Nuno Garoupa

Professor universitário

Professor Catedrático de Direito na Universidade do Texas A&M e Investigador da Católica Global Law School, a sua área de investigação é Direito e Economia e Direito Comparado. Fez o doutoramento em Economia na Universidade de York.

Será Hillary Clinton a Dilma dos Estados Unidos?

A uma semana das eleições, tudo volta a estar em aberto. As últimas sondagens apontam para um empate a nível nacional, mas Clinton mantém uma clara vantagem no colégio eleitoral (provavelmente acima dos 300 eleitores, mas sem chegar aos 400). Neste momento, segundo as estatísticas do FiveThirtyEight, Clinton ganhará com uma probabilidade de 76%, enquanto Trump tem uma probabilidade de 24% (não confundir com intenções de voto). Há duas semanas, estas probabilidades eram 87% e 13%, respetivamente.

Pensemos, pois, que Hillary Clinton ganhará estas eleições de forma clara no colégio eleitoral, mas com uma votação nacional 2/3% acima de Trump. Provavelmente, será suficiente para dissuadir Trump de arrastar para os tribunais o resultado das eleições (como aconteceu com Bush e Gore em 2000). Mas, apesar da noite eleitoral ser sempre um clímax após uma campanha tão feia, a história não acaba no dia 8 de Novembro. Continua. E, com estes resultados, a continuação não vai ser muito agradável.

Uma margem de 2/3% é suficiente para uma vitória clara no colégio eleitoral, mas não para um mandato político sólido. Aliás, tudo indica um resultado muito semelhante a 2012: Obama com 51% e 332 eleitores, Romney com 47% e 206 eleitores; uma diferença de apenas 4%. Ou a 2004: Bush filho com 51% e 286 eleitores, Kerry com 48% e 251 eleitores; uma vantagem de somente 3%. Longe de outros resultados que deram mandatos políticos muito fortes – Obama versus McCain, em 2008 (7% de margem), Clinton versus Dole, em 1996 (9% de margem), Bush pai versus Dukakis, em 1988 (7% de margem), Reagan versus Mondale, em 1984 (18% de margem), ou versus Carter, em 1980 (10% de margem).

Haverá quem defenda que por um voto se ganha, por um voto de perde. Não num sistema presidencial. Não quando a eleita quer aplicar o seu programa político e precisa de um Congresso amável e colaborador. O atual Congresso, o 114º Congresso dos Estados Unidos, tem um Senado bastante dividido (54 republicanos, 44 democratas, 2 independentes) e uma Câmara de Representantes bastante hostil ao Presidente Obama (246 republicanos, 186 democratas, três lugares por preencher). A 8 de Novembro são objecto de eleição os 435 lugares da Câmara e 34 lugares no Senado. Com esta margem de 2/3%, dificilmente haverá grandes mudanças no Congresso. Se acreditarmos na tese de que os republicanos terão mais votos que o seu candidato presidencial, então claramente teremos um Congresso fundamentalmente republicano.

Os últimos quatro anos foram já de enorme inoperância pela polarização entre o Presidente Obama e um Congresso essencialmente republicano. Com a Presidente Clinton, será bem pior. Primeiro, a relação entre Hillary Clinton e as lideranças republicanas é péssima há muitos anos (aliás, um argumento que Obama usou nas primárias democratas de 2008 contra Clinton). Segundo, uma derrota por uma margem tão pequena adiará a inevitável crise interna dos republicanos (profundamente divididos entre os fiscal conservatives e a Christian right). Trump provavelmente desaparecerá de cena, regressará aos seus negócios (que bem foram beneficiados com esta campanha). Mas afastada a catástrofe anunciada pela comunicação social e instalado o discurso populista, os republicanos ir-se-ão unir temporariamente com um único objetivo – derrubar Clinton. E a palavra-chave será impeachment.

Hillary Clinton pode ter, assim, o seu papel Dilma. Antes de tomar posse, já terá ameaças de impeachment. Constitucionalmente, este apenas se aplica a faltas graves cometidas in office. Mas a história dos emails, os escândalos do financiamento da Fundação, o mais que encontrem, tudo servirá para alimentar esse projeto. A probabilidade de um impeachment realmente acontecer nunca será alta, mas impedirá certamente Clinton de governar, inevitavelmente transformará a sua presidência débil num circo e os Estados Unidos terão outros quatro anos de bloqueio institucional.