Nuno Garoupa

Professor universitário

Professor Catedrático de Direito na Universidade do Texas A&M e Investigador da Católica Global Law School, a sua área de investigação é Direito e Economia e Direito Comparado. Fez o doutoramento em Economia na Universidade de York.

A Normalização de Trump e a Intervenção de Obama

As contas estão feitas. Clinton tem praticamente assegurada a nomeação democrata (tem já 2289 delegados) e o entusiasmo dos apoiantes de Sanders (com 1543 delegados) já não é uma ameaça. Os problemas de Clinton são outros, nomeadamente, a investigação a decorrer sobre a sua gestão no State Department. Nos últimos dias, as notícias apontam a uma possível dedução de acusação o que seria devastador. Acrescem os rumores sobre as ligações perigosas à fundação do marido.

Trump, pelo seu lado, tem assegurada a nomeação republicana (com 1139 delegados) e sem concorrência. Uma potencial coligação de Cruz (com 551 delegados), Rubio (com 173 delegados) e Kasich (com 160 delegados) está já ultrapassada. Nesse sentido, a própria estratégia de Trump ajustou-se. Por um lado, passou a visar Clinton e os democratas dando por adquirido que não terá de lidar com concorrentes internos. Por outro lado, entrou num processo de normalização e aproximação ao establishment republicano. Vários líderes conservadores, outrora críticos de Trump, falam agora na necessidade de unir o partido em torno da candidatura vencedora. Muitos analistas começam a falar de uma vitória de Trump como uma regeneração das instituições norte-americanas.

Trump provou que é ele quem manda nos republicanos, e não o contrário. Na verdade, Trump é um candidato independente, alheio às conveniências partidárias, que usa o Partido Republicano como barriga de aluguer. Mas é isso que precisamente mobiliza uma grande parte do eleitorado insatisfeito com a política de Washington, a inércia da administração Obama, a corrupção dos dois partidos.

Trump é um candidato presidencial inesperado. Consequentemente pode ser um Presidente inesperado. Apesar de, neste momento, ainda ser mais provável uma vitória de Clinton, não podemos objetivamente ignorar a possibilidade de Trump ganhar em Novembro. Daí que o establishment republicano está num processo de colagem a Trump. As notícias sobre o passado executivo de Clinton e o financiamento da sua carreira política vão evidentemente permitir as múltiplas cambalhotas de muita gente em Washington que, depois de jurar nunca votar Trump, aparecerá agora a apoiar o homem de negócios em nome do combate à corrupção dos Clinton.

Se pouco a pouco começamos a ler e a ouvir em muitos meios de comunicação social norte-americanos que afinal uma administração Trump não seria tão má, do lado democrata, Obama mexeu-se. Rompendo com uma tradição dos últimos mandatos de alguma prudência na hora da saída, o atual Presidente tem-se multiplicado em intervenções muito acutilantes visando Trump. Acontece que o envolvimento de Obama nesta fase da campanha pode ser uma grande ajuda para… Trump. Por um lado, no fundo, está a confirmar a incapacidade de Clinton liderar uma onda de repúdio ao candidato republicano. Pelo contrário, quanto mais essa onda parece estar a esmorecer, mais Obama se vê catapultado para a primeira linha da campanha. Por outro lado, é certo que Obama é muito mais popular entre os fiéis do Partido Democrata que Clinton e pode mobilizar esse eleitorado. Mas Obama é também o rosto visível do repúdio sentido pelo eleitorado conservador e está muito desgastado entre o eleitorado independente. Assim sendo, as intervenções de Obama ajudam Trump a mobilizar não só o seu eleitorado mas também os tradicionais abstencionistas. A intervenção de Obama contra Trump transforma definitivamente “o Donald” no underdog e isso é uma preciosa ajuda a Trump.