Tudo em aberto

Agosto claramente não correu bem a Trump. Caiu nas sondagens. A média das últimas sondagens indica uma vantagem para Clinton na ordem dos 7%, bastante acima dos números publicados em meses anteriores. Em termos de estados importantes, as coisas complicaram-se para Trump em Ohio (agora 4% abaixo de Clinton), Florida (3% abaixo de Clinton) e Virgínia (13% separam agora os dois candidatos, fundamentalmente graças à escolha centrista de Clinton para a vice-presidência).

Mas convenhamos que está tudo fundamentalmente em aberto. Ambos os candidatos são personagens tão idiossincráticas que imprevisibilidade é a palavra chave nestas eleições. E apesar de Clinton ter uma clara vantagem, Trump tem conseguido recentrar atenções nas políticas mais controversas como imigração e segurança interna. E tudo sempre temperado com os habituais escândalos, desde os correios eletrónicos de Clinton (do seu tempo nos Negócios Estrangeiros) ao financiamento das campanhas eleitorais e os negócios dos diferentes “lobbies” que envolvem ambos os partidos.

Do ponto de vista do eleitorado, as grandes questões estão ainda por perceber uma vez que as sondagens são extremamente inconclusivas. À direita, conseguirá Trump mobilizar os eleitores conservadores que não gostam do seu estilo e ideias (por exemplo, da deportação em massa dos imigrantes ilegais ou do muro na fronteira com o México) e preferem a candidatura libertária (que mantém uns importantes 8% nas sondagens nacionais)? À esquerda, conseguirá Clinton convencer os eleitores de Sanders a votarem nela? Uma percentagem significativa do eleitorado jovem anti-establishment pode acabar a votar no populismo de Trump, mas possivelmente em estados onde o efeito prático é marginal. Ao centro, quantos eleitores ficarão em casa, rejeitando a demagogia de Trump, mas também fartos das histórias mal contadas de Clinton e da corrupção de Washington? Possivelmente só na manhã de 9 de novembro, o “day after” das eleições, será possível perceber como estes diferentes segmentos do eleitorado vão decidir.

A campanha presidencial será longa e suja. Ambos os candidatos, para ganhar, necessitam de aglomerar uma coligação heterogénea de votos. O discurso do adversário-diabo é bem mais eficaz e compromete menos. A discussão de políticas prejudica as coligações porque é impossível agradar a todos. Assim, naturalmente, Clinton pede o voto para evitar um Trump presidente e Trump pede o voto contra o establishment representado por Clinton. Prevê-se que a campanha se concentre no acessório e no perfil dos candidatos e passe ao lado das políticas públicas.

Depois há cenários para todos os gostos. No Utah há possibilidade de uma candidatura local ganhar os seis delegados do Estado (a última sondagem dá 22% a este candidato contra 25% de Clinton, 38% para Trump e 14% do candidato libertário). Um resultado semelhante pode acontecer no Idaho, estado que elege quatro eleitores (aqui temos, neste momento, Clinton com 23%, Trump com 44% e a candidatura local com 30%). Se assim acontecer (seria a primeira vez desde 1968 que haveria representação de um terceiro candidato no colégio eleitoral) podemos ter um colégio eleitoral sem uma maioria absoluta e a eleição acabaria no Congresso (a Câmara elege o Presidente e o Senado elege o Vice-Presidente), uma grande confusão.

E temos sempre a possibilidade de Trump recusar as regras do jogo. Por exemplo, não aceitar os resultados da eleição argumentando que foram viciadas pelo “establishment” e pelos “lobbies” em Washington. Ou experimentar até ao limite as convenções constitucionais do bipartidismo. Trump é homem para isso e muito mais. Daí que, sendo o resultado eleitoral ainda imprevisível, surpresas certamente não faltarão.