Nuno Garoupa

Professor universitário

Professor Catedrático de Direito na Universidade do Texas A&M e Investigador da Católica Global Law School, a sua área de investigação é Direito e Economia e Direito Comparado. Fez o doutoramento em Economia na Universidade de York.

Too close to call

A cinco semanas da eleição do dia 8 de Novembro, não sabemos quem será o vencedor. Depois do debate, Clinton recuperou ligeiramente de um Setembro horrível mas Trump não perdeu popularidade. As últimas sondagens apontam para uma vantagem de dois a três pontos quer a nível nacional, quer nos estados fundamentais (Colorado, Florida, Carolina do Norte, Pensilvânia e Virgínia). Apesar de Clinton ter ganho o debate entre os indecisos, tudo aponta a que não capitalizou o suficiente e a eleição continua too close to call. É mesmo duvidoso que os próximos dois debates tenham qualquer efeito prático neste possível empate.

Mas se não podemos descartar ainda nenhum resultado, há já uma coisa que é evidente. A previsão feita por muitos analistas em Junho e Julho de que seria uma eleição fácil para Clinton, um passeio na avenida, perante um Trump sem credibilidade e sem votos estava profundamente errada. Claro que há sempre quem confunda os seus desejos com a realidade. E, desta vez, não se pode dizer que a comunicação social europeia (particularmente a portuguesa), prisoneira dos seus preconceitos de centro-esquerda, não tendo capacidade para entender o eleitorado americano, subestimou o fenómeno Trump. A ideia de uma vitória fácil e por larga margem de Clinton foi ventilada pela própria comunicação social norte-americana, principalmente aquela que mais se vai lendo na Europa.

A premissa errada foi querer entender esta eleição como uma escolha clássica e unidimensional esquerda-direita. Se Clinton faz o centro e Trump nem o pleno dos republicanos consegue mobilizar, então o universo de votantes de Clinton deve rondar os 2/3 enquanto Trump estará no 1/3. Mesmo que uma parte do eleitorado de Sanders fique em casa ou vote na candidata da esquerda mais radical, e outra parte do eleitorado conservador prefira a abstenção ou vote no candidato libertário, os números supostamente seriam claros. Para mais, Stein (Verdes) não consegue passar dos 2% enquanto Johnson (Libertário) tem vindo a consolidar os seus 8% (aliás parece subir um pouco mais sempre que comete uma gaffe, primeiro não sabia o que era Alepo, mais recentemente sobre o governo terrorista da Coreia do Leste). Todos os lideres democratas, incluindo Sanders, juram apoios a Clinton enquanto todos os dias há novos lideres republicanos (incluindo a família Bush) a proclamar que não votarão Trump. Portanto, na dimensão esquerda-direita, esta eleição deveria ser bastante fácil para Clinton. Mas não é.

A complexidade desta eleição deriva de uma segunda dimensão relevante, o voto a favor ou contra o establishment, o voto pela mudança ou pelo status quo. Segundo todos os estudos de opinião, cerca de 2/3 dos americanos querem mudança e apenas 1/3 se diz satisfeito com os atuais equilíbrios políticos. Ora é nesta dimensão que Trump tem uma enorme vantagem sobre Clinton. Trump representa mudança. Ninguém sabe que tipo de mudança, não há um programa coerente de mudança. Mas há mudança. Na linguagem, no estilo, na abordagem. Clinton, por muito que os seus apoiantes se esforcem, é a candidata do establishment. E representa o pior do establishment. Uma carreira de mais de trinta anos em Washington, com todos os compromissos e as cumplicidades inerentes, perseguida por vários escândalos em matérias sensíveis, exposta pelas inevitáveis mudanças de opinião de quem anda nas televisões há três décadas, simplesmente não consegue ser o rosto de qualquer mudança.

Consequentemente, se Clinton ganha na dimensão esquerda-direita e Trump ganha na dimensão mudança-status quo, a eleição torna-se imprevisível. E o resulto final dependerá de como cada candidato consiga mobilizar os diferentes grupos da sociedade americana. Clinton não pode perder votos entre as minorias (por exemplo, o voto afroamericano não pode falhar, mas as sondagens indicam que uma parte poderá abster-se como fazia tradicionalmente antes da eleição de Obama) e tem que evitar que o eleitorado jovem de Sanders prefira Trump pelo discurso anti-establishment (as sondagens posteriores ao debate indicam que ainda não foi convincente junto deste segmento). Trump precisa do voto branco com grau universitário (que, neste momento, está muito disperso entre a abstenção e Johnson) e atrair mais votos de Sanders. As estratégias são claras. Veremos no dia 8 de Novembro quem foi mais eficaz.