Miguel Ferreira da Silva

Director da Comissão para o Estudo e Estratégia da Governação do Mar

Especialista em Segurança, Defesa e Política Internacional, foi representante português no Africa Center for Strategic Studies e adido político na embaixada de Portugal em Washington.

AMEXIT Countdown, o porquê e o dia seguinte

Literalmente na véspera das eleições presidenciais americanas, convirá preparamo-nos para não ser surpreendidos. Seja qual for o resultado, o mundo tem de reagir, e desta feita, ao contrário do referendo inglês, convém sobretudo não projectar uma imagem de impreparação caso a “surpresa” se concretize.

De recordar, neste contexto de probabilidades versus convicções politicas, que reinava na Europa um sentimento de “quem tem medo do referendo inglês”? Sentimento fundado num desejo muito mais do que em factos, como o resultado veio provar.

Como então nos dizia a Reuters, na véspera do referendo de 23 de Junho de 2016: “A maioria das sondagens dizem que os resultados são demasiado próximos para previsões, e dependem da participação (dos eleitores) no dia (da eleição) e de alterações de voto entre o substancial número de eleitores indecisos”.

Uma das empresas de sondagens, chegou mesmo a afirmar que parecia provável que o “remain” ganhasse (com uma vantagem de 6 pontos), sendo a questão principal saber se essa vitória seria por uma margem significativa.

Outros mais prudentes, como o Primeiro-Ministro David Cameron, afirmavam publicamente que as sondagens eram tão próximas que “ninguém” sabia o que iria acontecer”. Uma afirmação preocupante, mas tendo em vista uma mobilização do voto no “remain”, ainda que já com a convicção de vitória. O The Economist publicava uma sondagem com o empate a 44% e 9% de indecisos, enquanto o Financial Times publicava uma sondagem com vitória do “remain” (48%) contra o “leave” (46%) e 6% de indecisos.

O resultado final é conhecido de todos.

Hoje (7 de Novembro de 2016), o mesmo Financial Times publica uma sondagem com vitória de Hillary Clinton (45,1%) contra Donald Trump (42,2%), enquanto o The Economist aumenta em um ponto essa vantagem entre Hillary (48,1%) e Trump (44,1%).

Uma vez mais, o resto do mundo ocidental (não eleitor) padece de “wishful thinking”. Daquele desejo transformado em convicção, que nos trouxe a surpresa do Brexit.

O que faz a surpresa grande? Essencialmente dois factos: liderança e protesto.

Por um lado subsiste a convicção de que a preparação de Hillary Clinton a transforma desde logo na melhor candidata. Uma visão que peca por perder de vista a função representativa da política. E digo “da política” porque também em funções executivas (e portanto não só nos representantes ao órgão legislativo) os eleitores esperam alguém que corporize os seus anseios, temores e projectos. Alguém que – ideal mas não necessariamente melhor preparado do que eles – os faça sentir parte integrante do “sistema”. Políticos que consigam lideram uma visão partilhada com o povo soberano, e não apenas competentes gestores da burocracia estatal. Hillary apresenta-se, mesmo entre muitos elementos do partido Democrata, sem o carisma de uma liderança nova e com visão de futuro. Uma liderança segura, é certo, uma “aposta cautelosa e responsável” também, mas muito longe do rasgo inspirador de nomes típicos do seu partido, de Kennedy a Obama, passando pelo seu próprio marido. Neste ponto Bernie Sanders é o verdadeiro galvanizador, com os seus apoiantes a terem dificuldade em apoiar Clinton e, no limite, a serem obrigados a “tapar os olhos” no momento do voto.

Por outro lado intensifica-se, na América como na Europa, um ressentimento com a falta de lideranças, de visão, de acção governativa com que o eleitor médio se identifique. Sim, compreende-se a justificada cautela dos Governos em manter o sistema financeiro, mas as soluções necessárias, embora certas para esse sistema, são inerentemente distantes da realidade do eleitor. Não se trata apenas de ressentimento pela ajuda do governo ao Banco que reclamou a propriedade de uma casa hipotecada e depois faliu. Trata-se antes da falta de uma visão de um futuro que dê sentido a esse sacrifício. Como se os “seus” eleitos governassem não para os eleitores, mas para um conjunto restrito de interesses. Ambas as tendências a resultaram num inultrapassável desejo de protesto.

Voltemos ao acto eleitoral.

Amanhã, quem se sentirá mais motivado a sair de casa – e eventualmente percorrer longas distâncias – e, sem justificação garantida para chegar tarde ao trabalho, “perder” tempo a votar? O eleitor não muito inspirado pela “sua” candidata, ou o eleitor que deseja protestar contra “o sistema”?

Neste cenário, devemos ainda ter em conta os eleitores “envergonhados”. Aqueles que, interiormente insatisfeitos ou contestatários, percebem a impopularidade de declarar apoio a Trump no seu círculo social. Mas que, sozinhos na cabine de voto, se sentirão livres para experimentar “algo diferente”.

Amanhã, caso o céu nos caia em cima, antes de reacções apressadas – de que mais tarde nos pudemos arrepender – convém lembrar que o nosso aliado não é o presidente dos Estados Unidos da América, mas o povo americano.

A mais antiga aliança do mundo, a Aliança Luso-Britânica (Tratado de Windsor de 1386), sobreviveu a vários regimes, existia antes da União Europeia e sobrevive-lhe.

O mesmo deveremos pensar sobre uma das três prioridades da política externa portuguesa nos últimos 500 anos: o Atlântico e, hoje, os Estados Unidos da América.

Se nas eleições de amanhã a América se “fechar”, devemos respeitar esse desejo. Mas isso não implica que deixemos de assumir um papel único que Portugal sempre teve na ligação transatlântica.

A título de exemplo recordo a possibilidade de Estados federados dos EUA poderem estabelecer, ainda que de forma limitada (mas directa) relações internacionais com Estados Soberanos.

Recordando a importante herança portuguesa em Estados como Massachusetts, Rhode Island, California, Hawaii e Nova Jérsia, será porventura tempo de Portugal os propor como Estados Membro da CPLP.

Isso sim será ultrapassar o momento e aprofundar a relação.