Cristiano Cabrita

Investigador

Doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais, é Investigador no CIEP – Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e autor do livro O Neoconservadorismo e a Política Externa Norte-Americana, que será publicado brevemente

O Harakiri de Trump e a vitória dos Obama

Ao entrarmos na segunda quinzena de Agosto, a grande maioria das sondagens norte-americanas a nível nacional dá uma vitória a Hillary Clinton sobre Donald Trump com uma margem que oscila entre os seis/sete e os oito/nove pontos percentuais. Além disso, Clinton tem também uma clara vantagem nos denominados swing states, como a Flórida e o Ohio. Devo confessar que estes números surpreenderam-me pois esperava que a luta fosse mais acesa. No início de Julho, antes das convenções nacionais dos dois Partidos, escrevi aqui que era necessário que Hillary Clinton invertesse o seu discurso, tornando-o mais assertivo e, sobretudo, mais objectivo do ponto de vista político. Clinton estava a caminhar numa direcção errada e a sua equipa de assessoria teria muito trabalho pela frente. Na altura referi que Clinton ganharia as eleições mas com alguma dificuldade: “Se ganhar as eleições será mais por defeito do candidato republicano do que por mérito da sua candidatura”, foram as minhas palavras. O tempo deu-me razão num ponto. Hillary Clinton vai ser a próxima Presidente dos EUA mas, ao contrário daquilo que era a minha previsão, não terá grande oposição por parte de Trump. Do meu ponto de vista, as eleições já terminaram e o dia 8 de Novembro será apenas uma formalidade para os eleitores norte-americanos. Até porque, convém sublinhar, 35 estados permitem o voto prévio ou por correspondência antes da data da eleição presidencial. Ou seja, no limite, o processo eleitoral iniciar-se-á daqui a um mês, o que torna quase impossível inverter o momentum  negativo do milionário norte-americano.

É importante realçar que o actual contexto político deriva de um erro de avaliação político cometido pelo wildcard Trump. Mas vamos aos factos que nos guiaram até aqui.

No início de Julho, a minha análise baseava-se na forma como Trump tinha conduzido até aí a sua campanha eleitoral. Se bem que não concordasse, e não concordo, com a sua linha político-ideológica, a mesma conseguia “chegar” ao eleitorado. E isso em política era, e é, o mais importante. Não foi por acaso que arrasou com a maior parte dos restantes candidatos republicanos. E derrotou-os porque o eleitorado afecto ao Grand Old Party assim o entendeu, fruto essencialmente de dois méritos. Em primeiro lugar, do ponto de vista do marketing político esteve sempre muito bem, dominando os media com os seus discursos e ideias provocatórias. Goste-se ou não, resultou. Consequentemente, gastou muito menos do que Clinton em matéria de publicidade nas rádios e televisões. Em segundo lugar, conseguiu passar a sua mensagem política para grande parte do eleitorado republicano, descontente com a sua condição social e económica, retirando espaço de manobra à crítica vinda da ala mais conservadora do partido republicano.

Talvez por isso, convém recordar, em finais de Junho, Hillary Clinton e Donald Trump estavam praticamente empatados numa sondagem nacional efectuada pela Universidade Quinnipiac. A meio do mês de Julho, alguns dias antes das convenções nacionais, os candidatos surgiam novamente empatados numa sondagem efectuada pelo The New York Times/CBS News. E, três dias antes de Trump obter a nomeação formal por parte do GOP, a diferença, embora favorável a Clinton, não ia além dos 4 pontos.

A capitalização deste processo de projecção do efeito Trump teve o seu ponto mais alto quando uma sondagem nacional lançada pela CNN, divulgada no dia 25 de Julho, revelava as novas intenções de voto: 44% para Trump e 39% para Hillary Clinton. Trump cavalgava no efeito positivo que a Convenção Nacional Republicana havia proporcionado e chegava ao topo da montanha lançando o medo e um conjunto de interrogações na América conservadora e nos parceiros internacionais. Como defendi na altura, a sua agressividade teria que “obrigar” Clinton a dar um novo rumo à sua campanha eleitoral. E a candidata democrata assim o fez. Escolheu Tim Kaine para vice-presidente – mais ao centro; próximo do eleitorado moderado; com posições anti-aborto, mas a favor do casamento homossexual, e, muito importante, próximo do eleitorado latino. Trouxe para a campanha eleitoral – numa jogada brilhante mas com contornos próprios que terei oportunidade de explicar mais à frente – os Obama. E, finalmente, conseguiu o apoio de Bernie Sanders e do seu vasto eleitorado, elaborando uma espécie de proposta para um programa de Governo virado à esquerda – aumento do salário mínimo; incentivos fiscais aos patrões que paguem acima da média e ofereçam benefícios aos trabalhadores; ensino universitário público gratuito para estudantes com rendimentos anuais inferiores a 110 mil euros; fecho das prisões privadas e abolição da pena de morte, entre outros.

O que fez Trump a seguir às convenções nacionais? Cometeu um (inusitado) Harakiri.  Propositado? Não creio. Talvez assustado com a dinâmica imposta por Clinton e que se cimentou durante a Convenção nacional Democrata – a consequência imediata foi a subida de Clinton nas intenções de voto com a CBS News a divulgar, no dia 1 de Agosto, uma vantagem da democrata na ordem dos sete pontos percentuais – procurou radicalizar ainda mais o seu discurso no sentido de afirmar, a todos os níveis, as suas ideias. O problema é que não resultou.

Com efeito, depois de tanto trabalho, o milionário suicidou-se politicamente ao ultrapassar uma linha que muitos imaginavam ser impossível de transpor perdendo, naturalmente, apoios dentro do Partido Republicano. Uma série de disparates cometidos num espaço de apenas três semanas ditou o seu destino; o não apoio de Ted Cruz; o plágio do discurso de Michelle Obama por parte da sua mulher, Melania Trump; o incentivo que fez aos hackers russos para que infiltrassem o e-mail de Hillary Clinton e o facto de, a propósito da defesa da Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos (direito de usar armas), ter insinuado que Hillary Clinton (opositora deste direito constitucional) talvez merecesse levar um tiro foram, seguramente, falhas graves. O escândalo de corrupção na Ucrânia envolvendo o seu agora ex-director de campanha, Paul Manafort, também não ajudou. Mas o grande erro, a meu ver, foi agredir um pilar da sociedade norte-americana: o respeito pelos veteranos de Guerra. Ao atacar os pais de um soldado americano e muçulmano de origem paquistanesa morto durante a guerra do Iraque e ao criticar o senador John Mccain (ex-candidato presidencial, herói de guerra e prisoneiro durante a guerra do Vietname), selou o seu destino. Quem conhece a maneira de pensar dos norte-americanos sabe que todas as forças políticas respeitam o sacrifício prestado pelos ex-combatentes.

Em desespero, Trump tem vindo nos últimos dias a moderar o seu discurso anti-migração e procura agora uma aproximação aos eleitores hispânicos e afro-americanos. Mas é minha convicção que já não terá muita margem de manobra até porque Gary Johnson, o candidato presidencial do Partido Libertário, também tem vindo a subir nas sondagens podendo vir a ser importante – tendo em conta a maior dispersão de votos – em estados onde as votações sejam muito próximas.

Nota Final. Além de Hillary Clinton, estas eleições presidenciais tiveram outros dois grandes vencedores: Barack e Michelle Obama. A campanha que o actual presidente norte-americano está a fazer por Hillary Clinton é digna de nota. Não sendo inédita (outros presidentes em exercício já o haviam feito) saltou à vista – numa altura extremamente decisiva – a forma abnegada como Obama defende – ultrapassando divergências do passado – as ideias políticas de Clinton. Até parece que está na sua própria campanha eleitoral tal a energia que dispensa nesta luta. Mas tudo tem um preço e Obama, parece-me, estabeleceu o seu. Qual foi? Perante Clinton e o aparelho partidário Democrata, Obama obrigou a uma viragem de holofotes para a sua mulher, Michelle Obama. O discurso de Michelle não passou despercebido e não teve nada de inocente. Foi ponderado, alinhado e estruturado com um objectivo muito simples: começar a preparar o seu futuro político. Assistimos, arrisco-me a dizer, ao início da candidatura presidencial de Michelle Obama. Resta saber se é para 2021 ou 2025.