Made in America

Entre a espada e a parede

Num país onde o partido é quase uma herança familiar, determinando valores pessoais, moldando as vidas, mesmo os republicanos que não apoiam o empresário, acreditam que votar Hillary é trair o partido

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Paula Alves Silva é jornalista e Coordenadora das redes sociais no programa do Banco Mundial, Connect4Climate

Os nossos rostos calaram-se, repentinamente, numa troca de olhares derrotista. Os argumentos europeístas bateram contra uma parede de valores republicanos radicais. Apenas o silêncio fazia sentido no momento em que denotamos que a nossa argumentação não alteraria aquilo que são verdades inquebráveis. Invadiu-nos aquela que é a frustração inerente à derrota. Havíamos conhecido o primeiro apoiante da presidência Trump.  E o que até então nos parecia um longo episódio de um reality show, tornou-se realidade. As gargalhadas cessaram.

Para o melhor aluno do ano no curso de advocacia em Washington D.C. é impensável não votar Donald Trump. 49% de eleitores apoiam este raciocínio. O número, mais ou menos flutuante, surpreendeu a América. As análises também. De um lado, cidadãos de raça branca, com um nível de educação elevado – e, portanto, não se trata de superficialidade, escassez de informação ou desinteresse político. Do outro lado, cidadãos de meia idade, raça branca, pobres e baixo nível de educação, que encontraram em Trump a sua voz política. Alguém que lhes confere poder ao afirmar que os imigrantes ameaçam os valores americanos e o crescimento económico do país. Numa altura em que a questão racial volta a ferver em solo americano, Trump ganha terreno junto dos que temem uma queda da supremacia branca. Construir um muro que cerre as fronteiras americanas, proibir a entrada de muçulmanos no país, brincar com a questão do KKK. Aquilo que muitos vêem como perigo político, outros encaram como uma mudança política, rumo a uma América mais poderosa.

Na primeira vez a que assisto presencialmente à corrida presidencial nos Estados Unidos da América tenho a impressão que a História teme o que o homem possa decidir no próximo mês de Novembro. “Abdicarei do meu passaporte americano”, “Recuso-me a viver como imigrante num país governado por Trump”, “É apenas um jogo político”, escuta-se muitas vezes entre conversas de amigos, em mesas de cafés. Uma táctica extremamente bem sucedida. Um jogo político perigoso. Num dos mais recentes rallys de Trump na cidade de San Diego, a proximidade da fronteira mexicana aqueceu o confronto entre apoiantes e manifestantes. Frases racistas atiradas a cidadãos latinos, a violência como arma de propaganda, demonstração de hierarquia racial. É esta a América que se anseia ver crescer com o 45 presidente dos Estados Unidos?

A seis meses das eleições, Hillary Clinton apresenta-se ainda como a mais provável vencedora. Mas a campanha democrática treme. Com uma pesada herança da geração Clinton e polémicas ao longo da campanha que derrubaram percentagens consideráveis de apoiantes, Hillary enfrenta agora uma curva apertada numa corrida que se vislumbrava ganha na partida. E ainda que o género seja um ponto a favor, a candidata democrata é vista como uma imagem gasta no quadro político americano, temendo-se que Hillary não tenha ‘estofo’ necessário para governar os Estados Unidos da América. Por outro lado, Bernie Sanders apresentou-se dentro do partido Democrata como um player em ascensão, arrecadando apoiantes e fundos que Hillary esperava ter do seu lado. Salvá-la-á o facto de concorrer contra Donald Trump?

O tempo esvai-se. Os cartazes saltam timidamente para as janelas de casa, autocolantes tomam conta da janela traseira do carro, anunciando orgulhosamente o lado partidário. Espera-se que com a chegada do Verão também a campanha aqueça.  Num país onde o partido é quase uma herança familiar, determinando valores pessoais, moldando as vidas, mesmo os republicanos que não apoiam o empresário, acreditam que votar Hillary é trair o partido. Uma grande fatia dos republicanos sente-se, desta forma, entre a espada e a parede. Será que preferem a espada?