Made in America

Sim, o Donald também pode!

Isto, minhas senhoras e meus senhores, são os Estados Unidos da América e a razão pela qual são conhecidos – aqui tudo é possível se acreditarmos o suficiente, se trabalharmos arduamente e se formos perseverantes.

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Ana Ventura Miranda é Directora do Arte Institute

O Presidente Barack Obama relembrou ao povo americano que “Yes, we can!” –  “Sim, nós podemos!”. Esta frase que se tornou o símbolo da sua campanha presidencial, condensa na forma perfeita o espírito americano.

Ao fim de uma década nos Estados Unidos, seria no mínimo ingénuo da minha parte, não ter pensado que Donald Trump poderia estar exactamente onde está agora: como candidato do Partido Republicano contra os Democratas para ser o trigésimo quinto Presidente dos Estados Unidos da América.

Toda a gente se ria, quando eu dizia que estavam a subestimar o potencial de um discurso como o de Trump, que ele não estava a falar para a “nossa América Nova Iorquina”, que não era esse universo e estados como este que podiam simbolizar o povo americano, uma vez que aqui o mundo se mistura com o contributo de todos nós. Hoje já ninguém ri. Sente-se uma real apreensão e ninguém arrisca palpites, porque realmente não sabemos o que vai acontecer. Isto, minhas senhoras e meus senhores, são os Estados Unidos da América e a razão pela qual são conhecidos – aqui tudo é possível se acreditarmos o suficiente, se trabalharmos arduamente e  se formos perseverantes.

Se me perguntam se eu acho que Donald Trump achava que chegaria aqui no inicio da candidatura… honestamente, não acredito. A verdade é que ele já chegou aqui e agora é o lado vencedor dele que vai instintivamente lutar, tentar agarrar esta oportunidade com unhas e dentes. Chegado aqui, como homem de negócios implacável que é, não vai jogar para perder.

Voltando um pouco atrás, como é que Trump conseguiu passar estas fases todas? O que foi que se subestimou neste Donald?

Donald Trump tinha os meios financeiros para garantir a sua própria campanha, era o “bobo da corte”, o que lhe deu tempo de antena em todos os medias, não tinha nada a perder e podia dizer tudo o que lhe apetecesse. Foi exatamente isso que fez, igual a ele próprio, e foi, pelos vistos, sucesso.

O seu discurso enaltece os valores americanos mais enraizados e patrióticos e vai directo ao coração do América profunda e do americano de classe baixa – média, que obviamente vota.

As suas afirmações polemicas deram-lhe ainda mais palco. E aqui o Senhor Trump tem muito a agradecer aos jornalistas. Tentaram fazer dele a piada, mas a piada virou-se contra eles. Quanto mais palhaçada Donald fazia, mais se falava nele, mais corria o espetáculo, mais o povo americano o via entrar pelo seus televisores. E se calhar este povo americano, que também vota, que se mobiliza para os comícios para agitar as bandeirinhas, não quer pensar profundamente no que o candidato diz. E nisto tudo, Donald Trump começou a ser familiar, e a verem-no constantemente na televisão a falar para eles e numa linguagem que eles entendem sem grande esforço. Ele até vai devolver a América ao povo americano!?! O show que ele cria é espetacular, é vivo e energético. Não nos esqueçamos que este é o país do show business!  Tudo é espetáculo! E ninguém bate o Donald nisso!

A adicionar a isto tudo, há ainda o facto de não haver realmente uma figura carismática que lidere o partido Republicano numa direcção, a conjuntura que se criou no país e a aparente saturação do povo americano relativamente ao poder estabelecido em Washington e por ultimo mas fundamental,  a candidata democrata que cria zero empatia com muitos dos americanos. Hillary Rodham Clinton é sem duvida a mais bem preparada de todos os candidatos, a mais experiente, mas não tem, nem nunca terá a empatia que o seu marido tem naturalmente e que o torna tão próximo do eleitorado.

Esta é muito sumariamente, a meu ver, a conjuntura da campanha de um candidato que entrou na corrida presidencial como um “entertainer” e acaba como o candidato que irá defrontar Hillary Clinton, uma política de mão cheia que se preparou uma vida toda para este cargo.

Aqui está a beleza dos Estados Unidos da América: tudo é realmente possível – e o seu reverso – até mesmo Donald Trump poder vir a ser presidente.

Se Trump será bem sucedido no fim da campanha, não sei. Sei que vivi a era Obama, sei a emoção que senti nos últimos dias antes, durante e depois das eleições, no discurso de tomada de posse…uma sensação do coração nos explodir dentro do peito porque ele nos inspirava a ser mais, sermos melhores, acreditarmos…”Yes, we can!”- “Sim, podemos!”…Respirava-se por toda a cidade, nos rostos das pessoas, queríamos poder votar, só para saber que também tínhamos contribuído para eleger aquele homem…….ainda hoje quando falo nisto as lágrimas correm-me aos olhos e inspiro uma força única de que nada nos poderá parar, que vamos conseguir mudar o jogo, o mundo, o que for a que nos proponhamos. “God Bless America” só por nos permitir sentir isto!

No entanto… isso é valido para todos, inclusivé para Mr. Trump. Infelizmente, “Yes, Donald also can!” Sim, oh sim, o Donald também pode!