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Trump: dá-me o 45

O que há uns meses parecia impensável, agora torna-se realidade. Hoje a questão já não é se Donald Trump pode ser o candidato republicano? Mas se pode Trump bater Hillary Clinton e tornar-se no 45º presidente dos EUA?

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Tomás Tavares de Almeida é director de marketing da Sovena USA

Como chegámos até aqui?

Vale a pena constatar que a viagem já vai longa, e que há algo de errado neste processo eleitoral americano. Trata-se do maior ciclo eleitoral do mundo. São 500 dias de campanha, de debates e primárias, até ao derradeiro dia em Novembro. Neste processo comercial gerido pelas grandes cadeias de TV e media norte americanas, faz-se negócio a cada minuto com a cobertura live, e com os comentários, casos, picardias e debates entre candidatos. Mas….

Donald Trump conseguiu juntar 1.238 delegados nas primárias do Partido Republicano, mais um do que a margem mínima de 1.237 para garantir a maioria, conseguindo assim garantir a nomeação directa na convenção de julho. O seu crescimento tem sido tão inesperado como impressionante. Trump ganhou na Flórida, onde a grande maioria de hispânicos e a população emigrante representavam o seu grande teste, para além do facto de se ter incompatibilizado com Marco Rubio – senador da Flórida – e com Jeb Bush – neste último caso convém recordar que o seu irmão George W. Bush, por duas vezes foi ajudado por estes hipânicos a ganhar este importante estado na sua eleição à presidência.

Quem é este candidato?

Nascido em NY – Queens, filho de um construtor imobiliário (que por sua vez era filho de imigrantes alemães nos EUA), estudou nas melhores universidades, agarrou no negócio do pai e elevou-o para outra dimensão. Donald Trump é o protótipo do promotor imobiliário e homem de negócios com muita ambição, poucos escrúpulos, centrado em ganhar dinheiro e promover a sua marca – Trump. A sua ascensão explica-se por Trump oferecer soluções simples a problemas complexos. Para a classe média americana, que necessita de uma voz, e está cansada, e quer melhores condições de vida, qualquer mensagem de Trump: “We are going to start wining again”, “we are going to make this country great again”,”i have a plan and it is going to be great”, é como um ópio para o povo. O paradoxo aqui é que uma mensagem completamente desprovida de medidas específicas, torna-se numa conversa que ganha sondagens e eleições sem parecer parar.

O que explica isto?

O Partido Republicano encontra-se num momento difícil, e com uma crise de identidade. Nos últimos 8 anos a presidência Obama conseguiu feitos históricos para os EUA. O partido não tem um líder. Não tem um candidato capaz de estar a altura, nem de representar tanto a linha conservadora como a linha Tea Party. O povo americano, e não apenas os conservadores, estão cansados e com falta de esperança – o que explica os resultados tão escassos de Ted Cruz, ou mesmo do outro lado do espectro, algumas das victórias assinaláveis de Bernie Sanders a Hillary Clinton. Trump e Bernie Sanders representam um voto de protesto, de mal-estar com a democracia, com as instituições, com os políticos, e com os poderes instalados em Washington, para não falar dos mercados e também com o mundo em geral.

Um pouco por toda a Europa observa-se também que a tradicional luta de ideologias e partidos (esquerda Vs. direita, progressistas Vs. conservadores), deixou de representar a população e o que está em causa. Estamos observando o ressurgir de partidos da extrema direita (Dinamarca, Hungria, Polónia, França…) e na esquerda mais radical, o populismo e ideias anti-sistema (Portugal, Espanha e Grécia…).

Temos de nos habituar à ideia de que o voto democrático e que tende para o voto moderado e de centro, está a morrer. O Populismo, e o voto do mal-estar e protesto, tornaram-se o new normal. Pensemos em Jeb Bush: “enough with 2 Bushes”. Ted Cruz nunca conseguiu descolar da sua imagem antiquada, e mesmo Hillary Clinton da de “the Clinton dinasty”.

Qual a saída para isto?

O que pode acontecer nos próximos 5 meses? A união do discurso e das duas campanhas do Partido Democrata. Este é o único caminho possível para em Novembro poder apresentar um candidato democrata forte e capaz de derrotar Trump. O abandono de campanha de Bernie Sanders, num gesto patriótico e de união anti-Trump a favor de uma continuidade democrática na presidência, parece ser o caminho a trilhar para evitar o triunfo da incerteza, da demagogia, das palavras vãs, e da arrogância.