Made in America

Donald Trump e a Comunidade Portuguesa da Califórnia

Não acredito que a comunidade da Califórnia esteja em sintonia com Donald Trump. Se o estiver, temo que estará, certamente, a fugir de si própria.

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Diniz Borges é professor e Cônsul Honorário de Portugal em Tulare, Califórnia

É fácil fazer-se generalizações. Quase sempre são incorretas, baseiam-se em falácias e perigosas para conversas e debates sérios e coesos. Daí que quando ouço: os portugueses da Califórnia são todos apologistas de Donald Trump, fico arrepiado e consternado. Primeiro porque é incorreto e isso é grave; segundo, porque se fosse verdade dizia muito mal de quem somos como povo. A outra generalização absurda que se ouve, ainda há poucos anos por uma pseudolíder da nossa comunidade, é: os portugueses da Califórnia são todos conservadores. Mais um paralogismo feito porque, infelizmente, achamos que como portugueses somos todos iguais e feitos da mesma moldura e porque muitos luso-americanos têm um conhecimento extremamente rudimentar da sua cultura. Aliás, dizer-se que os portugueses são todos conservadores é não conhecer a história do nosso povo, a nossa ligação aos valores da justiça social implementados em cada um de nós pelo catecismo. Há portugueses de todas as tendências políticas e se houve alguma viragem à direita, em alguns setores das nossas comunidades, e houve, deve-se em parte às vicissitudes do nouveaux riches. A cultura portuguesa, mesmo a cultura portuguesa em terras americanas, que nunca foi, nem nunca será estática, está repleta de princípios basilares que não têm nada em comum com a atual ideologia conservadora, muito menos com a bombástica, xenófoba, cruel e desrespeitadora atitude do magnata nova-iorquino. Mais, para uma comunidade maioritariamente açor-descendente, praticante do culto do Espírito Santo, presente em cada uma das nossas ilhas e nas comunidades das Américas, Donald Trump é a antítese desse culto.

Segundo o “census” de 2010,  na Califórnia, dos então 17,5 milhões de eleitores recenseados, 86 mil identificaram-se como sendo de origem portuguesa. Desses, 36.137 estão recenseados como democratas, 26.809 como republicanos e 23.347 como independentes. Sabe-se, segundo todos os inquéritos e estudos que os independentes, no momento do voto tendem votar no Partido Democrático ou em pequenos partidos. Na Califórnia, os números indicam que cerca de 70% dos independentes votam à esquerda. Portanto, os números refutam, como sempre, todas as afirmações generalistas e simplistas que se fazem, umas vezes por insipiência, outras por maleficência. A verdade é que a maioria dos californianos de origem portuguesa tendem a votar em candidatos do Partido Democrático. E mesmo os ligados ao Partido Republicano, nem todos são apoiantes de Donald Trump, começando pelos próprios candidatos ao Congresso de origem portuguesa no Vale de San Joaquim.

Do lado Democrata temos o veterano Jim Costa. Um amigo da nossa comunidade e amigo pessoal há muitos anos. O congressista Costa tem defendido a multiculturalidade americana e os contributos que todos os emigrantes têm feito para este país.  Ainda recentemente recusou, publicamente, a ideia de construir paredes e o principio de banir emigrantes para os Estados Unidos por motivos religiosos. Obviamente por ser apoiante de Hillary Clinton, Jim Costa, que antes de ser Congressista foi legislador estadual durante 24 anos, conhece bem o seu distrito, no qual 4 em cada 10 eleitores são latinos, daí não perder uma única oportunidade para se debruçar sobre a história americana como uma história de imigrantes, de apoiar a reforma do sistema de imigração dando aos cerca de 11 milhões de indocumentados a oportunidade de se legalizarem e continuarem a viver e contribuir para o sistema americano. Durante a convenção do Partido Democrático em Filadélfia, num painel sobre a ruralidade americana, Jim Costa que representa uma das zonas com a maior produção agrícola no país e onde se vê placards com a frase “Farmers for Trump—Agricultores com Trump” fazendo uma alusão direta a esses placards disse: “se pensam que Donald Trump sabe o que é plantar e cuidar de colheitas, estão certamente a ver outra pessoa e não Donald Trump.”

O seu opositor, o mesmo que teve há dois anos, Johnny Tacherra, que é de origem portuguesa, com o nome de Teixeira, mudado para Tacherra, especula-se por razões fonéticas, e muito menos em sintonia com os valores da sua herança cultural do que Costa, não tem feito muitas afirmações sobre Trump. O seu diretor de campanha, também luso-descendente, Lee Neves, foi citado pelo Los Angeles Times como tendo dito que a candidatura de Trump é positiva para o seu patrão e positiva para o Vale de São Joaquim, afirmando, numa narrativa que se poderá interpretar como fantasia ficcional, que os “latinos do vale são mais conservadores.” A campanha de Tacherra é famosa por em dezembro de 2015 ter feito um jantar de angariação de fundos tendo como prémio de porta uma arma de fogo. O distrito tem uma população na ordem de 712 mil pessoas, 424 mil hispânicas e17.174 eleitores de origem portuguesa, ou seja 2,4%. Por sinal o distrito com maior número de portugueses.

Mais a sul, no vigésimo-segundo distrito, onde vivo há quase cinco décadas, temos o jovem congressista e meu amigo pessoal Devin Nunes. Um líder no Partido Republicano a nível nacional, com influência na actual liderança conservadora na Câmara dos Representantes, Devin Nunes, tem uma das reeleições mais fáceis. No ato eleitoral de 2014 ganhou com 71% dos votos e em 2012 com 61% dos votos. Segundo números do “census” é um distrito com uma população na ordem dos 739 mil habitantes dos quais 435 mil são latinos e 12.125 de origem portuguesa. Os anglo-saxónicos representam 42% da população, os latinos 44%, os asiáticos 7.3%, os afro-americanos 2,8% e os descendentes dos portugueses, 1,8%. No distrito de Devin Nunes, sobejamente conhecido nos Açores pela sua liderança na questão da base das Lajes, 44% dos recenseados são republicanos, 33% democratas e 23% independentes. Apesar de recentemente ter organizado, com apoiantes de Donald Trump uma visita do candidato a Tulare, para um almoço privado em que o preço do bilhete oscilava entre os 2700 e os 25 mil dólares, dando para os cofres da campanha do magnata mais de um milhão de dólares, o Congressista luso-descendente, que apoia o candidato republicano não o tem feito com muito entusiasmo. Devin Nunes, um jovem com pouco mais de 40 anos, tem já mais de uma dúzia de anos de experiencia politica em Washington, faz parte do sistema do partido e sabe muito bem que uma colagem a Trump poderá provocar, num distrito cada vez mais hispânico, se não a curto, pelo menos a médio prazo, alguns dissabores.

Em pleno contraste a Devin Nunes está o seu colega republicano, o congressista David Valadão que em Julho deste ano distanciou-se completamente de Donald Trump. Filho de emigrantes da ilha Terceira, de uma família conhecida e respeitada na nossa comunidade, é o único dos três congressistas que é fluente em português. David Valadão, disse numa conferência de imprensa que não apoia o candidato do seu partido à Presidência. Separou-se de Trump, afirmando que não pode apoiar um candidato com um discurso tão inflamatório e uma retórica altamente divisionista. Acrescentou que não votará por nenhum dos candidatos, nem Trump, nem Clinton, não se sabendo se votará por um candidato de um terceiro partido politico ou se não votará, o que não é bom indicador democrático, particularmente para quem é Congressista. Para uma entidade publica o apelo ao voto em branco é, no mínimo, problemático.

O distrito de David Valadão é composto por 712 mil pessoas, 520 mil das quais latino-americanas, apenas 11.910 são de origem portuguesa ou seja 1.8%. Apenas 20 mil pessoas possuem um curso universitário e a zona tem dados socioeconómicos bastante preocupantes. O distrito, para além de ser altamente hispânico tem tendência democrática, com 47% democratas recenseados, 33% republicanos e 20% de independentes. David Valadão cedo percebeu que para ter qualquer hipótese neste acto eleitoral teria que distanciar-se de Donald Trump. É mais do que óbvio que o fez por razões políticas, mas espera-se que também o tenha feito também pela sua herança cultural e a história pessoal de uma família imigrante.

Ao entrarmos na fase final da campanha presidencial nos Estados Unidos da América, uma campanha sem precedentes, motivada pelo ódio, o espirito vil e denegridor de Donald Trump, é provável que ainda mais uma vez, nos queiram colocar todos no mesmo saco político. Para quem não se interessa com factos é fácil dizer-se que todos os portugueses e luso-descendentes da Califórnia são conservadores. É mais ou menos como dizer-se que todos os açorianos se perdem por touradas à corda, quando elas existem em basicamente uma ilha, com casos esporádicos em mais duas ou três.  As generalizações são sempre perigosas e quase sempre falaciosas.  Vemo-las precisamente nas afirmações quotidianas de Donald Trump.

A realidade é que dos votantes recenseados na Califórnia, que se identificam como sendo de origem portuguesa, 42% identificam -se como democratas, 31% como republicanos e 27% como impendentes. E acredito que dos 31% que são republicanos, alguns meus amigos, há muitos que não se identificam com a antítese da açorianidade e da portugalidade representada na xenofobia, no racismo, na arrogância, no desrespeito pela dignidade humana e nos assaltos aos princípios do catecismo que todos aprendemos em criança e que são, infelizmente para a sociedade americana e para o mundo, emblemas da campanha de Donald Trump.

Não acredito que a comunidade da Califórnia esteja em sintonia com Donald Trump. Se o estiver, temo que estará, certamente, a fugir de si própria.