Nuno Garoupa

Professor universitário

Professor Catedrático de Direito na Universidade do Texas A&M e Investigador da Católica Global Law School, a sua área de investigação é Direito e Economia e Direito Comparado. Fez o doutoramento em Economia na Universidade de York.

Serão Relevantes os Libertários?

 

O mês de Julho foi o mês as convenções. Trump foi aclamado na convenção dos Republicanos no Ohio (apesar das muitas histórias que circularam sobre um qualquer volte-face que só existia na mente da comunicação social de esquerda) e Clinton na convenção dos Democratas na Pensilvânia. Podemos dizer que ambos candidatos presidenciais escolheram companheiros à sua direita. Trump foi buscar Mike Pence, governador do Indiana desde 2013, homem do Tea Party e com uma imagem conservadora claramente mobilizadora do eleitorado mais radical. Já Clinton acabou por indicar Tim Klaine, senador pela Virginia desde 2013 e antigo governador do mesmo estado, moderado e católico, um rosto da ala direita dos Democratas. Desse ponto de vista foi uma desilusão para Sanders e a esquerda. Mas confirma aquilo que sabemos. O eleitorado americano virou à direita e as eleições são aí disputadas. É até possível que bastantes eleitores de Sanders acabem a votar Trump optando pelo discurso anti-establishment.

A irrelevância da esquerda nestas eleições presidenciais é, em parte, produto do sistema eleitoral. Vejamos os números. Segundo as sondagens, Clinton tem uma vantagem na casa dos 3-4%, estando nos 43-46% e Trump nos 40-42%. Em termos de lugares no colégio eleitoral, pode-se afirmar que Clinton tem 227 eleitores assegurados, Trump 191 eleitores certos e estão em disputa 120 eleitores. Ora os estados onde a esquerda é preponderante estão já nos 227 eleitores de Clinton. Mas os 120 eleitores em disputa são de estados onde o eleitorado democrata é bastante conservador e a esquerda tem pouca influência. Falamos da Flórida (29 eleitores), Pensilvânia (20), Ohio (18), Carolina do Norte (15), Virginia (13), Wisconsin (10), Colorado (9), Iowa (6).

A viragem à direita de ambas as candidaturas explica-se pois com o eleitor mediano nos estados relevantes nestas eleições. A isso junta-se o terceiro partido. Trata-se do Partido Libertário. Os seus candidatos são Gary Johnson, governador do Novo México (1995-2003) e William Weld, governador do Massachusetts (1991-1997), ambos antigos republicanos. Johnson obteve 1% em 2012, já então pelo Partido Libertário. Neste momento, as sondagens apontam para um resultado entre 5 e 8%, significativamente abaixo dos 11-13% de há três ou quatro semanas, mas ainda assim relevante (já a candidatura de Stein, pelos Verdes, não ultrapassa os 2% nas sondagens e é pouco importante nos estados em disputa).

Os potenciais eleitores de Johnson são fundamentais quer para Clinton, quer para Trump, principalmente nos estados em disputa. Na Pensilvânia, Clinton lidera por 5% com 45-40 e Johnson tem 7% na última sondagem conhecida. Na Carolina do Norte, Clinton vai à frente por 6% com 44-38 e Johnson também aqui tem 7% de intenções de voto. E, ao contrário de outros estados, tem crescido nas últimas sondagens. Já na Virginia, Clinton lidera com 5%, depois da escolha de Klaine, com 42-37 e Johnson aparece com uns notáveis 10% nas sondagens. No Ohio, Clinton avança Trump por 1% com 43-42 mas Johnson tem 6% de intenções de voto. Mas é na Flórida que as coisas se tornam ainda mais interessantes. A última sondagem aponta por um empate 42-42, com Trump em crescimento, e Johnson mantém-se nos 5%.

É pouco provável que a dupla Johnson/Weld consiga um resultado eleitoral tão bom como as sondagens ainda apontam. A bipolarização fortíssima que vai necessariamente acontecer, a campanha eleitoral muito suja e verbalmente violenta que vai ter lugar (a história de Putin e dos emails de Clinton são apenas o começo), a pressão da comunicação e das elites vai acabar por reduzir o Partido Libertário aos seus tradicionais 1%. Mas a questão é saber se os números que as sondagens apontam neste momento vão acabar por reverter a favor de Trump ou de Clinton. Pode bem ser a hora dos libertários.