Cristiano Cabrita

Investigador

Doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais, é Investigador no CIEP – Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e autor do livro O Neoconservadorismo e a Política Externa Norte-Americana, que será publicado brevemente

Clinton vs Trump: o (não) debate

No dia 4 de Julho de 1776, há precisamente 240 anos, as treze colónias atlânticas da América do Norte declaravam a sua independência da Grã-Bretanha. Num plano global, a Declaração de Independência denunciava a governação tirânica existente no outro lado do Atlântico. Uma passagem – pela importância do seu significado – tornar-se-ia inolvidável: “Consideramos que estas verdades são evidentes, que todos os homens nasceram iguais, que foram dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis que entre esses estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.”

Onze anos depois, a Constituição dos Estados Unidos da América – discutida e aprovada pela Convenção Constitucional de Filadélfia, na Pensilvânia, entre 25 de Maio e 17 de Setembro de 1787 – teria como preâmbulo a seguinte redacção: “Nós, o Povo dos Estados Unidos, a fim de formar uma União mais perfeita, estabelecer a Justiça, assegurar a tranquilidade interna, prover a defesa comum, promover o bem-estar geral, e garantir para nós e para os nossos descendentes os benefícios da Liberdade promulgamos e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos da América.”

O documento seria assinado, entre outros, por um jovem delegado da Virgínia que tornar-se-ia, em 1789, o primeiro Presidente dos Estados Unidos: George Washington.

A propósito de Washington, na semana passada tive a oportunidade de ouvir as considerações de dois especialistas em matéria de democracia: Marc Plattner do National Endowment for Democracy e o reputado professor e historiador Timothy Garton Ash, da Universidade de Oxford. Das suas intervenções retive dois pontos. Plattner, abordando precisamente o percurso do primeiro Presidente dos EUA, relembrou os inúmeros perigos que hoje em dia existem nas interpretações (erradas) que são feitas quando se sublinha as diferenças entre um “patriota” e um “nacionalista”. Washington era um patriota porque as suas ações tinham como objetivo salvaguardar sempre o interesse mais alto do país. Outros – referindo-se a Trump – são o arquétipo de um “nacionalismo maligno” baseado no ódio para com os demais. Da mesma maneira, Garton Ash considerou Trump como um fenómeno “anti-liberal” cujo único mérito foi piratear a liberdade de expressão em terras do uncle sam.

Ou seja, ambos uniram-se em torno de um ponto em comum: o profundo desprezo pelas ideias defendidas por Donald Trump que vão contra as preocupações expressas na Declaração de Independência e que serviram de alicerce político e moral dos princípios basilares da futura nação norte-americana. Aceitar o populismo radical de Trump significa rejeitar a essência da entidade nacional dos EUA.

Não me identifico, já o disse, com o embuste ideológico que o candidato republicano conseguiu impingir aos norte-americanos pois, entre outras coisas, chamar-lhe conservador é efectuar uma amputação ideológica sobre o que é na realidade o conservadorismo, em particular o americano. Não me revejo no seu populismo fascista, racista e xenófobo. Mas adiante. Creio que neste momento a preocupação principal deve centrar-se no eleitor norte-americano e, inevitavelmente, na sua escolha suprema: Donald Trump ou Hillary Clinton.

A seriedade da decisão irá determinar muita coisa e isso implica responder a uma questão central: a campanha eleitoral será profundamente esclarecedora para os norte-americanos? Ou seja, no dia 8 de Novembro os milhões que se deslocarem às urnas farão uma escolha responsável e elucidada? Sinceramente, não acredito. Por excesso ou por defeito, nem Trump nem Clinton terão – salvo uma mudança radical na estratégia das respectivas campanhas eleitorais – capacidade para estar à altura das exigências. E as razões são várias.

Em primeiro lugar, não creio que existirá um grande debate de ideias. Trump, de forma hábil e maquiavélica, já aprendeu a dominar os media através de um plano de comunicação bem elaborado. Não se discute política. Discute-se, isso sim, chavões sensacionalistas que o façam aparecer na capa dos jornais e na abertura dos noticiários um pouco por todo o mundo. Qual é o interesse em debater o Estado social ou a economia se um comentário racista contra os mexicanos tem uma maior cobertura mediática? Obviamente que não existe. Veja-se o recente e polémico Tweet de Trump que retrata Clinton como a candidata “mais corrupta de sempre” ilustrando o desenho com uma pilha de dinheiro e a Estrela de David. Discute-se agora a sua conotação neo-Nazi e anti-Semita. Clinton caiu na armadilha e vai alimentando a fogueira insurgindo-se como pode através de ataques pessoais no Twitter ou noutra qualquer rede social. O problema é que esta luta impede que se debata os verdadeiros problemas políticos.

Nesta gladiar de personalidades, Clinton tem arregaçado as mangas e recentemente conseguiu um importante apoio de 125 milhões de dólares através do Super Pac (um comité supostamente “independente” que pode receber donativos ilimitados) para spots publicitários que ajudem a denegrir a imagem de Trump. Talvez por isso, todas as sondagens elaboradas até ao momento sejam esclarecedoras: estamos perante os candidatos presidenciais mais impopulares desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A escolha não terá por base as suas políticas, mas sim as suas personalidades. É extraordinário pensar no que está acontecer nos EUA mas é tão simples como isto. E se os democratas não podem ouvir falar em Trump, e se Hillary é um alvo a atingir por parte dos republicanos, o que é um facto é que Clinton continua, porém, a granjear mais apoio no seio dos democratas do que Trump entre os republicanos.

Em segundo lugar, não creio que Clinton ganhará as eleições facilmente nem considero que será – se ganhar – uma grande Presidente. A democrata tem do outro lado da barricada um mutante ideológico que assenta o seu raciocínio num melting pot fascista/nacional-socialista. Trump é um produto dos novos tempos relacionado com a grave crise que a democracia atravessa nas sociedades liberais do ocidente.

À semelhança do que acontece na Europa, esta fragmentação político-ideológica das sociedades modernas criou lastro para que a demagogia populacionista de Trump se propagasse. Contudo, Trump desempenha o seu papel com sucesso. Pelo contrário, Clinton parece não conseguir responder com objetividade na medida em que tem um (grave) problema. Isto é, não consegue passar de forma clara a sua mensagem política. Trump é o radical, populista e demagogo. Sanders é o tipo que conseguiu dar luta a Clinton com uma mensagem simples e direta conquistando, por exemplo, grande parte do eleitorado jovem democrata. Por sua vez, a candidata democrata é inócua e estranhamente conservadora. Conservadora no sentido em que continua a seguir uma política centrista – imagem de marca do seu marido, Bill Clinton, e de Barack Obama. Conservadora porque o seu discurso é politicamente correto porquanto visa apoiar todos os direitos e mais alguns: os direitos de voto, os direitos civis, os direitos das mulheres, os direitos da comunidade LGBT, os direitos dos portadores de deficiência e os direitos da classe média. Enfim, tudo o que seja direitos já se sabe que Clinton está lá para os defender. A dificuldade é que a transversalidade da sua política é tão grande que a sua mensagem não chega aos potenciais eleitores. Por outro lado, quando consegue ser objetiva não arrisca sair da sua zona de conforto tipicamente democrata – por exemplo, defesa da saúde; regularização dos imigrantes clandestinos e apoio à educação.

A questão é que face aos problemas económicos que o país atravessa estas linhas de orientação não encontram receptividade nos partidários de Sanders e de Trump (e Clinton precisa deles para ganhar as eleições). O exemplo mais evidente está na crítica que fez e faz às medidas protecionistas dos seus opositores destinadas a salvar a classe média norte-americana. Todavia, não adianta medidas concretas para travar os efeitos nefastos que a globalização teve na economia dos EUA. Se os norte-americanos ainda lhe dão o benefício da dúvida em temas relacionados com a política externa e segurança interna, em termos económicos revelam uma grande desconfiança sobre a sua orientação política. Os EUA precisam de soluções concretas para problemas concretos e é essa mensagem que a ex-secretária de Estado não consegue – infelizmente – concretizar. Donald Trump até pode não ter currículo político; até pode ser caracterizado como um milionário excêntrico que, à semelhança de alguns dos seus negócios, vai levar o país à falência. Contudo, tem um toque de Midas que falta a Clinton: o saber mobilizar, envolver, sensibilizar, arrebatar. A Clinton falta-lhe o carisma de Obama e falta-lhe, sobretudo, ser mais agressiva na clarificação das medidas económicas que pretende implementar. Não basta dizer que vai aumentar os salários da classe média, é necessário explicar como é que o vai fazer. Mais grave: não tem o discurso expectável de um Presidente. Se ganhar as eleições será mais por defeito do candidato republicano do que por mérito da sua candidatura. Do meu ponto de vista, a ex-secretária de Estado terá que dar um novo rumo à sua campanha se quiser ser eleita com legitimidade suficiente para exercer um mandato com pouca contestação. A boa notícia é que ainda vai a tempo de inverter a situação. Esperemos.