Miguel Ferreira da Silva

Director da Comissão para o Estudo e Estratégia da Governação do Mar

Especialista em Segurança, Defesa e Política Internacional, foi representante português no Africa Center for Strategic Studies e adido político na embaixada de Portugal em Washington.

Hillary: a Diplomacia como continuação da Guerra por outros meios

As primárias não são, tradicionalmente, o palco maior dos debates sobre política externa americana. Mas estas não são umas primárias tradicionais.

Deixemos, por agora, as contradições dos comentários de Trump sobre o tema. Já todos percebemos que, sem melhor conhecimento, Donald se refugia numa alegada postura isolacionista para, logo de seguida, advogar intervenções militares de larga escala, abandonando – entre comentários – os aliados históricos.

Entre a grandiloquência destes fait divers, certa é já a falta de massa cinzenta especializada no mercado: Trump não pode dizer “You´re fired” pela simples razão de que não há conselheiros de política externa disponíveis no “mercado”. A equipa de Hillary Clinton fez um take over amigável à generalidade destes peritos. São muitos, mesmo, mesmo muitos, os peritos que em Washington estão ligados, ou se deixaram ligar, a estruturas mais ou menos informais de aconselhamento da campanha de Hillary em matérias de política externa. Uns por reconhecerem o único ambiente onde podem ter um debate intelectualmente aceitável, outros já com os olhos num qualquer cargo de nomeação, quase todos se abrigam à sombra da antiga Secretária de Estado.

Curiosamente, a candidata – embora reafirme a cada oportunidade as suas credenciais e experiência no palco internacional – nem por isso transforma o tema numa bandeira principal (nem secundária) das primárias. Uma simples consulta ao website da campanha de Clinton demonstra à saciedade a limitada exposição e publicidade do manancial de papers que a sua estrutura de campanha recebe sobre o tema.

Como excepção notaram-se, nas últimas semanas, algumas intervenções de fundo (em pelo menos dois discursos) a temas de política externa. Nestes percebemos uma hesitação, se não ambiguidade: Clinton é um falcão, e por isso militarista; mas a candidata sabe que o eleitorado que a pode eleger está cansado de enviar soldados americanos para guerras longínquas.

A sua classificação como falcão – na conhecida dicotomia americana entre doves and hawks – é um dado histórico comprovado. Como é público, Clinton apoiou a intervenção no Iraque, o aumento das forças americanas no Afeganistão e manutenção destas no Iraque. Apoiou também o treino de rebeldes sírios (e respectivo equipamento), tentado mesmo influenciar Obama no sentido de uma acção militar na Síria. Mais significativa será a sua alegada tentativa de, enquanto Secretária de Estado, pressionar o Presidente no sentido de uma intervenção americana directa na Líbia.

Ainda assim, afirma a candidata que o “seu” caminho é de evitar dispendiosas intervenções militares com soldados americanos no terreno, e privilegiar uma liderança da política internacional baseada no smart power.

Hillary explica o que entende por smart power quando o classifica como “escolher a combinação certa de ferramentas – diplomáticas, económicas, militares, políticas, legais e culturais – para cada situação”. E desengane-se quem vê aqui uma postura favorável à negociação, nas palavras da própria a intervenção da administração Obama na Líbia (formalmente intervenção da NATO, mas na qual boa parte das capacidades militares necessárias foram disponibilizadas pelos EUA), que ela influenciou contra a opinião do então Secretário da Defesa, foi um “exemplo do smart power no seu melhor”. Ou seja, fazer sem aparecer. Mas fazer!

A sua já assumida postura – de apoio incondicional a Israel (na pessoa do primeiro ministro que humilhou Obama); o apoio contido ao Acordo com o Irão, imediatamente seguido de anúncios do seu cepticismo e determinação em impor sanções, ou mesmo aprovar acções militares, em caso de incumprimento; intenção de intensificar a intervenção na Síria; e a sua “estratégia” não só contra o Estado Islâmico, mas também contra a Al Qaeda e Al Shabbab – apenas reforçam uma análise que já se publica em círculos mais progressistas:

“Ela, de má vontade, reconheceu que a diplomacia é por vezes a única forma de evitar o conflito. Mas em vez de afirmar uma clara preferência pela diplomacia em vez da guerra, ela descreveu a diplomacia essencialmente como outra arma no arsenal de Washington”.

É certo que Hillary tem destacado o papel de aliados em cada região, é também certo que afirmou relutância em enviar soldados americanos para novas guerras, mas nunca disse que não as travaria de outra forma.

Não foi só Hillary quem, enquanto Secretária de Estado, “ajudou” um alegadamente inexperiente Obama. Hillary aprendeu com Obama um novo estilo tecnológico do exercício da função de Comandante em Chefe.

Bill mostrou-lhe, com a Jugoslávia, como liderar a guerra empurrando os aliados, e assim afirmar o poder americano ultrapassando esforços embrionários de coordenação autónoma entre europeus (datam da época as primeiras tentativas sérias, ainda que lentas, de uma acção comum de Defesa Europeia).

Bush mostrou-lhe, com o Iraque, como legitimar a guerra empurrando os aliados para uma “coligação de vontades”.

Barack mostrou-lhe, com o uso de drones, como fazer a guerra cirúrgica sem soldados nem aliados. Resta, contudo, uma necessidade táctica de Operações Especiais, porventura uma prioridade para a futura Comandante em Chefe.

Falta agora saber o que Bernie lhe pode ensinar sobre multilateralismo não beligerante. Mas a conhecida posição de Hillary no apoio à capacitação (militar) de um “governo eleito” da Líbia, faz antever a tentação de “resolver Benghazi” pelos meios de sempre.