Fogo Cruzado

“A importância de Portugal para os EUA aumentou”

Robert Sherman fez carreira como advogado em Boston e esteve na defesa de centenas de vítimas de pedofilia dentro da Igreja Católica. Em 2008 fez parte da equipa que levou Barack Obama à presidência. Está há dois anos em Portugal - que diz ser um país cada vez mais importante para Washington.

Eram 8h30 quando Robert Sherman recebeu a SÁBADO na residência oficial do embaixador dos Estados Unidos em Portugal. O pretexto da entrevista eram as eleições americanas – das quais tem a visão de quem já andou no terreno. Mas o diplomata aceitou abordar ainda o actual momento das relações entre Portugal e os Estados Unidos (EUA), bem como recordar a sua participação no que ficou conhecido como o “Caso Spotlight”, de pedofilia na Igreja.

Há seis meses alguma vez imaginou que Donald Trump iria conquistar o Partido Republicano e que Hillary Clinton demoraria tanto a obter a nomeação?
Esta é claramente uma eleição invulgar. Ninguém previu o sucesso de Donald Trump. Mas isto é indicativo da fractura política que existe nos EUA. As pessoas estão a juntar-se fora dos grupos tradicionais, nas redes sociais, em redor de assuntos específicos em vez de assuntos gerais. Bernie Sanders falou de desigualdade social e conseguiu atrair um grupo de pessoas no Partido Democrata que estão realmente preocupados com o facto de os salários não aumentarem há 15 anos. Nos republicanos podemos ver Donald Trump como um reflexo de pessoas que são anti-governo. Essas pessoas preferem qualquer pessoa que seja fora do governo a alguém de dentro.

Os americanos parecem irados.
Uma eleição primária é sobre paixões. Os candidatos estão a apelar às bases do partido. Uma eleição geral é diferente. Primeiro, não elegemos presidentes pelo voto popular, elegemo-los Estado a Estado. Não prestem atenção às sondagens nacionais, olhem para as sondagens dos 10 ou 12 swing states, onde a eleição vai ser decidida. Em segundo, uma eleição geral é menos sobre paixão e mais sobre quem apresenta uma visão para um país em que queremos viver. Agora acho que vamos ver as dinâmicas da corrida mudar.

Se estas primárias têm sido tão diferentes, o que lhe diz que as eleições gerais não serão também?
Na verdade não sabemos. O que diria é que se as regras normais da política continuarem a aplicar-se, podemos esperar que a decisão nas eleições gerais será mais calma e deliberada do que nas primárias. Não acho que a campanha vá ser diferente: não podemos mudar a personalidade dos candidatos. A retórica será muito incisiva, sobretudo no lado Republicano

Esperava-se que as primárias fossem uma coroação para Hillary . Mas um senador de 75 anos apareceu a atrair a atenção do eleitorado jovem. Como explica isso?
Foi bom para o Partido Democrata que não tenha sido uma coroação. Os americanos esperam que os candidatos mereçam a nomeação. Fiz parte do processo em 2008, desde o início, e é um caminho longo, cruel e difícil. Quando Barack Obama surpreendentemente ganhou o caucus do Iowa, todos esperavam que ele ganhasse New Hampshire altura em que – diziam – teria derrotado Hillary Clinton. Quando ela ganhou, um observador político veterano ligou-me e disse: “acredita, isto foi a melhor coisa que aconteceu a Barack Obama. Ter de merecer a nomeação”. Depois, uma eleição geral é um referendo ao futuro. Um dos obstáculos de Hillary é que as pessoas a conhecem há 25 anos. Bernie Sanders, apesar dos 75 anos, é uma cara nova. E fala de assuntos que uma geração de eleitores vê como importantes para o futuro.

Se tirasse os super-delegados da equação, a desvantagem entre os dois não seria tão grande.
O sistema democrata foi pensado para ser um equilíbrio. A maioria dos delegados são eleitos pelo povo. E, como representa o partido, o establishment reflecte-se nos super-delegados: senadores, membros do congresso, etc.

Isso não é uma forma de manter o controlo?
Não. Basta olhar para 2008. A expectativa era que Hillary Clinton fosse a nomeada. Mas apareceu uma cara nova, com Obama, e os super-delegados apoiaram-no com base na sua performance nas primárias. Diria que é bastante democrático.

Bernie Sanders terá força para impor as suas causas na convenção democrata?
Ele terá um número considerável de delegados. O seu desejo é que os seus assuntos não sejam esquecidos. Penso que terá uma voz, como deve ter.

Seria um bom candidato a vice-presidente?
Isso cabe a Hillary Clinton decidir. Pode-se dizer que tem estado muito bem nas primárias e caso seja ou não nomeado vice-presidente, se quiser terá uma voz na política americana no futuro.

No lado republicano a pergunta é: o que aconteceu?
Foi uma surpresa. O que Donald Trump fez – quando havia cerca de 16 candidatos – foi obter um grupo apaixonado de apoiantes anti-governo e isolacionistas. Não é muito diferente do que vemos na Europa com o crescimento dos partidos de extrema-direita, que tendem a defender o fecho das fronteiras e exploram alguns medos num mundo que não é particularmente seguro.

À medida que os outros candidatos desistiam, não vimos uma transferência dos votos para candidatos mais moderados. Alguns foram para Trump.
Em parte foi porque nunca houve uma alternativa. Houve sempre várias. A matemática jogou a favor de Donald Trump. Se houvesse só uma alternativa o resultado podia ser diferente.

Qual foi a importância dos média nestas primárias? Culpa-os por terem dado tanto tempo de antena a Donald Trump que ele não precisou de gastar dinheiro em anúncios?
Todos concordam que Donald Trump é um génio do marketing. Sabe como chamar a atenção. Foi isso que ele fez. Em muitos aspectos os média não esperavam que ele chegasse tão longe. Acharam-no uma curiosidade e deram-lhe atenção, como dão às Kardashians. Depois descobriram que a sua mensagem chegava a um segmento do eleitorado. Os média acharam que ele seria interessante por um tempo e desapareceria para passarem à cobertura séria.

Podemos prever uma campanha baseada no medo? No lado Democrata o medo de Donald Trump e, no lado Republicano, o medo de tudo o resto?
Será parte da campanha. Mas não será sobre isso. Os americanos votam mais na pessoa que reflecte os seus valores do que em posições e currículos. O povo americano defende a inclusão e tolerância. O desafio no lado Republicano será descobrir como Donald Trump pode defender esses valores que tendem a prevalecer na eleição geral. No lado Democrata, Hillary Clinton tem de chegar ao eleitorado como uma voz para o futuro. Alguém que pode liderar os EUA nos próximos quatro ou oito anos. É menos sobre medo e mais sobre valores.

O resultado das eleições terá algum impacto na relação entre Portugal e os EUA?
Se Donald Trump resolvesse mudar a política em relação à NATO, e estou a basear-me apenas nas suas afirmações, sim, teria impacto.

A importância de Portugal para os EUA tem diminuído?
Não, acho que aumentou. A tendência tem sido olhar para a presença americana nas Lajes como um barómetro da importância estratégica de Portugal para os EUA, independentemente do que lá estava realmente a acontecer. O uso da base diminuiu e não era preciso tanto pessoal. Ao mesmo tempo, os EUA realinharam as suas forças com base num mundo em mudança. Reduzimos a presença militar na Europa de 500 mil tropas para 60 mil. Queremos ser mais pequenos, flexíveis, móveis e estar próximos da acção para que quando apareça um problema no Médio Oriente ou em África, podermos lá chegar rapidamente. A questão com as Lajes não é uma indicação de que Portugal tem menos importância estratégica. O comando da base diz que se há uma coisa que não podemos mudar no mundo é a geografia. Não sabemos o que o futuro nos reserva.

A prova disso é que o tráfego aéreo nas Lajes em Abril cresceu devido à necessidade de rotação das tropas.
Sazonalmente, em Abril, temos muitos aviões em trânsito. São rotações standard. E as nossas forças, juntamente com as portuguesas, conseguiram lidar com todo o tráfego.

Há pessoas a serem contratadas.
O governo regional estava preocupado com a possibilidade de alguém perder o emprego involuntariamente e foi dada a possibilidade às pessoas de se reformarem, se quisessem. No final tivemos 70 empregos adicionais que estamos a publicitar.

Voltando à relação…
Nós não determinamos a relação estratégica entre dois países com base num elemento. O mundo é muito complicado para os EUA serem o polícia e temos de agir com os nossos aliados e a primeira escolha vem sempre da Europa. Em 2014 o número de compromissos militares entre Portugal e os EUA era cerca de 12. Em 2015 foram mais de 80. Em vez de diminuir, aumentámo-los.

Porquê?
Com base nas capacidades dos militares portugueses. Quando algo acontece na África ou no Sul da Europa, os nossos Marines trabalham muito com os Fuzileiros. Porquê? É fácil trabalhar com eles, as comunicações funcionam porque todos falam inglês e são soldados bons e duros. Tal como a Marinha. As pessoas ouvem muito nos media sobre o quanto custaram os submarinos portugueses. Mas não sabem como eles são capazes. Outro exemplo é o Golfo da Guiné, uma zona importante e perigosa onde há terrorismo, pirataria, tráfico de droga e humano. Esses assuntos não ficam lá, seguem para África e para o flanco Sul da Europa. Os portugueses têm mais conhecimentos do que quaisquer outros e estamos muito interessados em ver Portugal a tomar a liderança na segurança marítima no Golfo da Guiné. Os EUA estão comprometidos em apoiar essa iniciativa estratégica. Um último exemplo muito importante: a cibersegurança. Há fortes capacidades em Portugal nesta área e em 2017 vai abrir um centro de ciber-treino da NATO, em Oeiras.

Foi essa necessidade de obter informações sobre o Golfo da Guiné que levou os EUA a quererem que Portugal abrisse uma estação do Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa em Washington?
No que toca aos serviços de inteligência, em que estamos empenhados na troca de informações com os portugueses, seja fisicamente em Washington ou não, a forma de mantermos o mundo seguro é através da troca de informações robusta com os nossos aliados na Europa. Temos tido conversações com os portugueses para termos um oficial de ligação no nosso Comando Africano e outro no Exército. Isso faz parte de uma estratégia de parceria com algumas nações para a segurança do mundo. Essas relações com Portugal estão cada vez mais fortes.

Havia uma tradição de o governo português consultar informalmente o “amigo americano” quando se preparava uma nomeação para a liderança dos serviços. Essa tradição mantém-se?
Não sei. Não cabe aos EUA decidir quem é o líder da comunidade de informações. Portugal tem um líder forte no director [Júlio] Pereira.

Como é que os EUA vêem o investimento chinês em Portugal e em regiões estratégicas em África? Preocupa-vos?
Desde que os chineses compitam numa base comercial justa, tem direito a fazer investimentos onde quiserem. Ter competição comercial é uma coisa boa. A questão não é como os EUA vêem a ligação da China, é como Portugal vê os seus laços com a China. De um ponto de vista de transacções comerciais, compreendemos isso.

Enquanto advogado, participou no chamado caso Spotlight, de pedofilia dentro da Igreja Católica. Consegue recordar esses tempos?
Tinha estado envolvido em casos anteriores. Durante muito tempo estas pessoas pensaram que eram as únicas vítimas. Quando o Boston Globe começou a publicar os artigos, elas perceberam que havia outros e sentiram-se confortáveis em avançar. Muitas vieram ao meu escritorio para as representar.

Já representava algumas delas?
Tinha representado. Estavam à procura de alguém que os pudesse compreender. Acho que acabámos por representar 380 das 525 vítimas. Foi dos casos mais difíceis que já tive. Fizemos arbitragens entre 1 de Novembro e 15 de Dezembro de 2003. Dessas, fiz 90 pessoalmente, cerca de duas por dia. E chorei todos os dias. Não é um exagero. Chorei. A destruição das vidas das pessoas por causa dos abusos era tão grande que era impossível não ficar pessoalmente afectado.

Como lidou com isso?
Foi difícil. Não me podia esquecer de que tinha um trabalho para fazer. Mas não conseguimos separar o nosso trabalho da nossa humanidade. Quando o caso terminou não quis ter nada a ver com livros ou filmes. Emocionalmente tinha passado um tempo difícil e traumático.

Manteve contacto com as vítimas?
Sim. Um dos porta-vozes, Gary Bergeron, ligou-me pela primeira vez na sexta-feira Santa de 2002. Todos os anos ele me liga no aniversário do nosso encontro. É só um exemplo.

Qual a sua opinião do filme?
Há uma razão para ter ganho como melhor filme e não melhor documentário. Muitas personagens são compostas, não é historicamente correcto, mas conta a história global muito bem. Os heróis foram de facto os jornalistas que expuseram uma situação terrível na Igreja.

É católico?
Não. Mas depois de o caso acabar o então arcebispo de Boston, Shean O’Malley (actual cardeal e conselheiro do Papa Francisco), fez uma missa especial para as vítimas. Ele queria que as vítimas que foram alienadas da Igreja tivessem uma forma de voltar, se quisessem. Fê-lo longe da atenção dos media e convidou um advogado: eu. A primeira ocorreu no terceiro domingo do advento e manteve-a uns anos. O arcebispo oferecia comunhão às vítimas e, não sendo católico, seria para mim inapropriado recebê-la. Então ia ao altar receber uma bênção especial.

Entrevista publicada originalmente na edição 633 da revista SÁBADO.