Paulo Portas

Antigo vice-Primeiro-Ministro e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros. É actualmente consultor da Mota Engil, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa e comentador da TVI

Hillary, obviamente

Um cínico poderia dizer, sobre Hillary Clinton e Donald Trump, algo menos óbvio mas moderadamente optimista: por razões diferentes, os dois só podem ser melhores Presidentes do que candidatos. E na verdade assim parece. Hillary tem sido uma pálida, e às vezes penosa, candidata; se for eleita como provavelmente será, tem mais do que capacidades para ser uma óptima Presidente da única superpotência que de momento sobra. Já Trump, revelou-se tão caótico e disparatado enquanto candidato que, a ser eleito, seria impossível ter um desempenho pior. A gravitas da sala oval e o peso do establishment fariam alguma coisa por ele.

Esta não é, definitivamente, uma eleição normal. Algo mais telúrico e profundo do que a caricatura do costume está a acontecer na sociedade americana. E o que quer que isso seja – suspeito – não morrerá nas urnas no dia 8 de Novembro. A América domou a crise financeira bem melhor do que a Europa, todos o sabemos. A força criativa do capitalismo americano, à distância de menos de uma década, gera um crescimento económico que é o dobro do europeu, e apresenta nada menos do que um caso de pleno emprego. Num país assim deviam viver-se tempos felizes que tornariam Donald Trump uma inexistência política e Bernie Sanders uma figura residual. Porém, não é assim.

Donald Trump conseguiu fazer a mais extraordinária OPA hostil ao partido de Lincoln e Reagan que algum dia se viu. E Sanders – absolutamente inelegível para o mainstream americano – resistiu até ao fim, melhor dito a base democrata resistiu até onde podia ao regresso da indústria Clinton – sim, os Clinton, como os Bush, e antes deles os Kennedy, são uma indústria politica, nacional e internacional.

Três explicações concorrem ao mesmo tempo – e se calhar todas são verdades parciais -, para explicar a tormenta em que o partido do burro se desgastou e o do elefante se perdeu. A primeira é a transformação cultural da América. Não é preciso ser gramsciano para perceber que as fracturas culturais precedem e condicionam as principais questões políticas. Talvez Donald Trump seja apenas o revelador – ou o catalisador – de uma mudança tão anunciada como inexorável: a América WASP (branca, anglo-saxónica e protestante), já não é o que era e a prazo deixará de ser o que ainda é. Não será impossível que essa América dominante tenha despertado sem conforto para as leis paralelas da demografia e das migrações: se hoje os americanos WASP ainda são a maioria absoluta da população (62 por cento), daqui a três décadas serão apenas a maior das minorias (46 por cento), acossada pela exponencial proximidade dos hispânicos (28 por cento), asiáticos (8 por cento) e ainda dos “multiracial americans”. Daqui ao tema da imigração – mesmo num país forjado por imigrantes – é um ápice e vai um passo.

O comunitarismo pode ser remédio provisório para as minorias e mesmo isso, como se vê pela conflitualidade com os afros, é discutível; mas não o serve, certamente, perante este furacão transformador. Os republicanos teriam, aliás, alguma coisa a ganhar com a latinização do eleitorado, mas dramaticamente preferiram a sua rejeição. Com a honrosa e pouco popular excepção de Jeb Bush, nenhum parece perceber que já é improvável eleger um Presidente americano sem a colaboração meticulosa dos que falam espanhol.

O paralelo deste factor cultural foi enunciado – economicamente – a meias entre Sanders e Trump e é realmente preocupante. O ressentimento contra a globalização é basicamente uma ideologia europeia que nos há de perder: a Europa está velha, não tem jovens que cheguem, e ainda se dá ao luxo de gritar ódio contra os imigrantes, ao mesmo tempo que clama aos berros pelos “direitos adquiridos”. É a receita para a falência. Na América, esse sentimento não é tão intrusivo, mas nestas eleições tornou-se ameaçador. Aproveitando as deslocalizações de fábricas e até serviços, foi possível, à direita e à esquerda, surfar a velha corrente isolacionista e construir reputações a dizer mal de mexicanos ou coreanos, chineses ou indianos. A América “revelada” por Trump e Sanders é essa e não contém qualquer luminosidade. Inovador e muito problemático é o facto de a economia digital e tecnológica produzir o efeito perverso de separar crescimento e rendimento, (no caso americano), ou crescimento e emprego, (no caso europeu). Para esse desconforto, nem Clinton nem Trump têm qualquer solução, pelo menos compatível com o modelo americano de impostos suaves e politica social limitada.

Acresce o derradeiro factor, de natureza política e tão antigo como a Sé de Braga. Na linha imaginária mas divisória entre o establishment e a América profunda, Hillary perde e Trump insinua-se. Não sei se a esquerda europeia alimentará muitas ilusões com Hillary, mas depressa descobrirá que está à direita de Obama na política económica (é considerada sem contestação de maior a candidata de Wall Street), e será, na política internacional, bastante mais decidida, intervencionista e surpreendente do que Obama, até porque é bastante menos dependente da correcção política do que ele. Precisamente porque pertence ao establishment, Hillary é uma profissional. O meu testemunho sobre Hillary Clinton é exactamente esse: trata-se de uma profissional, ou seja, uma stateswoman de elevada categoria – a expressão vai tornar-se comum dentro de semanas.

Como todas as longas carreiras políticas, a dela não é isenta de complexidades. É possível que a sua Presidência seja regularmente frequentada por folhetins que os americanos adoram – tipo esta never ending story da correspondência por email, que cola não tanto à sua verdade, mas à sua percepção: os americanos acham que ela se considera naturalmente superior aos outros, portanto no direito de não cumprir as regras gerais. É provável que mantenha constância quanto à política orçamental de Bill Clinton, o último Presidente a apresentar um orçamento equilibrado, essa ideia conservadora bastante saudável que na Europa é praticamente sinónimo de pecado ou crime. E alguma coisa ela terá de fazer num ponto em que Trump diz a verdade – a insustentável dívida americana, um legado que se tornou mais sombrio com Obama. Na política externa, serão sensíveis assuntos como a sua inclinação para a russofobia – que não convém à Europa -, e o seu alinhamento não tanto com Israel, mas com os falcões de Israel – o que é um risco. Dito isto, Hillary será certamente uma garantia para o vínculo transatlântico e a tremida aliança entre a América e a Europa, ainda mais necessária no preciso momento em que o velho continente, sem o Reino Unido, perdeu metade da sua capacidade de dissuasão nuclear e não tem “intelligence” cooperativo que chegue para a ameaça do terrorismo. Em princípio, passadas as renúncias ou omissões eleitorais, ela também será mais “free trader”, coisa que para o minguado crescimento europeu – mediante um acordo justo e transparente – não é de pouca monta. Em globalização, onde tudo muda muito depressa, é porventura um atrevimento prever mais do que isto. Mas é certo e seguro que ela é uma profissional; com Hillary na Casa Branca o mundo não acordará todos os dias com um aventureiro à solta. Tratando-se dos Estados Unidos da América e não das Ilhas Fiji, isso tranquiliza-me.

A maioria dos meus amigos, nos Estados Unidos, são republicanos clássicos (uma espécie de momento em aparente extinção). Estão envergonhados com o assalto de Trump – by the way, ele só se inscreveu como republicano para estas eleições – e preocupados com a perda da Casa Branca por quase duas décadas. Com toda a franqueza, bem podem queixar-se de si próprios. Começaram por tolerar o exótico Tea Party, em vez de comandar a sua gente e não depender da sua agenda. E agora deixaram o partido ir parar às mãos de Trump, e virar do avesso as suas certezas fundadoras. Precisamente porque não é boa candidata, Hillary soçobraria perante um conservador habitual. Já com Trump, os dados ainda não estão definitivamente lançados, até porque em todo o lado há uma certa tendência para votar em qualquer um, menos nos do costume. Mas é como se lhe tivesse saído a lotaria e a terminação. E ela não tem ar de desperdiçar a sorte que ajuda o talento.