but not yet.

Desde os tempos de Ronald Reagan que se conhecem publicamente os efeitos medicinais da vitamina B12 em políticos exaustos. Margaret Thatcher, a então compagnon de route do presidente americano era reconhecidamente uma ávida consumidora do remédio, cuja inegável eficácia era, contudo, passageira.

Vem isto a propósito da minha leitura do artigo no qual Cristiano Cabrita sublinhava o pendor neocon de Hillary (referindo a propósito o segundo Bush). Não pude deixar de lhe dar razão, o que me levou a pensar sobre as causas da resiliência da campanha de Hillary, ao contrário do “terceiro Bush” (Jeb), do outro lado da barricada partidária. Afinal, entre necons, como entre “socialistas”, Hillary será muito mais démodé do que o sorridente ex-governador da Flórida. Explico-me:

Nada do que parece é.

A melhor coisa que aconteceu a uma candidata exausta (antes mesmo de começar a corrida), com a qual os mais jovens eleitores não se identificam e boa parte do seu próprio partido tende a por de lado, a melhor coisa dizia, foi a “vitamina Bernie Sanders” nestas eleições de 2016.

Obrigada que está, como a “Dama de Ferro”, a ser mais e melhor do que os outros, as noites de definição de estratégia e as reuniões políticas são naturais para Hillary mas, desafio hercúleo é aparentar ligação com o eleitorado em iniciativas de campanha. Mas na “manhã seguinte”, à luz dos holofotes, ela debate com Bernie, projectando a ideia de estar no mesmo campo deste. Lenta, mas inexoravelmente, demonstrando que afinal não é “assim tão velha”, nem “assim tão capitalista”, nem “assim tão conservadora”.

Assim Bernie Sanders é não tanto um opositor, como um bálsamo e uma vitamina para Clinton (Hillary).

Um bálsamo porque face ao idealismo romântico de Bernie, ela não precisa de se defender do óbvio. Sem Bernie, Clinton teria de explicar porque é que “não é de esquerda”. Com Bernie a guinar para o que nos EUA é “esquerda radical”, Hillary até parece razoável precisando apenas de sorrir e demarcar-se da direita mais ortodoxa. Postura, aliás, que consegue seguir quanto às críticas do seu oponente interno: mesmo nas suas mais ferozes críticas, Sanders tende a elevar o debate, permitindo a Hillary sorrir (aceitando “fair and square” a crítica) sem conceder (recordando experiência de governação para fugir a discussões ideológicas).

Uma vitamina porque face ao afastamento das “bases” do partido democrata, bem como dos eleitores mais jovens, Hillary tem quem arrebanhe as novas bases partidárias. Feito muito para além das suas capacidades.

O galopante ressentimento contra o establishment que varre a direita de Trump, deveria no centro-esquerda (do partido Democrata como nos eleitores em geral) retirar apoios a Hillary. E contudo – ao contrário da longa lista de desistentes republicanos: Jeb, Rubio, Cruz e Kasich – Hillary mantém-se. Certo que Sanders não é Trump, mas ao contrário da imagem que projecta, tem muito mais fundos de campanha do que este.

A conclusão é que as “cartas fora do baralho” (Trump e Sanders), tiveram consequências diametralmente opostas nos dois partidos. Como disse antes, a vitória  de Trump (que se espera pírrica), pode permitir refundar o GOP, já a derrota de Sanders prenuncia uma divisão democrata.

São já vários os comentadores a prognosticarem essa cisão interna, embora um tanto precoces a seis meses de eleições, são relatos não só possíveis como prováveis: “nasceu” na esquerda americana, uma versão mais radical que agregou uma juventude descontente com dispersos comunitaristas, criando um “bloco na esquerda” capaz de se contrapor ao “tea party”.

Mas para a análise das presidenciais – primárias e gerais – importa notar um efeito contrário ao que se espera dentro dos aparelhos partidários.

Regressemos a Bernie Sanders.

À recusa de desistência de Sanders, Hillary responde com respeito e sem pressa, porquê? Porque Hillary já percebeu duas enormes vantagens em adiar beber de um trago o “amargo cálice da vitamina B(ernie)”.

Primeiro porque Bernie continua a revitalizar, sozinho e por mérito próprio, a militância política jovem entre o eleitorado democrata – feito para além das possibilidades da desgastada Hillary;

Segundo porque os actuais juramentos (à esquerda) de “nunca votar Hillary”, vão acabar por se diluir na obrigação de votar contra Trump (mesmo que para isso, lá como cá, tenham que “tapar os olhos” quando em Novembro puserem a cruz em Hillary).

Em ambos os casos atraindo ao voto quem, sem Bernie, nem sequer se interessaria pela eleição. Quanto mais ele se mantiver na corrida, mais “vitamina” produz. Neste sentido Bernie Sanders foi o melhor que aconteceu à Presidente Hillary Clinton.

Revigorada com esta vitamina B16, a próxima batalha decisiva é, para Clinton, descobrir como chegar à eleição geral mantendo o respeito dos apoiantes de Sanders sem o convidar para a equipa.