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Duas visões antagónicas do futuro da América no último debate entre Clinton e Trump
Mais política, menos polémica. Os candidatos defenderam posições claras sobre questões concretas: imigração, economia, política externa, etc. No final, porém, Trump recusou dizer se aceitará o resultado da eleição
Foi o debate em que se discutiram opções políticas durante mais tempo, em vez de ataques pessoais em torno de escândalos sexuais antigos, mas provavelmente vai ficar marcado por dois gestos controversos de Trump: insultou Clinton, chamando-a de “nasty woman [mulher suja]”, e recusou dizer se vai aceitar o resultado da eleição. Sim, questionado sobre se aceitará o resultado, o magnata respondeu da seguinte forma: “Eu vou olhar para isso na altura. Vou manter-vos em suspenso.” Não é a primeira vez que Trump sugere que poderá não aceitar o resultado da eleição, sobretudo nas últimas semanas em que tem insistido nas acusações de que a eleição está a ser falseada – pelos democratas, pelos meios de comunicação social, por uma “conspiração de interesses especiais globais,” entre outros alegados responsáveis pela queda de Trump nas intenções de voto. “Isso é horrível,” qualificou Clinton. “Estou chocada que alguém que é o nomeado de um dos maiores partidos assuma essa posição.”
Apesar das várias trocas de acusações, nomeadamente quando Trump voltou a sublinhar que Clinton “é culpada de um crime muito, muito sério,” no que respeita ao caso da utilização indevida de um servidor de “e-mail” pessoal quando exerceu o cargo de Secretária de Estado, assistiu-se a um debate relativamente civilizado em torno das questões políticas pré-definidas. Eis um resumo das ideias essenciais:
Imigração
Clinton descreveu as posições de Trump como extremistas, realçando a sua promessa de construir um muro de separação na fronteira a sul entre os EUA e o México, pago pelos mexicanos. E lembrou a sua visita ao México, quando se “engasgou” perante o presidente mexicano, isto é, não assumiu publicamente a retórica agressiva que tem utilizado na campanha eleitoral. Já Trump acusou Clinton de querer conceder uma “amnistia” aos imigrantes ilegais e defender uma política de “fronteiras abertas,” criticando também a permissividade da Administração de Barack Obama. “Nós temos que ter fronteiras fortes, nós temos que manter as drogas fora do nosso país. Neste momento nós estamos a receber as drogas e eles estão a receber o dinheiro,” afirmou o candidato republicano. E acrescentou: “Nós temos alguns ‘bad hombres [homens maus]’ aqui, e nós vamos pô-los fora daqui”, numa clara referência a imigrantes mexicanos (ou hispânicos, no geral).
Supremo Tribunal
Não restam dúvidas: Trump pretende nomear juízes pró-armas (defensores do direito à posse de armas) e pró-vida (contra a legalização do aborto ou da eutanásia), enquanto Clinton será uma garantia no sentido contrário. Não obstante, a ex-Secretária de Estado surpreendeu ao declarar-se como uma defensora da Segunda Emenda da Constituição dos EUA que protege o direito a manter e portar armas, explicando que apenas tenciona restringir esse direito, invocando as “33 mil pessoas que morrem todos os anos por causa das armas.” Ou seja, Clinton defende uma “verificação rigorosa” do historial das pessoas, deixando implícito que o acesso a armas deve ser vedado em determinadas situações não especificadas. De resto, lembrou que Trump conta com o “forte apoio” e financiamento da National Rifle Association, o maior “lobby” pró-armas dos EUA. Quanto à legislação sobre o aborto, as posições de ambos também ficaram claramente definidas: Clinton é pró-escolha e Trump é pró-vida. A candidata democrata fez questão de invocar os “dramas pessoais” de mulheres que tiveram de abortar e defendeu que “o Governo não deve interferir nas decisões que as mulheres tomam.” Na resposta, Trump alertou: “Se avançarem com o que Hillary está a dizer, ao nono mês podem tirar o bebé do útero da mãe pouco antes do nascimento do bebé.”
Economia
A candidata do Partido Democrata surgiu mais bem preparada do que nos debates anteriores e, para neutralizar o discurso mais eficaz do adversário relativamente ao desequilíbrio das trocas comerciais dos EUA com a China, revelou que vários edifícios de Trump – desde logo o seu hotel em Las Vegas, cidade onde se realizou o debate – foram construídos com aço importado da China. “Ele deu emprego aos produtores de aço chineses e não aos americanos,” declarou Clinton, apontando a contradição do magnata que, ao longo da campanha eleitoral, tem referido insistentemente a necessidade de defender a indústria americana. “Lágrimas de crocodilo,” acusou Clinton. Por seu lado, Trump voltou ao mesmo argumento que já tinha utilizado nos debates anteriores e ao longo da campanha eleitoral: “Por que raio é que não fez isso nos últimos 15 ou 20 anos?” É a sua forma de desqualificar as propostas de Clinton, na medida em que exerceu vários cargos públicos e poderia ter implementado essas políticas anteriormente. Nesse sentido, Trump acrescentou: “Uma coisa que tem a mais do que eu é a experiência, mas é uma má experiência.”
Política Externa
Clinton voltou à carga com as alegadas ligações entre Trump e Vladimir Putin, alertando que o magnata seria “um fantoche” do líder russo na Casa Branca. Ao que Trump respondeu que não conhece pessoalmente Putin e salientou que “ter boas relações” com a Rússia poderá ser “uma boa coisa.” O candidato republicano foi bastante enfático ao argumentar que “os aliados” dos EUA têm que pagar “a segurança” que lhes é providenciada. E referiu vários exemplos: Japão, Alemanha, Arábia Saudita, Coreia do Sul, NATO, entre outros. A esse nível, Clinton limitou-se a defender os vectores tradicionais da política externa norte-americana, enaltecendo a importância desses mesmos aliados.
