Cristiano Cabrita

Investigador

Doutorado em Ciência Política e Relações Internacionais, é Investigador no CIEP – Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e autor do livro O Neoconservadorismo e a Política Externa Norte-Americana, que será publicado brevemente

Jack Bauer, Trump, e o princípio do fim da ordem internacional norte-americana

Questão de partida: o que é que Jack Bauer da série televisiva 24 tem a ver com o processo eleitoral que actualmente decorre nos EUA? Mais importante, qual é o fio condutor que o liga à possibilidade do colapso da ordem mundial norte-americana construída após 1945? Aparentemente, nada. No fundo, tudo.  Passo a explicar.

Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA desenvolveram uma política externa visando a sustentação de um processo de construção e legitimação hegemónico, assente primordialmente em torno dos princípios da democracia, do liberalismo económico e da paz. Dando-lhe, é certo, uma interpretação muito própria criaram uma ordem internacional, pós-1945, altamente institucionalizada, do ponto de vista económico, político, militar e cultural não só mas, particularmente, evidente na Europa Ocidental erguendo, deste modo, as fundações de uma hegemonia vincadamente consensual. Esta grande estratégia (grand strategy) hegemónica tem origens longínquas. O estatuto de superpotência que os EUA detêm no sistema internacional contemporâneo advém de um processo que se iniciou, no dia 4 de Julho de 1776, com a Declaração de Independência das 13 colónias atlânticas da América do Norte. O mundo que os EUA procuraram construir, e até certo ponto conseguiram, é um mundo marcado profundamente pelos princípios da ideologia liberal inicialmente defendidos pelos Founding Fathers, tendo sido depois utilizados na delineação dos principais parâmetros da política exterior.

É um mundo, com as suas vicissitudes, é certo, assente em princípios universais (direito de todas as pessoas à vida, à liberdade e à busca da felicidade) e em princípios constitucionais destinados a consagrar de forma efectiva as liberdades individuais e de justiça, defendendo no fundo a rule of law. 

Não é um mundo perfeito, longe disso, mas teve o mérito de, ao longo da segunda metade do século XX, e agora ao entrar no século XXI, promover a tese Kantiana de paz democrático-liberal e cimentá-la junto de grande parte das nações que querem viver numa ordem internacional ordeira, pacífica e onde possa existir, sobretudo, uma relação de paz entre as democracias sem o fantasma da guerra por perto.

Tudo isto terminará se Donald Trump for eleito. Claro está que o país não acabará de um momento para o outro. Claro está que os EUA não se vão isolar da comunidade internacional num estalar de dedos. Claro está que os defensores do milionário republicano dirão que a democracia foi “respeitada” e “defendida” e por aí em diante. Claro está que muitos dirão que Trump mudará o rumo do seu projecto político se for eleito. Talvez tenham razão. Mas este conjunto de imponderáveis é, no mínimo, assustador.  Eu creio que será um dia triste para a democracia, aquela democracia que conhecemos e que tem o seu expoente máximo, por exemplo, nos princípios defendidos por Edmund Burke, Alexis de Tocqueville ou Woodrow Wilson. Não posso deixar de recordar aquele fatídico ano de 1933 quando o Partido Nazi chegou ao poder na Alemanha. Grande parte do Partido Republicano  considera que “não há comparação possível”.  Pois não, não há. Na altura a Alemanha posicionava-se para se afirmar como uma potência revisionista. Hoje em dia os EUA são a maior potência mundial com responsabilidades acrescidas no que diz respeito à estabilização sistémica. E isso faz toda a diferença. A maior das diferenças. 

Aqueles princípios basilares deixarão de fazer sentido para um populista demagogo como é Donald Trump.  É como rasgar a Declaração de Independência e a Constituição dos EUA de forma conscientemente e deliberada. Trata-se de rejeitar 240 anos de história democrática norte-americana.

Estamos a viver uma nova realidade.  Mal ou bem, republicanos e democratas tiveram sempre algum tipo de respeito no que concerne ao legado dos Pais Fundadores: defesa da liberdade, democracia, respeito pelas diferenças do próximo (religiosas, étnicas, credo, etc). Tudo isso acabou com Trump.  Racismo, xenofobia, demagogia e o populismo perigoso impregnaram-se na sociedade americana de uma forma tão perigosa como inesperada. A exigência de grande parte do eleitorado conservador republicano para o aumento das liberdades de cada um e o castigo ao papel do Estado central não devem, não podem, explicar tudo.  Posto isto, tenho assistido a uma série de comentários políticos que mudam conforme as sondagens. Na rádio, na televisão, todos agora advogam que Trump está próximo da vitória. Por mim, continuo convicto que Clinton vai ganhar: só pode ganhar, para bem dos EUA e do mundo em geral.  Será difícil? Não duvido.  Mas acredito que no último minuto, à beira da urna, mesmo no último segundo, no último milésimo de segundo, que o eleitor norte- americano fará o mais correcto.  Não será tanto por acreditar nos méritos de Hillary Clinton. Como escrevi anteriormente,  Clinton não consegue comunicar com o eleitorado, não consegue passar a sua mensagem.  Porquê? Porque não tem personalidade e porque  do outro lado da barricada está quem saiba fazê-lo muito bem.  Acredito que o voto útil será mais por receio do desconhecido que Trump representa do que por qualquer outro tipo de razão objectiva. Para que isso aconteça é necessário que a taxa de abstenção desça e que Clinton consiga chegar ao eleitorado descontente, reforçando a votação junto das mulheres e das minorias étnicas e religiosas.  Vamos esperar que isso aconteça. Tudo isto dependerá da premonição de Jack Bauer e  da série 24.

Como sabemos,  a série 24, protagonizada por  Keifer Sutherland, tem como personagem principal o já lendário Jack Bauer, o agente norte-americano que luta contra os terroristas. O enredo é mais ou menos semelhante a todos os outros. Bauer acaba quase sempre por salvar o mundo dos terroristas e quando assim é tudo acaba em bem. Mas o que me mais me fascina nesta série – e noutras de igual calibre – é a extraordinária capacidade de premonição sobre a política norte-americana. Porquê? Porque na segunda temporada (2002), ou seja anos antes de Barack Obama ser eleito, a série apresentava um tal de Presidente Palmer…….de origem afro-americana. Não me recordo doutra série o ter feito com tal dimensão. Aqui foi derrubada uma barreira psicológica sobretudo se pensarmos que todos os presidentes norte-americanos haviam sido até aí de origem anglo-saxónica. Ora, na 7ª temporada a série apresenta como protagonista uma tal de Presidente Taylor…..uma mulher! Que a capacidade premonitória da série 24 continue, é o que mais desejo para bem da ordem internacional construída pelos EUA a seguir a 1945.