Made in America

Um Namoro Perigoso

Seria bom para a América que o racismo e a xenofobia que o Partido Republicano tem namorado ficasse, depois da derrota de Trump, completamente enterrado

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Diniz Borges é professor e Cônsul Honorário de Portugal em Tulare, Califórnia

Desde a administração do Presidente Richard Nixon que o Partido Republicano, o GOP, como é popularmente conhecido, tem vivido uma cumplicidade com os elementos mais racistas da sociedade americana. Convivendo com as forças mais retrogradas da sociedade, como partido dos mais reaccionários, sem parecer reaccionário, como o partido dos ultranacionalistas, sem dar muito nas vistas, os barões e os pensadores do Partido utilizaram um sistema sobejamente conhecido no campo das ciências sociais nos EUA como o “Southern Strategy” a estratégia sulista. Um plano que resultou. O partido de Abraham Lincoln congregou os segregacionistas do Sul, antigos democratas que abandonaram este partido depois de Lyndon Johnson ter promulgado as leis dos direitos civis, que deu igualdade aos afro-americanos e estabeleceu a paridade nos EUA. O país da liberdade que havia, durante séculos, discriminado contra a população negra. Os republicanos tornaram-se no fórum inato para os nativistas e os descontentes com as oportunidades para todos. Foi uma aposta, duvidável a longo prazo, é certo, mas a curto e médio prazo, tem resultado. Até aparecer Donald Trump.

Neste ciclo eleitoral tudo mudou. Os barões do Partido Republicano, mesmo os que se dizem apoiantes do magnata de Nova Iorque, estão extremamente preocupados com as violações constantes que Trump tem feito a uma lei básica, que apesar de não estar escrita tem sido uma vaca sagrada do movimento conservador pós Richard Nixon, ou seja: traz-se os racistas para o partido sorrateiramente, sem dar nas vistas. Trump, ultrapassou esta regra e transformou o racismo e a xenofobia no alicerce da sua campanha. Fê-lo abertamente, sem tapar o sol com a peneira, e conseguiu o maior número de votos jamais adquiridos, pelo menos na história moderna, em eleições primárias, no seio do Partido Republicano. Depois de andarem quase meio século a namorar os elementos mais extremistas da direita americana, as franjas do partido vieram para o centro e são neste momento, pela mão de Donald Trump, o cerne do GOP. Como referi, as eleições primárias provaram-no. 

Um dos mais conhecidos estudiosos das ciências políticas nos Estados Unidos, Michael Tester acaba de escrever numa análise feita à campanha de Donald Trump, na qual indica que apesar do elemento raça ser implícito na retórica republicana, apesar de uma grande percentagem de republicanos se identificarem com princípios racistas, ostensivamente não votem com base nesses princípios. Tester é peremptório: a campanha de Donald Trump desmistificou o que os académicos Donald Kinter e Lyn Sanders cognominaram como a eterna tentação do Partido Republicano de utilizar apelativos implicitamente raciais para captar eleitores ultraconservadores sem evidenciarem, abertamente, qualquer racismo. Trump, inverteu a situação e explicitamente fez inúmeras afirmações contra grupos minoritários.

Mais, tal como já o afirmei, repetidamente, o que temo, em todo este processo e esta campanha é o ódio e o espírito vil que se anda a semear. Michael Tester, baseando-se em vários estudos académicos, mostra-nos que a mensagem de Trump tem tido eco em vários segmentos da população e que pela primeira vez em muitos anos, particularmente em relação às eleições de 2008 e 2012, o factor do racismo e da xenofobia têm sido elementos fulcrais que, por incrível que pareça, levaram muitos conservadores às urnas. Ninguém deve ficar surpreendido! Donald Trump é um homem dos negócios, um vendedor que conhece os seus clientes e cedo percebeu que estes seus fregueses queriam ressentimento cultural embrulhado em retórica nacionalista e insinuações racistas. Ao fazê-lo, como foi dito recentemente na televisão americana: Trump descortinou um elemento fundamental da política republicana dos últimos 50 anos. 

No meio de todo este rancor, animosidade e extremamente perigosa trajectória, há que salientar que mais tarde ou mais cedo isto aconteceria. O Partido Republicano tinha que detonar. As elites não podiam aguentar para sempre este namoro com a extrema-direita sem lhes dar o seu espaço. Os dirigentes do GOP são essencialmente libertários, ou seja: fazem sermões sobre as chamadas guerras culturais, mas o que lhes interessa são impostos baixos e governo limitado. Quer uma, quer outra, são políticas que não beneficiam a classe trabalhadora, independentemente da cor, raça ou religião, daí a importância do namoro com o racismo e a afirmação de narrativas culturais que, no seu íntimo não têm qualquer importância para as elites do Partido, mas mantêm o eleitorado entretido. Porém, essas referências racistas e narrativas políticas ultraconservadoras suplementaram a ideologia conservadora, porque sejamos honestos Trump não tem ideologia, não tem ideias e apenas conduz um comboio repleto de ódio. 

Há quem diga que com a nomeação de Donald Trump os republicanos têm uma oportunidade para corrigir a sua trajectória. Se é certo que a “estratégia sulista” a longo prazo permitiu a nomeação de Donald Trump, não é menos verdade que terá que terminar com o magnata de Nova Iorque. Se não acabar o Partido Republicano está condenado a entrar numa ruptura cultural com o resto do país. Daí que com cada semana que se passa, e apesar de alguns líderes proeminentes como Paul Ryan e Mitch McConnel continuarem a apoiá-lo e simultaneamente a distanciarem-se das afirmações bombásticas, outros republicanos, mais conscientes e menos oportunistas, abandonaram por completo o rosto do partido. George Will, um dos intelectuais mais mediáticos da direita americana, há muito que o demarcou. Todos os dias, há elementos que abandonam a campanha ou se demitem do partido. 

Para quem lê, com alguma regularidade, o que escrevo sobre o mundo político americano, sabe muito bem que não sou conservador. Nunca escondi onde me situo na esfera política. Porém, o movimento conservador tem uma rica tradição intelectual no mundo americano. Os liberais, e o país, beneficiam imenso das colisões entre as ideias da esquerda e da direita. Entretanto, o que vivemos actualmente nesta campanha com Donald Trump, como o dirigente do movimento conservador, não é uma luta ideológica ou um debate político sério e coeso, o que vivemos são guerras culturais, baseadas num espirito vil que empobrecerá a América. 

Há quem diga que o Partido Republicano não chegará à Casa Branca em Novembro deste ano. Apesar de Hillary Clinton ter uma clara vantagem nas sondagens, relembro que em termos políticos um mês poderá ser uma eternidade. Porém se não chegarem, é importante que utilizem a derrota de Trump para refazerem a sua ligação à América de hoje. A denominada guerra cultural acabou. Como foi dito algures: a política adapta-se à cultura e não a cultura à política. O país já há algum tempo que falou. A batalha legislativa foi ganha pelas forças progressistas. O Partido Republicano terá que readaptar-se se quiser ganhar eleições nacionais.  

Nas mãos de Donald Trump, o actual Partido Republicano, é um movimento anti-intelectual que mais cedo ou mais tarde ficará extinto porque não está em sintonia com o resto do país. Seria bom para a América que o racismo e a xenofobia que o Partido Republicano tem namorado ficasse, depois da derrota de Trump, completamente enterrado. Só assim o movimento conservador entrará no século XXI e só assim a América continuará consistente com os seus verdadeiros ideias.