Fogo Cruzado

“As guerras não acabam porque uma pessoa decide”

O membro da equipa de transição de Donald Trump e presidente do Comité de Informações da Câmara dos Representantes falou sobre a sua ascensão na política, o terrorismo, as relações dos EUA com a Rússia, a NATO e o futuro das Lajes

Como é que alguém com um passado tão ligado à agricultura chega a presidente da Comissão Permanente de Informações da Câmara dos Representantes?
Às vezes pergunto-me o mesmo. Fui eleito para o Congresso depois do 11 de Setembro de 2001 e desde então estivemos em guerra com o Islão radical. Perdemos muitos soldados nesse conflito, incluindo do meu distrito. Isso foi algo com que estive envolvido desde então. Passei também muito tempo a lidar com assuntos económicos e comércio, que se cruzam com os temas militares e de intelligence. Fiquei mais envolvido nestas matérias e, em 2010, os meus pares escolheram-me para servir na Comissão. Quando o lugar de presidente vagou, o então speaker dos Representantes pediu-me para a liderar e o actual pediu-me para continuar.

Alguma vez pensou fazer parte do Gangue dos Oito [grupo restrito que é notificado de acções secretas]?
Não. [Risos] Às vezes não sabemos onde vamos acabar. É uma honra.

No dia em que tomou posse como presidente da comissão, houve o atentado no Charlie Hebdo. O terrorismo continua a ser a maior ameaça para os EUA?
É uma das ameaças. Temos o problema do radicalismo islâmico, que está a crescer globalmente. E não é só o Estado Islâmico (EI), mas também a Al-Qaeda, de que toda a gente parece esquecer-se. Como costumo dizer, são primos. Os nossos aliados na Europa têm enfrentado pressões tremendas. Desde o ataque ao Charlie Hebdo que houve mais e mais ataques. Temo que entre os refugiados que vieram para a europa e os outros migrantes económicos [possam estar] pessoas que foram lutar pelo EI e voltaram para a Europa. São uma ameaça a longo prazo para os nossos aliados e em ultima instância para os EUA.

Mas é mais difícil um combatente terrorista estrangeiro chegar aos EUA do que à Europa.
É. A Europa enfrenta um problema mais complicado. Mas também há a radicalização pela Internet e as nossas fronteiras não são seguras. Há sempre o perigo de grupos terroristas entrarem pelas fronteiras norte e sul. Além disso, se alguém quiser fazer alguma coisa má, é fácil vir para os Estados Unidos a partir da Europa Ocidental porque temos acordos de visita.

Qual é a solução?
Esta será uma guerra multigeracional. Não vai desaparecer em breve. Um dos desafios que tivemos nos EUA, especialmente com a actual administração, foi que ela prometeu ao povo americano e ao mundo que as guerras iam terminar. O problema é que elas não acabam porque uma pessoa decide que sim. As guerras acabam quando o outro lado é morto ou desiste. No caso do islamismo radical eles estão a crescer.

O islamismo radical é uma ameaça maior do que a Rússia?
Não diria que uma é maior que a outra. A qualquer momento estas múltiplas ameaças podem crescer. Se tiver de dar uma visão global, temos o problema do islão radical; o regime totalitário na Rússia; o Irão e a Coreia do Norte (geridos por lideranças lunáticas que nunca se sabe o que vão fazer); a ameaça crescente da China, não só militar mas também em termos de soft power; e o desafio cibernético.

Disse que um dos maiores fracassos da espionagem americana desde o 11 de Setembro foi a incapacidade em antecipar as acções da Rússia de Putin…
É o maior fracasso desde que não foi visto o crescimento do Islão radical. Esse foi o maior. O segundo foi a incapacidade de não prever os planos de Putin. O actual Presidente e os anteriores acharam que Putin ia criar um novo tipo de governo limpo e transparente. Há quem lhe chame um novo Czar e essa é uma descrição precisa.

O que pode fazer a comunidade de informações para contrabalançar essas ameaças?
O que precisamos é de ter grandes forças da NATO prontas para a acção. Acho que o velho urso russo está de volta aos velhos truques e só vai responder à força. É horrível, não queremos que isto aconteça. A Rússia devia juntar-se ao resto do mundo. Podiam fazer coisas muito boas pelo seu povo mas também pelo resto do mundo para trazer paz e estabilidade. Mas não parecem estar a ir nessa direcção.

Há alguma hipótese de a decisão de construir o novo centro de informações no Reino Unido ser revertida e de o trazer para as Lajes?
As informações da NATO são críticas. Foi criado um novo departamento de informações e gostava que essas instalações ficassem na área de Bruxelas, porque faz sentido e seria mais útil elas estarem perto do comando central. Já a questão do componente mais largo, do exército dos EUA, não anda longe da corrupção. Os contractors e os civis do Departamento da Defesa querem ficar onde recebem mais e querem construir uma nova instalação no Reino Unido. É uma infelicidade porque a Base das Lajes faria todo o sentido para isso, tal como outras. O desafio dos militares é explicar ao Congresso e ao povo americano porque não olharam para outras instalações já existentes que teriam poupado aos contribuintes mais de 1.000 milhões de dólares. Os Açores continuam a ser uma óptima localização para hub de intelligence, para analistas trabalharem. Há outras na Europa, mas a questão é que a instalação no Reino Unido foi errada e precisa de ser mudada.

Esta entrevista foi originalmente publicada na edição especial da SÁBADO América Dividida, que pode descarregar gratuitamente através da app da revista para os sistemas iOS, Android e Windows.