Isabel Botelho Leal

Ex-secretária de Estado da Cultura

Licenciada e mestre em Relações Internacionais, foi chefe da Divisão de Relações Internacionais da Assembleia da República antes de tomar posse como secretária de Estado da Cultura em Novembro de 2015. Viveu cerca de 15 anos nos Estados Unidos, onde estudou e foi conselheira política da missão portuguesa junto das Nações Unidas, em Nova Iorque (2003-2006 e 2007-2008). É responsável pela Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental.

Donald

Donald Trump é a voz da América e de uma América não tão profunda quanto se possa pensar. Com uma sociedade esmagada pelo politicamente correcto, ainda antes de em Portugal se falar da metrossexualidade ou dos tectos de vidros enfrentados pelas mulheres na vida profissional, já a América, sim porque aqui fala-se da América e não dos Estados Unidos, enfrentava a nova inquisição daquilo que se podia ou não dizer, escrever ou publicar.

Donald dá voz e representa aquilo que a grande maioria dos americanos pensa dentro de quarto portas, à volta da mesa da cozinha, de preferência numa casa de sonho tipicamente americana onde não pode faltar a white picket fence. E já que se fala de branco, importa dar nome às coisas: o average Joe é branco (pink mesmo), cresce numa cidade pequena do interior dos Estados Unidos, é Cristão protestante, estuda a Bíblia durante a semana, os filhos vão a retiros e campos de férias cristãos, acredita na liberdade de defesa individual (mesmo não tendo uma arma acredita na liberdade de se poder escolher ter uma), assiste aos jogos de futebol americano, baseball e futebol dos seus filhos, compra no supermercado local onde estes e os amigos trabalham nos tempos livres para juntar dinheiro para o primeiro carro, aos 16 anos, onde levam os seus dates (hétero, claro) ao baile de finalistas.

São estes americanos, descendentes daqueles que na noite de 16 de Dezembro de 1773 atiraram ao rio Charles, em Boston, 342 caixotes de chá (não confundir com o actual, argh, Tea Party) que votam Donald. Desde o movimento dos Direitos Civis liderado por Martin Luther King, que os Estados Unidos vivem um carrossel disfuncional sobre quem realmente querem para liderar o seu país: começando por um Kennedy, sobrevivendo a um Reagan, passando por um Clinton (o primeiro), sofrendo com o Bush e surpreendidos pela coolness de um Obama, os americanos arriscam-se agora a entrar na era de um Donald.

A história americana da escolha de presidentes no período pós-segunda Guerra Mundial demonstra este oscilar entre líderes carismáticos e representativos dos ideias mais humanistas da tradição judaica/cristã e líderes a roçar o caricato. De ex-actores a ex-yale fraternity boys – agora é a vez de um businessman bem sucedido. Será? E o que diz este homem de negócios que chega de forma tão aconchegante a tantos americanos?

Vai proibir a entrada de Muçulmanos nos EUA; vai construir um muro na fronteira entre os EUA e o México para evitar que exportem os seus problemas de drogas e preguiça latina; vai repatriar os refugiados sírios; vai ter mão de ferro com os chineses e com as suas práticas comerciais injustas; só se interessará pela Líbia se os EUA conseguirem ficar com petróleo deles; e tanto mais… É esta a voz de Donald, a voz da América profunda e extensa – mas será que no silêncio da noite o fantasma do medo e da insegurança não se apoderam um pouco também de nós?

Nada de novo se recordarmos Martin Niemoller: “Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era social-democrata. Quando vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era sindicalista. Quando vieram para os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era judeu. Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém para me ajudar.” Que ganhe a Hillary!