Cristiano Cabrita

Investigador

Doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais, é Investigador no CIEP – Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e autor do livro O Neoconservadorismo e a Política Externa Norte-Americana, que será publicado brevemente

Reagan e Trump: What Else?

Os anúncios publicitários da Nespresso são conhecidos mundialmente. Um deles é protagonizado por Jack Black e George Clooney com o seguinte enredo: Black bebericando um café procura replicar a elegância com que Clooney pronuncia a célebre frase: “Nespresso: What else?”. Como ainda não domina a técnica que está somente ao alcance de Clooney ao aproximar-se de uma senhora diz-lhe um desastroso “Nespresso: What more!”. Prontamente corrigido pela mesma com um: “Nespresso: What else? é isso que George Clooney diz”. Acto contínuo um confiante Black é abordado por uma outra senhora que o questiona: “é um Nespresso que está a beber?”. Resposta: “What Else?”. Todavia, a sensação que fica é que Black até pode ser um bom aprendiz de feiticeiro mas nunca – por mil e uma razões- será um Clooney.

O mesmo se poderá dizer de qualquer exercício que procure fomentar a ideia de que Donald Trump e Ronald Reagan são política e ideologicamente próximos. Tal como Black, Trump até pode vociferar aos quatro ventos que é o herdeiro ideológico de Ronald Reagan, defendendo aqui e acolá alguns pontos associados ao conservadorismo tradicional reaganiano. O problema é que todos sabemos – ou, pelo menos, devíamos saber – que isso não é verdade.

Desde logo, porque – imagine-se – Trump não é conservador. Pelo menos no sentido literal do termo (aqui incluo os conservadores tradicionais, os libertários, os paleoconservadores e os neoconservadores). Lamento, portanto, desiludir aqueles que embarcaram nesta ilusão. Chamar-lhe conservador é o mesmo que dizer que Kim Jong-un é um liberal. Sim, o milionário norte-americano afirma-se como defensor do Grand Old Party de Reagan. Mas não é. Porque é que Trump entrou no campo “conservador” do Partido Republicano? Simplesmente porque os Estados Unidos estão polarizados (e condicionados) politicamente pelo Two-Party System. Quem quiser ser eleito tem que ser Republicano ou Democrata. Se existissem quatro ou cinco Partidos do arco da governação na América (ou coligações partidárias), provavelmente Trump auto-intitular-se-ia outra coisa qualquer. Assim sendo é um “republicano-conservador” cuja estirpe ainda está por identificar. O mérito – que não é pouco – foi ter conseguido “vender” a sua visão ao eleitorado.

Podemos tentar embelezar o argumento mas o discurso de Trump é radical. Ponto final. Acresce que este radicalismo é perigosamente híbrido porque tanto é de direita como de esquerda. Esta mistura explosiva que agrega numa só figura os princípios defendidos pela Frente Nacional francesa, pelo Syriza e pelo Tea Party é do mais indesejável que pode existir para o futuro dos EUA. Juntar a esquerda radical – alimentada pela xenofobia e pelo medo –, com o populismo de direita – assente numa luta contra a desigualdade social – é uma receita para o desastre. Eu já explico melhor.

Não obstante, embarquemos nessa aventura (diria arriscada), que é comparar Reagan e Trump, procurando ao mesmo tempo encontrar algumas respostas sobre o porquê deste novo “fenómeno”.

Quando Ronald Reagan se candidatou pela primeira vez à presidência dos EUA (1980) já tinha uma larga experiência política fruto do cargo que ocupou enquanto Governador da Califórnia (1967-1975). Trump, por seu turno, é inexperiente na vida política. Reagan tinha um discurso articulado sobre o papel do Estado, sobre as matérias económicas e políticas. O discurso de Trump é errante. Fica a sensação que diz aquilo que lhe vai na alma, sem medir as consequências. Comparativamente, Reagan no índice geral de popularidade e elegibilidade esteve sempre mais à frente. Verdade seja dita, existe um ponto em comum – talvez o único – que os aproxima. Antes de se afirmarem como conservadores ambos tiveram um passado liberal democrata. Aliás, Trump tem utilizado o exemplo positivo de Reagan para justificar a sua ligação de quase toda uma vida aos Clinton e ao Partido Democrata. E é tudo. As semelhanças acabam aqui.

Trump tem um pensamento distinto de Reagan em temas como o aborto, a saúde e a política externa. Embora Trump agora seja anti-aborto, no passado apoiou legislação nesse sentido. Algumas vezes hesitante, Reagan enquanto presidente foi contra o aborto. Tradicionalmente os republicanos advogam o corte nos impostos (qual é o político que quer ser eleito que não o faz?). Reagan, contudo, fê-lo com moderação de estadista, Trump advoga-o numa linha mais abrangente e populista.

Quanto à política externa, Trump tem um discurso nacionalista-isolacionista baseado no abandono das instituições internacionais e, até certo ponto, num certo intervencionismo exacerbado próximo da linha neoconservadora. Reagan ficou na História como o presidente norte-americano responsável pela impulsão da União Soviética e pelo fim da Guerra-fria. Trump é contra a ideia de excepcionalismo americano. Reagan abraçou-a com toda a sua a força –“a cidade no topo da colina” – vincando o papel especial dos EUA no mundo.

Relativamente à emigração, Reagan, em 1986, apoiou legislação para regularizar a situação de milhões de imigrantes ilegais. Já Trump tem adoptado um discurso típico da extrema-direita baseado na construção de “muros” e no combate à imigração ilegal vinda do sul (México à cabeça) e do mundo muçulmano (onde a maioria é, para Trump, radical ou terrorista). Neste ponto, o discurso de Trump é alimentado pelo medo e pela xenofobia enquanto o ideal de Reagan era pautado pela esperança e optimismo.

Como se explica então a popularidade de Trump? A resposta, a meu ver, relaciona-se com a actual situação económica e política dos EUA.

Trump assenta o seu discurso numa linha ideológica semelhante àquela que Reagan utilizou em 1980: “tornar a América grande de novo”. O que é que isto quer dizer? Essencialmente Trump colocou o dedo na ferida e procura recuperar a nostalgia dos anos 50 e 60 quando a classe média norte-americana atingiu o pico mais alto de enriquecimento económico e social. Na altura, o velho “sonho americano” tornou-se numa realidade para muitos. O problema é que essa América já não existe e a globalização impedirá o seu renascimento. De facto, em 1980 o problema norte-americano era a inflação, em 2016 o que persiste são os efeitos colaterais de uma brutal recessão com início na crise do subprime.

As políticas de republicanos e democratas arrasaram a classe média norte-americana (em 1985 representavam cerca de 70% da população e hoje em dia esse número ronda os 30%). O tecido industrial norte-americano quase que desapareceu. A economia parece privilegiar os grandes bancos e os grandes empresários em detrimento da classe trabalhadora. E foi a esta franja da sociedade – desiludida e marginalizada pelo sistema – que Trump conseguiu chegar com um discurso baseado na demagogia, no populismo, na xenofobia e no radicalismo.

Agora, independentemente daquilo que possa a vir a acontecer no futuro (apesar de ter ultrapassado a fasquia dos 1237 delegados, Trump terá que esperar pela convenção nacional do GOP, que decorrerá entre 18 e 21 de Julho, para ser nomeado sem contestação pelo seu partido), uma coisa é certa: não devemos subestimar qualquer linha ideológica por mais errada que ela possa estar. A História democrática é cheia de surpresas. Reagan – quando muitos o consideravam apenas um mero actor sindicalista de Hollywood – tornou-se um dos mais importantes presidentes norte-americanos. Como um dia Winston Churchill afirmou: “A democracia é a pior forma de governo imaginável, à excepção de todas as outras que foram experimentadas.”. E nos EUA esta frase ganha especial dimensão: “It´s America, What Else!”