Mónica Dias

Professora Universitária

Professora e Coordenadora do Programa de Doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Especialista em Política Norte-Americana e Estudos da Democracia.

“Sign of the Times”

A campanha presidencial nos EUA tem regras e costumes muito diferentes das eleições na Europa, pois fundamenta-se numa cultura política bem distinta. Grande parte da incompreensão europeia em relação ao sucesso de Donald Trump baseia-se neste desconhecimento. Contudo, se olharmos mais atentamente, podemos ver como estas eleições espelham tendências políticas muito semelhantes dos dois lados do Atlântico – e como os EUA representam uma “máquina amplificadora” de fenómenos económicos, sociais e culturais latentes do nosso tempo. Neste sentido, o actual debate americano pode ser observado como um importante barómetro político do mundo em 2016.

Em primeiro lugar porque revela a crise em que as Democracias liberais se encontram hoje. E mesmo que se entenda aqui “crise” não como algo negativo, mas literalmente como uma necessária re-avaliação ou um re-ajustamento a exigências de um momento de grande transformação, a verdade é que o desaparecimento de linhas de orientação claras e a consequente incerteza sentida gera insatisfações, solta receios e potencia conflitos. Como Larry Diamond o explica bem, para além das já citadas ameaças externas, a Democracia liberal (americana) enfrenta tensões internas muito difíceis porque tem de saber gerir conflitos e criar consensos, tem de garantir a representação de todos e assegurar mesmo assim a governabilidade, por fim, tem ainda de conseguir o maior consentimento possível, mas não pode abrir mão da eficiência e da sua capacidade de concretizar as políticas esperadas – e, acrescente-se, tudo isso ao vivo e em directo via lifestream e twitter. Também a erosão da confiança no sistema económico ocidental e na própria ideia do Estado soberano, no qual as Democracias liberais se fundamentam, é um factor de relevância para entendermos esta crise. Neste cenário, temos ainda de considerar os fluxos migratórios de uma dimensão inaudita. E a um plano internacional emergem modelos políticos alternativos que reclamam para si maior eficiência, representatividade e até um maior sucesso económico.

Como já aconteceu no passado, uma resposta fácil e hiper-assertiva a estes problemas complexos é muitas vezes um novo nacionalismo que assenta, no entanto, nos velhos esquemas do populismo. Isto é bem visível na campanha dos EUA, seja de um ou do outro lado da barricada – mas não só. O mesmo fenómeno é perceptível na Europa expandindo-se até à Turquia e à Rússia (que aproveita e apoia descaradamente os movimentos nacionalistas europeus), mas também a outras regiões do mundo. A afinidade das campanhas nacionalistas reconhece-se sobretudo em cinco mecanismos básicos: primeiro, na utilização da memória e da reinvenção do “mito da nação” (“make America great again“); segundo, numa proposta anti-sistema, sem indicação clara sobre um modelo alternativo, e que se sustenta, em terceiro lugar, no culto de um líder forte (“the boss“), cuja suposta autoridade se confunde com arbitrariedade capaz mesmo de anular tanto uma “rule of engagement” como a “rule of law“; quarto, na exploração do tema da insegurança (e na construção de inimigos) e quinto, no aproveitamento da política como espectáculo. Enfim, a tabuada da propaganda no seu melhor. Atiçada pelo medo e pela esperança.

Em tempos de incerteza as eleições ganham-se precisamente com a bandeira do medo ou da esperança. Ambas estas forças não têm substância em si, atuam no campo das expectativas e tanto podem ser encorajadoras, como perigosas, mas ambas representam poderosas estratégias de mobilização. Os fantasmas do passado século XX que nos revisitam hoje venceram pelo medo. Contudo, não podemos esquecer que esse mesmo século também nos trouxe “grandes almas” que venceram pela esperança. Através dos séculos, as eleições nos EUA foram muitas vezes disputadas assim. Muito recentemente, Obama venceu pela esperança. Trump aposta no medo. Ainda é cedo para vislumbramos qualquer resultado e, neste Verão quente de 2016 tudo será possível. Mas há já uma certeza: a Democracia americana fundou-se desde sempre numa sociedade civil forte com hábitos e costumes de liberdade, solidariedade e participação política consagradas na Constituição. E esta Constituição ancorada na ideia “we the people” tem uma vitalidade singular. Já passou por guerras civis, guerras mundiais e guerras perdidas, pela guerra-fria e o terrorismo. Conheceu líderes mais ou menos (in)vulgares, depressões e movimentos sociais intensos. A tudo isso soube ajustar-se e por tudo isso tornou-se sempre mais forte e manteve-se uma referência global. Será, assim, de um enorme interesse analisar como os EUA vão reagir agora aos sinais do nosso tempo.