Made in America

A fabulosa ascensão de Devin Nunes

Depois de dois dias com Donald Trump, o poderoso líder da Comissão de Informações da Câmara dos Representantes mostrou à SÁBADO os locais da sua infância, incluindo a quinta onde passava os dias a ordenhar vacas. Agora foi nomeado para a equipa de transição do presidente eleito dos EUA

O dia estava quente em Tulare, uma pequena cidade no Vale de San Joaquin, na Califórnia. Devin Nunes, 42 anos, o republicano luso-descendente que preside à Comissão Permanente de Informações da Câmara dos Representantes do Congresso americano, esperava à porta de casa, vestido com calças de ganga, ténis e uma camisa de manga curta. “Está demasiado calor. Tire já o casaco”, pede, com um sorriso, enquanto estende a mão direita e guarda o iPhone com a esquerda. Ele próprio está satisfeito por ter trocado o habitual fato e gravata por um traje mais informal. “Passei os últimos dois dias com Donald Trump – e com a mesma roupa”, graceja.

Era terça-feira, 30 de Agosto. O candidato presidencial tinha-se deslocado a Tulare para um evento privado de angariação de fundos que foi organizado pelo luso-descendente. Para o preparar sobre os temas a abordar no encontro, na véspera, Devin Nunes reuniu-se com o milionário na região de São Francisco. Deveria ter regressado a casa para jantar com a família e voltar a juntar-se a Donald Trump em Tulare. Mas o magnata não o permitiu: “No fim da nossa conversa, ele virou-se para mim e disse: ‘Tu vens comigo.’ Não podia dizer que não”.

Acabou por fazer a viagem de São Francisco para Los Angeles no avião particular do candidato e passar a noite num hotel nas imediações do aeroporto. Com ele seguiram o antigo mayor de Nova Iorque, Rudy Giuliani, e o presidente do Comité Nacional Republicano, Reince Priebus, a dupla que passou a acompanhar o milionário desde a queda abrupta nas sondagens na sequência das inúmeras polémicas em que se envolveu depois da Convenção do Partido Democrata, no fim de Julho.

O grande tema do almoço de angariação de fundos com Donald Trump foi a questão da água – ou a falta dela. O mesmo problema que, em 2002, levou o luso-descendente a candidatar-se a um lugar na Câmara dos Representantes e, contra todas as expectativas, a ganhar. Tinha 29 anos. Tornou-se então um dos mais jovens congressistas do país. E em todos os mandatos fez da escassez da água no seu distrito o tema principal das suas campanhas. Conseguiu resolvê-los? “Não”, ri-se. “Temos levado pancada todos os dias.”

A escolha não foi ocasional. Há três gerações que a sua família se dedica à agricultura e à criação de gado. “Dois dos meus bisavôs vieram juntos de São Jorge, nos Açores, e desceram no comboio aqui em Tulare”, conta, enquanto aponta para a zona onde no início do século XX ficava a estação ferroviária. Os dois homens acabaram por ir viver para localidades distintas. Só voltaram a ver-se três décadas depois, quando os filhos casaram. Com o passar dos anos, a família de imigrantes passou de simples agricultores a proprietária de uma fazenda que transitou de geração em geração.

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O jovem Devin Nunes seguiu a tradição e começou cedo a trabalhar na quinta. “Dizem que parti alguns tractores, eu acho que não foram assim tantos. Pelo menos não foram mais do que outros membros da família”, diz. Ainda assim, por causa disso, fizeram-no tratar da ordenha das vacas. Ao mesmo tempo, fez o liceu na Tulare Union High School. Depois de se licenciar em Agricultura pela Universidade Politécnica da Califórnia, regressou a Tulare para gerir a quinta e a criação de gado da família. “Na altura aumentei o número de cabeças de gado de 600 para 1.100”, conta enquanto percorre as instalações da fazenda ao volante do seu Nissan Altima cinzento. “Fui também eu que projectei este estábulo, embora já não o tenha construído porque comecei a dedicar-me à política.” A estrutura gigantesca, que alberga centenas de cabeças de gado, está equipada com enormes ventoinhas e um sistema de rega destinado a manter os animais frescos. “A água escorre toda para uma zona onde é reaproveitada para regar as colheitas”, explica.

Uma região onde tudo cresce

A quinta é agora gerida por um primo, ainda com a colaboração da avó do congressista. Aos 94 anos, Evelyn Nunes continua activa. “Às vezes temos de ter cuidado porque senão ela vai lá para fora trabalhar durante o calor”, graceja perante o olhar enternecido da nonagenária que interrompeu o trabalho para o receber. “Acabei de te ver na televisão”, diz, referindo-se ao evento de angariação de fundos de Donald Trump. “Estiveste bem.”

Apesar de estar há 14 anos em Washington, Devin Nunes mantém uma forte ligação à terra natal. É lá que a mulher, Elizabeth, e as três filhas pequenas continuam a viver e é para lá que regressa sempre que pode, apesar das inúmeras viagens a que a sua posição no Congresso o obrigam. Vê-se que conhece bem o distrito que representa e que inclui uma parte de Tulare e também da cidade de Fresno. “Esta é a maior zona agrícola dos Estados Unidos e uma das maiores do mundo”, diz.

Celebrizado pelo escritor John Steinbek na obra As Vinhas da Ira, o Vale de San Joaquim é uma enorme região que se estende das montanhas Tehachapi, a sul, até Sacramento, a norte. Percorrer a auto-estrada 99, a partir de Los Angeles, em direcção a norte, permite perceber porque já foi mesmo chamada de “cesta de alimentos do mundo” [a expressão é food basket]. Com o passar dos quilómetros, a paisagem árida dos arredores de Hollywood é substituída por campos infindáveis de árvores de fruto, vinhas e vegetais, ladeadas pela Serra Nevada a leste. Tudo parece crescer na região. “Esta terra é muito boa. Por isso é que temos mais de 300 colheitas”, diz Devin Nunes. Além do vinho, o algodão e frutos secos como amêndoas e pistácios estão entre as produções mais relevantes.

Contudo, muita coisa mudou desde que Devin Nunes foi eleito para a Câmara dos Representantes. Dezenas de milhares de hectares agrícolas foram convertidos em zonas urbanas e muitas outras quintas obrigadas a reduzir a produção. O problema é a falta de água. Ou melhor, nas palavras do congressista, a sua má distribuição. “Nós não temos falta de água no estado. O problema é que uma série de decisões políticas tomadas por ecologistas radicais estrangularam o sistema de rega para a enviar directamente para o oceano, o que é de doidos”, diz. “É por isso que uma região que devia ser das mais prósperas do mundo tem um desemprego que chega aos 18%”, continua.

As decisões a que se refere destinaram-se a tentar salvar a população de salmão nos rios da Califórnia. Mas para Devin Nunes isso não só não está a ser conseguido como está a prejudicar a economia da região. Foi isso que explicou a Donald Trump e às cerca de 800 pessoas que, na quarta-feira, 31 de Agosto, encheram o Heritage Complex, em Tulare, para o ouvir.

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O evento foi preparado durante cerca de dois meses. E foi um dos maiores da campanha de Devin Nunes para a reeleição. “Costumamos dizer que a água é o problema número um, número dois e número três da região”, disse à SÁBADO Anthony Ratekin, chefe de gabinete do congressista, na véspera do encontro. Ao mesmo tempo, no palco, Devin Nunes testava a apresentação em PowerPoint que iria mostrar no dia seguinte.

Uma crise que atinge todos

Ao longo de cerca de 20 minutos, o luso-descendente explicou a uma plateia composta maioritariamente por agricultores da região os motivos porque têm cada vez menos água para as suas colheitas. “Lamento não ter boas notícias, mas estou aqui para vos dizer a verdade”, afirmou. “A única forma de revertermos a situação é mudarmos a lei, o que é complicado porque não temos os votos suficientes”, continuou. Com cerca de quatro milhões de habitantes, o Vale de San Joaquin representa apenas 10% da população da Califórnia. O que torna muito difícil obter o apoio necessário para alterar leis impostas pela maioria. “Nós temos tentado, mas só com o vosso apoio e mobilização popular será possível mudar alguma coisa”, disse, dando como exemplo vários projectos de lei que foram vetados no Senado e que suscitaram cartas de oposição escritas pelo próprio governador da Califórnia.

Na plateia estava José Machado, um imigrante português originário da ilha Terceira, que chegou aos EUA em 1966. Tinha 5 anos. O pai começou a trabalhar numa leitaria, até conseguir comprar algumas cabeças de gado e montar o seu próprio negócio. José Machado e os irmãos herdaram-no. “Há anos em que corre bem e outros em que falta dinheiro”, diz à SÁBADO. A falta de água é um dos motivos da crise. “Temos um problema de ordem natural, que é a falta de chuva, e outro de governo, que tem água e não a manda para cá por causa dos peixes que não valem um cacete e estão à frente da vida das pessoas. A água que vai para o mar podia sustentar os agricultores”, afirma. “O Devin é bom rapaz, mas sozinho não pode tratar disto. Nós estamos sempre à procura de alguém que resolva isto, mas nós é que temos de fazer alguma coisa.”

A crise não afecta só os agricultores. Toca todos os negócios que orbitam à volta. “Isto afecta as empresas de tractores, petróleo, fertilizantes, pneus, seguros e venda de peças. Quando um agricultor não tem água não precisa de nós para o ajudarmos”, diz Steve Malanca que tem um negócio de maquinaria. “As vendas de equipamento agrícola baixaram 50% a 80% nos últimos anos. É um efeito bola de neve.”

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Devin Nunes representa uma minoria republicana num estado esmagadoramente democrata. Contudo, no seu distrito eleitoral, uma região com 800 mil pessoas, não tem grande oposição. “Ele ganhou todas as eleições com uma maioria confortável e o candidato democrata é praticamente desconhecido”, diz à SÁBADO Dinis Borges, professor e cônsul honorário de Portugal em Tulare. O luso-descendente é também o republicano com maior taxa de aprovação da Califórnia e o que mais votos consegue entre a população registada como democrata.

Em Novembro deverá ser eleito pela oitava vez consecutiva. E manterá o poderoso lugar de presidente da Comissão Permanente de Informações, que ocupa desde 2014, e que lhe deu um lugar no chamado “Gangue dos Oito” – um grupo de responsáveis, incluindo líderes partidários do Senado e da Câmara dos Representantes, que são notificados de acções secretas particularmente sensíveis levadas a cabo pelas agências de informações americanas. Por exemplo, durante o governo de George W. Bush, este grupo estava entre os poucos que foram informados sobre o programa de vigilância da National Security Agency. É também membro do “Gangue dos Quatro”, composto pelos principais democratas e republicanos com assento nos painéis de Informações do Senado e da Câmara dos Representantes, que é informado de outras acções secretas.

Livre para dizer o que pensa

Foi já nessa qualidade que entrou em polémica com o Departamento da Defesa americano por este não ter avaliado a possibilidade de a base das Lajes receber o novo centro de informações que foi proposto ser construído no Reino Unido. A sua defesa da opção pela base açoriana fez com que fosse acusado de favorecimento da terra dos seus antepassados – e que classificou de disparate.

Nas suas funções nunca abdicou de dizer o que pensa. Classificou a política externa de Barack Obama como um “desastre completo” e os seus responsáveis como “bananas” por usarem drones para atacar terroristas e não permitirem técnicas de interrogatório mais agressivas. Atacou também os colegas republicanos que em 2013 fizeram tudo para que o executivo não aprovasse o Orçamento do Estado – o que levaria ao encerramento dos serviços governamentais – e classificou o congressista do Michigan, Justin Amash de “melhor amigo da Al-Qaeda” por causa do seu registo de votos em relação ao programa de vigilância da NSA. “Não tenho problemas em dizer o que penso”, afirma. Talvez porque garante ter o que fazer se deixar a política. “Sou sócio de uma empresa produtora de vinho da Califórnia. É a minha paixão. Se não estivesse na política estaria a fazer isso.”

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Em casa tem duas arcas frigoríficas que mantêm o vinho à temperatura perfeita. Entre elas estão as garrafas da sua própria produção mas também de vinhos portugueses: verde, tinto e do Porto. A escolha da bebida que vai tomar à refeição é importante. “Às vezes é um dos momentos altos do meu dia”, garante. Naquela terça-feira de Agosto, já de calções e T-shirt escolheu um Chardonnay para servir de aperitivo antes de jantar. Bem fresco, que o dia estava quente.

Reportagem publicada originalmente na edição especial sobre as eleições americanas, a 8 de Outubro de 2016.