Mónica Dias

Professora Universitária

Professora e Coordenadora do Programa de Doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Especialista em Política Norte-Americana e Estudos da Democracia.

Incendiários

Há alguns dias um ilustre americano e democrata convicto residente em Lisboa confessava em tom jocoso que se sentia muito satisfeito com o “Brexit”. Perante a surpresa dos seus interlocutores apressava-se a explicar que, desde o dia 23 de Junho, se sentia mais aliviado porque as pessoas tinham finalmente parado de lhe fazer perguntas sobre Donald Trump.

Esta pequena piada no início de uma Conferência sobre a “Democracia e os seus Inimigos” no âmbito do Estoril Political Forum do IEP remete-nos para uma questão curiosa e que merece alguma reflexão: em que medida é que os acontecimentos políticos na Europa influenciam as eleições alegadamente tão auto-centradas dos EUA? Ou mais precisamente: será que o Referendo sobre a saída da Grã-Bretanha da União Europeia tem ou terá algum efeito (colateral) sobre a campanha norte-americana?

Tendo em conta os argumentos fortes e a disputa fervorosa que tantas paixões invocou nas ilhas britânicas, poderíamos pensar que a vitória do “Brexit” viesse a incendiar a campanha de Trump. Afinal, havia muitas semelhanças entre o estilo de Donald Trump e de Boris Johnson, dois excentricos e auto-proclamados “outsiders”, em cruzada contra o “establishment” (a que desde sempre pertenceram) e representando segundo uma ideia muito particular/pessoal de “democracia pura” os marginalizados, os injustiçados e os inconformados. Apesar de Johnson se ter distanciado várias vezes de Trump, é inegável que os seus discursos se sobrepunham no cunho populista das soluções radicais para as grandes questões políticas do presente, das respostas nacionalistas para os desafios de um mundo complexo e globalizado e do isolacionismo taxativo para qualquer ameaça externa, fosse ela de cariz económica ou de segurança – confundindo ambos tacita e perigosamente terrorismo e emigração, patriotismo e religião. Poderíamos esperar, assim, uma vaga incendiária a partir do “Brexit” até à eleição de Trump. Só que depois da vitória do Brexit tudo mudou. Tudo parou.

Confrontados com os factos (consumados) da saída da Grã-Bretanha da UE, os protagonistas mais convictos desta campanha ficaram subitamente sem convicções. Na verdade, as novas orientações anunciadas como claras e óbvias, pareciam agora mais difusas e levaria provavelmente mais tempo a encontrar um novo Norte. Para além do mais, aqueles que tanto e de tão viva voz tinham apregoado uma saída “limpa”, tinham agora coisas mais interessantes por fazer. Para os apoiantes de Boris (ou Nigel), o “day after” foi tudo menos aquilo que esperaram: Amargamente descobriram que o “magic” Johnson era, afinal, apenas um ilusionista.

Quando olhamos com atenção para as últimas três semanas deste espectáculo britânico, destacam-se algumas evidências políticas que são, talvez, universais e intemporais – e que podem representar por isso mesmo uma boa lição para os eleitores americanos.

Em primeiro lugar, é curioso observar como os mais fervorosos comandantes do Brexit – mas também do referendo – sairam de cena. Uns abandonaram o barco (e os seus passageiros) no meio da tempestade, sem pudor e sem qualquer sentido de responsabilidade. Outros foram afastados ou lançados ao mar, mais uma vez sem pudor ou qualquer misericórdia. Digno de Shakespeare.

Em segundo lugar, ficou claro que não há para as nossas sociedades complexas num mundo interdependente respostas simples, nem há soluções nacionalistas realmente sustentáveis. Os processos políticos envolvem sempre negociações e implicam períodos de ajustamento mais longos. E são geralmente conduzidos por moderados e pragmáticos. Aqueles que têm visões, deveriam consultar um médico (como já o sugeriu sabiamente o chanceler alemão Helmut Schmidt em 1980). E inversamente são precisamente os outros, os que se mantêm calmos e procuram dia após dia as pequenas respostas para as exigências concretas que acabam por avançar e fazer avançar (para recordar também uma sabedoria britânica).

Em terceiro lugar, reconhecemos como a Democracia continua a ser – desde o tempo de Platão – um grande palco para a demagogia. Mas também continua a ser o melhor mecanismo para denunciá-la, para expor a mentira e para corrigir (ou auto-corrigir) continuamente os seus erros e defeitos.

Esperemos assim que os eleitores americanos possam reparar neste “estudo de caso” britânico. E que possam perguntar-se agora mais seriamente o que faria Donald Trump no dia a seguir a uma hipotética vitória. Iria construir um muro? E esse muro iria realmente impedir todo um fluxo migratório? Iria expulsar todos os muçulmanos? E essa expulsão iria realmente por fim ao terrorismo e à criminalidade? Por fim, como seria o seu discurso no dia a seguir? Muito provavelmente, o tom incendiário daria lugar a uma declaração bem comedida sem nada ao certo dizer. Seguir-se-ia depois compromisso atrás de compromisso até à entrada na Casa Branca e finalmente um pacto de sobrevivência com o sistema do Capitólio. Ou inversamente uma saída de cena espectacular por falta de paciência e coragem para as regras exigentes da Democracia (“rule of law”, “checks and balances”, etc.) – que são naturalmente adversas aos incendiários. Num caso ou noutro, ficaria uma nação em chamas. Poque é esse e só esse o rasto dos incendiários.